segunda-feira, 16 de março de 2026
Saúde

Nova cepa recombinante da mpox preocupa OMS e estudo aponta baixa eficácia de antiviral

Variante recombinante identificada pela OMS mistura dois clados do vírus e pode escapar dos exames PCR enquanto pesquisa mostra que o tecovirimat não trouxe benefício clínico

Nívia Menegatpor Nívia Menegat em 16 de março de 2026
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Nova cepa recombinante da mpox preocupa OMS e estudo aponta baixa eficácia de antiviral. Foto: Reprodução/

Descobertas recentes reacenderam o alerta global sobre a mpox, doença viral da mesma família da varíola humana. Em fevereiro de 2026, pesquisadores identificaram uma nova cepa recombinante do vírus, resultado da combinação de duas linhagens já conhecidas, enquanto um grande estudo clínico colocou em dúvida a eficácia do principal antiviral utilizado contra a doença.

A nova variante foi relatada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o organismo, trata-se de um vírus recombinante formado a partir da fusão de elementos genéticos de dois clados do vírus da mpox: o Ib, associado a surtos mais recentes em países africanos e ligado a quadros mais graves, e o IIb, responsável pelo surto global registrado em 2022.

O aspecto mais preocupante é que os testes laboratoriais convencionais não conseguiram identificar corretamente a nova cepa. Nos dois casos confirmados até agora, detectados no Reino Unido e na Índia, o diagnóstico preciso só foi possível após o sequenciamento genômico completo. Ambos os pacientes tinham histórico recente de viagem internacional, um para um país da região Ásia-Pacífico e outro para um país da Península Arábica, o que sugere que o vírus já pode estar circulando em diferentes regiões.

A OMS avalia que a disseminação do recombinante pode ser maior do que a detectada até agora justamente porque os exames PCR normalmente usados para diferenciar os clados não conseguem identificar esse tipo de recombinação genética.

Antiviral não mostrou benefício em estudo sobre a mpox

Ao mesmo tempo em que a nova cepa foi identificada, um estudo clínico ampliou as preocupações sobre o tratamento da doença. Publicado no New England Journal of Medicine, o ensaio clínico STOMP avaliou a eficácia do antiviral Tecovirimat, principal medicamento utilizado contra vírus do gênero Orthopoxvirus, grupo que inclui o vírus da mpox. O medicamento vinha sendo empregado de forma empírica, especialmente em pacientes com maior risco de complicações. No entanto, o estudo mostrou que o antiviral não reduziu o tempo de cicatrização das lesões, não diminuiu a dor nem acelerou a eliminação do vírus.

O ensaio envolveu 344 adultos imunocompetentes com mpox confirmada do clado II, a maioria com quadros leves ou moderados. Os participantes foram divididos aleatoriamente para receber tecovirimat ou placebo durante 14 dias, em um estudo randomizado e duplo-cego.

Os resultados mostraram que 83% dos pacientes tratados com o antiviral tiveram resolução clínica das lesões, percentual praticamente igual ao observado no grupo placebo, que foi de 84%. A diferença na intensidade da dor também foi mínima, apenas 0,1 ponto em uma escala de 0 a 10,  e a eliminação do vírus ocorreu em ritmo semelhante nos dois grupos. Outro estudo, chamado PALM007 e realizado na República Democrática do Congo, chegou a conclusões semelhantes ao avaliar casos do clado I. Em conjunto, os dois trabalhos enfraquecem a recomendação de uso rotineiro do medicamento em adultos imunocompetentes.

Apesar disso, especialistas destacam que ainda faltam evidências sobre o tratamento em grupos de maior risco, como crianças, gestantes e pessoas imunocomprometidas, justamente os pacientes que podem evoluir para formas mais graves da doença.

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Nova cepa recombinante da mpox preocupa OMS e estudo aponta baixa eficácia de antiviral. Foto: Reprodução/ OMS

A preocupação com a nova cepa também está relacionada às diferenças de gravidade entre as linhagens do vírus. O clado IIb, responsável pelo surto global de 2022, apresentou letalidade inferior a 0,1% em países de alta renda. Já o clado Ib, predominante em partes da África Central, tem sido associado a quadros mais severos, com letalidade estimada entre 3% e 5% nos casos suspeitos e podendo chegar a cerca de 11% entre crianças e pessoas imunocomprometidas.

Entre janeiro de 2024 e maio de 2025, 26 países africanos registraram mais de 139 mil casos suspeitos e cerca de 1.788 mortes relacionadas à doença. No Brasil, não houve óbitos por mpox em 2024 e 2025. No entanto, a confirmação da circulação do clado Ib em São Paulo, em março de 2025, ampliou o nível de atenção das autoridades sanitárias.

Vigilância e prevenção

Diante do novo cenário, especialistas apontam que uma das medidas mais importantes é ampliar o sequenciamento genômico dos casos suspeitos, já que os testes PCR tradicionais não conseguem detectar cepas recombinantes. Também deve haver revisão de protocolos clínicos, considerando que o tecovirimat não demonstrou benefício claro para pacientes imunocompetentes, enquanto ainda faltam alternativas terapêuticas consolidadas para grupos mais vulneráveis.

No campo da prevenção, a vacinação continua sendo a principal ferramenta disponível. No Brasil, o imunizante oferecido pelo SUS para grupos prioritários é a Jynneos (MVA-BN), vacina de terceira geração contra a mpox. Estudos indicam eficácia entre 70% e 85% na prevenção de casos sintomáticos durante o surto de 2022, com benefício adicional quando aplicada até 96 horas após exposição de risco.

Outra vacina com proteção cruzada é a ACAM2000, derivada da vacina contra a varíola. Entretanto, ela não integra a estratégia de vacinação do SUS porque está associada a maior risco de efeitos adversos e é contraindicada para pessoas imunocomprometidas.

Além da vacinação, especialistas reforçam medidas básicas de prevenção, como evitar contato direto com lesões de pessoas com suspeita de mpox e procurar atendimento médico caso surjam feridas na pele acompanhadas de febre ou aumento dos gânglios linfáticos após possível exposição.

 

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