quinta-feira, 24 de setembro de 2026
mobilidade urbana

Após 10 meses do anúncio de Mabel, bicicletas compartilhadas em Goiânia não saíram do papel

Projeto City Bike, apresentado em 2025 como solução para integrar terminais de ônibus aos bairros, enfrenta entraves na aquisição de equipamentos e deve começar apenas no segundo semestre de 2026

Anna Salgadopor em
Bicicleta projeto city bike
Foto: Divulgação/Prefeitura de Goiânia

Quase um ano após o anúncio oficial feito pelo prefeito Sandro Mabel, em maio de 2025, os moradores de Goiânia ainda aguardam a implementação do projeto City Bike, que previa a introdução de bicicletas elétricas compartilhadas integradas ao transporte coletivo. O que deveria ser um marco na mobilidade urbana da Capital, facilitando o deslocamento de passageiros dos terminais até suas residências, transformou-se em um cronograma de adiamentos e entraves logísticos que frustram a população.

O projeto foi apresentado com grande destaque no dia 21 de maio de 2025, durante o programa Café com CBN. Na ocasião, Mabel detalhou uma proposta inovadora: a integração total com o sistema de transporte coletivo por meio do Bilhete Único. O usuário poderia retirar a bicicleta elétrica em um terminal, utilizá-la para ir para casa e permanecer com o veículo por até 12 horas, devolvendo-o no dia seguinte sem custo adicional além da passagem já paga.

A previsão inicial para o início dos testes era a primeira quinzena de junho de 2025, com um projeto piloto focado no Terminal Recanto do Bosque. Nesta fase, seriam disponibilizadas 150 bicicletas movidas a bateria. Em maio daquele ano, as obras para estruturar os bicicletários já estavam em curso e os testes com o sistema de QR Codes e o aplicativo da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC) estavam em andamento.

No entanto, o otimismo inicial foi freado em julho de 2025, quando a prefeitura anunciou o adiamento do projeto sem definir uma nova data de início. Desde então, o serviço permanece no papel, gerando insatisfação em cidadãos que planejavam aderir ao modal sustentável para fugir dos engarrafamentos.

Questionada pela reportagem sobre a paralisia do projeto em março de 2026, a Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito de Goiânia informou que o desenvolvimento do City Bike encontrou dificuldades críticas na cadeia de suprimentos. Segundo a pasta, durante a fase de estruturação, foram identificados entraves significativos no fornecimento das bicicletas elétricas por parte do fornecedor originalmente responsável.

Essa falha exigiu uma reavaliação técnica completa e a busca por novas alternativas no mercado, incluindo a prospecção de fornecedores internacionais. A secretaria afirma que o processo está agora em uma “fase avançada de ajustes logísticos e operacionais”, mas ressalta que a operação só começará quando houver “segurança técnica” total.

O Consórcio BRT (RedeMob) reforçou essa justificativa por meio de nota, classificando a iniciativa como uma ação relevante para a modernização da RMTC, mas que foi prejudicada por desafios na aquisição de equipamentos. O consórcio destacou que as etapas de importação de novos equipamentos demandam prazos adicionais, o que empurrou a nova previsão de implantação para o início do próximo semestre (segunda metade de 2026).

Para Fred Le Blue, pesquisador e autor do estudo “Acessibilidade, Mobilidade Urbana e Educação no Trânsito”, a demora na implementação é um obstáculo para a transição energética da cidade. Ele argumenta que o potencial da bicicleta elétrica em Goiânia é “imenso”, especialmente pelo fato de a topografia da Capital ser predominantemente plana, o que favorece o uso desse modal.

Le Blue, que também propôs o projeto “3 Poderes de Bicicleta” para interligar órgãos públicos por meio de ciclovias, defende que a “bicicletização” só será efetiva se for acompanhada de infraestrutura robusta e educação. “Não basta entregar as bicicletas; é preciso garantir a criação e manutenção de ciclovias e ciclofaixas, além de uma educação de trânsito onde o ciclista seja respeitado”, afirma o especialista.

Ele ressalta que a integração das bicicletas elétricas é uma questão de democracia urbana, permitindo que pessoas de baixa renda ou que não possuem veículo próprio tenham acesso facilitado a locais de poder e cidadania. Em seus estudos, Le Blue aponta que o “automovelcentrismo” em Goiânia é fruto da ineficiência histórica do transporte público e que modais alternativos são essenciais para reduzir a mortalidade no trânsito, que registrou 1.420 óbitos na Grande Goiânia entre 2018 e 2022.

Apesar do atraso de um ano, o projeto City Bike ainda é visto como uma solução necessária para desafogar as linhas alimentadoras de ônibus e reduzir a dependência de carros e motos. A meta de expandir as ciclovias para todos os corredores de transporte coletivo permanece como um objetivo de longo prazo da gestão municipal.

Enquanto as bicicletas não chegam, a Capital enfrenta desafios crescentes, como o aumento de 42% nas infrações por uso indevido de ciclofaixas. Para Fred, iniciativas de compartilhamento podem salvar vidas e prevenir sinistros ao remover veículos motorizados das vias, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

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