quinta-feira, 12 de março de 2026
conservadorismo na geração z

1 a cada 3 da geração Z concorda com obediência da esposa no casamento, aponta pesquisa

Levantamento internacional mostra que geração Z apresenta maior concordância com ideias tradicionais, enquanto mulheres relatam contradições entre valorização profissional e expectativa de submissão nas relações

Anna Salgadopor Anna Salgado em 12 de março de 2026
votos de casamento
Foto: Freepik

Uma transformação gradual tem sido observada entre os integrantes da nova geração. Embora a chamada Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) tenha crescido em um contexto marcado pela ampla conectividade digital e pela intensificação dos debates sobre diversidade, uma pesquisa global recente aponta um movimento distinto: homens jovens desse grupo apresentam maior concordância com visões tradicionais sobre papéis de gênero. 

Em Goiás, Estado historicamente associado a uma forte herança cultural vinculada ao agronegócio e a valores religiosos, a discussão ganha contornos próprios e aparece no cotidiano de mulheres que convivem, ao mesmo tempo, com o avanço tecnológico e com a circulação de discursos que defendem a submissão feminina.

O levantamento realizado pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College London, que ouviu 23 mil pessoas em 29 países, incluindo o Brasil, trouxe à tona uma realidade desconfortável: 31% dos jovens homens da Geração Z acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido. Este índice é mais que o dobro do registrado entre os homens da geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964), derrubando a crença de que o progresso em direção à igualdade de gênero seria um caminho linear e inflexível a cada nova geração.

No contexto brasileiro, os dados são ainda mais acentuados em certos aspectos. O Brasil ocupa a 9ª posição entre 29 países no que diz respeito à concordância com a ideia de que a mulher deve obedecer ao parceiro. Além disso, impressionantes 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade, um índice vastamente superior à média global de 46%.

Em Goiás, essa tendência se manifesta de forma híbrida. Sociólogos apontam que o Estado reflete bem a tríade conhecida como “BBB” (Boi, Bala e Bíblia), que sintetiza a aliança entre o agronegócio, forças de segurança e setores religiosos conservadores. Essa estrutura social fornece o “pano de fundo” ideológico para que jovens se mobilizem em defesa de morais tradicionais.

Mulheres jovens em Goiânia e no interior do Estado relatam uma dualidade constante em seus relacionamentos. Por um lado, há uma valorização do sucesso feminino; por outro, uma exigência de “recato”. A pesquisa corrobora essa percepção: homens da Geração Z são os mais propensos a afirmar que mulheres com carreiras de sucesso são mais atraentes (41% contra 27% dos Baby Boomers). 

No entanto, essa atração coexiste com o desejo de controle doméstico. Segundo a socióloga Nadya Guimarães, isso reflete uma “dissociação cognitiva”: as pessoas defendem certos valores no espaço público (como o avanço das mulheres no mercado), mas agem de forma diferente na esfera privada.

Em Goiás, onde a imagem do homem “provedor e protetor” é culturalmente forte, esse sentimento de perda de poder potencial, faz com que jovens se agarrem a visões de gênero mais conservadoras como forma de “encontrar sentido no mundo”.

A persistência dessas ideias não é fruto do acaso, mas de uma socialização digital estratégica. O crescimento de comunidades online que propagam a misoginia, muitas vezes disfarçada de “aconselhamento comportamental”, tem um impacto direto nos jovens goianos. Entre 2018 e 2024, foram identificados 137 canais que propagam discursos de ódio contra mulheres independentes, utilizando-se do chamado “ativismo criptografado”, memes e linguagens que transformam o ressentimento em identidade de grupo.

Um exemplo notável é o movimento “Tradwives” (esposas tradicionais), que tem ganhado força no TikTok e Instagram. Através de uma estética visualmente atraente de “pureza e obediência”, essas influenciadoras romantizam o retorno ao papel de dona de casa submissa. Para Penny East, executiva-chefe da Sociedade Fawcett, enquanto homens são ensinados que o caminho para a felicidade é o dinheiro e a força, mulheres estão sendo convencidas de que a submissão é o caminho para o afeto.

Além disso, Robert Grimm, pesquisador da Ipsos, destaca que os algoritmos das redes sociais recompensam mensagens extremadas. Em Goiás, onde o consumo de redes sociais entre jovens é altíssimo, esse ambiente acaba reforçando “bolhas ideológicas” que dificultam o diálogo e consolidam o ideal de feminilidade dócil e comportada.

 

Divisão desigual de tarefas e conservadorismo desafiam igualdade de gênero

Essa mudança de valores tem consequências práticas. No mercado de trabalho goiano, embora a entrada das mulheres seja consensual, a divisão de tarefas domésticas permanece desigual. A pesquisa mostra que, embora muitos defendam a igualdade no plano individual, as expectativas sociais ainda associam o cuidado com a casa e os filhos prioritariamente às mulheres.

Há também um descompasso de percepção: apenas 17% dos entrevistados acreditam pessoalmente que as mulheres devem ser as únicas responsáveis pelo cuidado, mas 35% acreditam que a sociedade espera isso delas. Esse peso das normas culturais transmitidas por gerações faz com que muitas mulheres jovens em Goiás se sintam pressionadas a renunciar à autonomia para não serem rotuladas como “independentes demais”, o que, para 24% dos jovens homens, as tornaria menos atraentes.

A confiança institucional também revela muito sobre esse novo conservadorismo. Dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) mostram que a Geração Z tem depositado altos níveis de confiança em instituições hierárquicas, como as Forças Armadas (35,7%) e a Igreja Evangélica (25,9%), enquanto a confiança em partidos políticos e no Congresso Nacional é baixíssima. Em um Estado como Goiás, onde a presença religiosa e militar é marcante, esse cenário fortalece o que especialistas chamam de “liberalismo autoritário”: uma adesão à liberdade econômica acompanhada de um desejo por ordens morais rígidas e verticais.

Apesar do avanço conservador, o movimento de mulheres em Goiás continua a reivindicar autonomia. A pesquisa da Ipsos indica que a maioria das pessoas (60%) ainda acredita que as coisas funcionariam melhor se mais mulheres tivessem cargos de responsabilidade. Além disso, houve um avanço na crença de que a mulher não é inferior ao homem, embora a resistência permaneça na redistribuição das tarefas de cuidado.

Para Julia Gillard, Chair do Global Institute for Women’s Leadership, é preocupante que muitos homens da Geração Z estejam “aprisionando-se dentro de normas de gênero restritivas”. A ideia de que a igualdade é um “jogo de soma zero”, onde mulheres ganham e homens perdem, precisa ser combatida para que a sociedade avance.

O futuro das relações de gênero em Goiás dependerá de como essa juventude lidará com suas contradições. “É necessário entender que nenhuma experiência humana é estática e caminha em uma só direção”, afirmam especialistas. O enfrentamento das desigualdades, portanto, precisa começar dentro de casa e ser reforçado por uma educação crítica que desmonte os discursos de ódio mascarados de “valores tradicionais”.

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