segunda-feira, 23 de março de 2026
energia

Conta de luz mais cara em 2026 pressiona a produção de hortaliças em Goiás

Reajuste médio de 8%, impulsionado por encargos e custo de geração, supera a inflação e encarece etapas essenciais como irrigação e conservação

Anna Salgadopor Anna Salgado em 23 de março de 2026
Area rural com postes de energia
Foto: Jose Fernando Ogura

O cenário energético para 2026 se apresenta desafiador para o setor produtivo brasileiro, com projeções que indicam impacto significativo tanto no orçamento das famílias quanto dos produtores rurais. Segundo estimativas oficiais da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a conta de luz no País deve subir, em média, 8% em 2026 — praticamente o dobro da inflação projetada pelo mercado, com o IPCA estimado em 4,1% para o mesmo período.

No setor de hortifrútis em Goiás, onde a energia elétrica é um insumo essencial para irrigação e conservação de hortaliças, o reajuste ameaça comprimir ainda mais margens de lucro já apertadas.

De acordo com o diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, a pressão sobre as tarifas decorre, principalmente, do crescimento acelerado dos encargos setoriais. O principal fator é a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo financiado pelos consumidores para custear subsídios e políticas públicas, que deve alcançar R$ 52 bilhões em 2026.

Os recursos são destinados a programas como subsídios para energias renováveis e a isenção da conta de luz para famílias de baixa renda. Soma-se a isso o impacto da privatização da Eletrobras (atual Axia), que tem reduzido gradualmente a oferta de energia por cotas, para comercializá-la a valores de mercado. Até 2027, essas cotas devem chegar a zero. Em 2026, também é esperado maior uso de usinas térmicas para compensar a escassez de chuvas na virada do ano, o que eleva o custo de geração.

Nesse contexto, a energia elétrica deixa de ser apenas uma despesa operacional para se consolidar como insumo estratégico na produção de hortaliças, comparável a fertilizantes e defensivos. A atividade depende diretamente de sistemas de irrigação, refrigeração e beneficiamento.

O aumento tarifário atinge o produtor rural de forma desproporcional. Especialistas apontam que, em períodos de bandeira vermelha, benefícios históricos da classe, como a tarifa verde e o desconto da madrugada para irrigantes e aquicultores, podem não incidir sobre os valores adicionais.

Em Goiás, o tema é acompanhado por entidades como o Senar-GO. O consultor técnico Cristiano Palavro afirma que a elevação dos custos de produção pressiona o preço dos alimentos, embora o repasse integral ao consumidor seja limitado pela competitividade do mercado. “O impacto fica com o produtor rural e os aumentos, em sua maior parte, saem das margens de lucratividade já apertadas do setor”, destaca.

O Estado também carrega um histórico complexo em relação às tarifas de energia. Impasses entre os governos estadual e federal, que resultaram em mudanças no controle da concessionária local, deixaram um legado de defasagens e reajustes abruptos. Em 2025, Goiânia registrou um dos maiores aumentos do País, na casa de 30%.

Dados da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), por meio do Conselho Temático de Infraestrutura (Coinfra), indicam que a geração de energia no Estado atingiu níveis recordes. Ainda assim, a matriz permanece fortemente dependente da fonte hidrelétrica, sujeita a oscilações em períodos de crise hídrica. Para o produtor de hortaliças, essa volatilidade, somada aos reajustes tarifários, cria um ambiente de incerteza que dificulta o planejamento de safras e investimentos.

Além disso, a energia gerada em grandes usinas, como Tucuruí, no Pará, citada como exemplo de desequilíbrio tributário, muitas vezes é destinada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) sem gerar receitas diretas que contribuam para a redução das tarifas locais, o que afeta a competitividade regional.

Diante desse cenário, produtores goianos têm recorrido cada vez mais à energia fotovoltaica para garantir a viabilidade dos negócios. No Estado, a geração solar saltou de níveis praticamente inexistentes em 2015 para cerca de 2 mil GWh em 2024, refletindo a busca por maior autonomia energética.

Em uma horta comercial, a instalação de painéis solares pode reduzir os gastos com eletricidade em até 95%. Segundo o engenheiro eletricista Alexandre Bernardes, diretor da Abinsaut, a procura cresce sempre que há reajustes. “Sempre que esses aumentos acontecem, cresce fortemente a procura por energia solar”, afirma. O investimento inicial é elevado, mas o retorno financeiro costuma ocorrer em cerca de dois anos para pagamentos à vista, podendo também ser viabilizado por financiamento, com parcelas equivalentes ao valor antes pago à concessionária.

O aumento projetado de 8% para 2026 acende um alerta para a segurança alimentar e para o bolso do consumidor goiano. Enquanto os encargos setoriais crescem em ritmo muito superior à inflação, 300% entre 2011 e 2026, contra 129% do IPCA, o setor de hortaliças busca alternativas para evitar o repasse integral dos custos

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