domingo, 22 de março de 2026
Inadimplência

Famílias comprometem 29% da renda com dívidas, maior patamar em 20 anos

Números ligam sinal de alerta em bancos e varejistas e podem mexer com percepção do cenário econômico em ano de eleição

Marina Moreirapor Marina Moreira em 22 de março de 2026
Renda
Créditos: José Cruz/ABr

Com o desemprego no menor nível da série histórica e a inflação sob controle até agora, é o endividamento das famílias brasileiras que acende o sinal de alerta nas instituições financeiras e varejistas e até na disputa eleitoral.

As famílias brasileiras direcionam 29% dos seus ganhos para quitar compromissos financeiros desde outubro do ano passado, o maior percentual em pelo menos 20 anos, segundo dados do Banco Central. Desse total, 10,38% é referente apenas ao pagamento de juros, e 18,81% para honrar o principal.

Atoladas em boletos a pagar, mais pessoas estão deixando de quitar suas contas. A inadimplência dos consumidores atingiu 6,9% entre o final do ano passado e janeiro deste ano, bem acima dos 5,6% registrados há um ano.

Baixa renda em risco

O calote das pessoas físicas no total de empréstimos que exclui crédito rural e imobiliário é liderado principalmente pelo rotativo do cartão (com inadimplência de 63,5% em janeiro), cheque especial (16,5%) e cartão parcelado (13%).

“Há um crescimento maior do que a média nas operações de crédito de maior risco. Com isso, se nota uma mudança na composição da carteira de crédito total, o que pesa na inadimplência”, explica Everton Gonçalves, diretor de economia, regulação e produtos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos) em entrevista à Folha de S. Paulo.

Dificuldades dos pobres com a renda

Os mais pobres, que são os que mais acessam essas linhas emergenciais e mais caras de crédito, são os que mais sofrem com as altas taxas.

Cálculo feito pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) com base em dados do BC mostra que a inadimplência do consumidor cresceu em todas as faixas de renda, mas avançou ainda mais entre quem ganha até três salários mínimos.

Segundo economistas, a escalada do calote entre os mais pobres pode ser explicada pela maior vulnerabilidade a juros altos daqueles que ganham menos, que em geral possuem menos poupança para amortecer choques.

“O orçamento é mais apertado. Qualquer imprevisto financeiro coloca a pessoa em dificuldades com as quais não consegue lidar”, diz Luiz Fernando Castelli, gerente de economia da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) em entrevista à Folha.

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