Direita pode não “forçar” debate sobre escala 6×1 neste ano
Especialistas avaliam que oposição deve prorrogar para 2027 discussão sobre a pauta para não confrontar base de Lula em ano eleitoral
No imaginário social e político, pautas sobre o fim da escala 6×1 possuem potencial para enfraquecer a direita e a extrema-direita no Congresso Nacional. Discussões acerca da redução da jornada de trabalho são retratadas por movimentos de esquerda de forma a ressaltar os benefícios que os trabalhadores vão obter em decorrência de uma eventual implantação da PEC 8/2025, de autoria da deputada federal Erika Hilton (PSOL).
“Não aceitaremos manobras para manter as atuais 44 horas semanais e defendemos que o debate envolva toda a sociedade… Descanso não é luxo, é direito. Especialmente para as mulheres, que acabam trabalhando em jornadas de 7×0. Nosso ponto de partida é reduzir de 44 para 40 horas semanais, na escala 5×2, e, gradativamente, chegar às 36 horas”, afirma a deputada federal Adriana Accorsi (PT).

Em contrapartida, a oposição no Congresso busca tratar a pauta com cautela, uma vez que é um assunto delicado para a área empresarial, que detém um eleitorado, em sua maioria, de direita. Trata-se de um projeto de caráter popular e que pode representar risco ao senador bolsonarista e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL).
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Demora na tramitação
Nos bastidores, a informação é que o texto, de autoria de Erika, não deve avançar significativamente em 2026, uma vez que o clima no Congresso, em ano eleitoral, costuma ser caracterizado por lentidão nos trabalhos relativos à tramitação de projetos. Tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, a tendência é que parlamentares dediquem parte do tempo às campanhas eleitorais.
Assim, especialistas avaliam que a oposição deve “empurrar” o texto para o próximo ano, mas que a proposta não pode ser considerada irrelevante, pois é um projeto que necessita de tempo para ser aprimorado e garantir participação efetiva da população.

Alan Santos/Câmara dos Deputados
“A direita não precisa cair na armadilha nem jogar o jogo do PT. Sobre escala 6×1 e passagem de ônibus grátis: trate como pauta relevante. Pode ser positiva. Precisa de estudo profundo, com participação da sociedade. Sem pressa eleitoral. Pequenos comerciantes precisam ser ouvidos. Empurre a decisão para 2027”, pontua o estrategista político Roberto Reis ao orientar sobre qual posicionamento a direita deve adotar frente à redução da jornada de trabalho defendida, sobretudo, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), legenda à qual é filiado o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ausência de confronto
O especialista avalia que o melhor caminho a ser seguido pela direita é “não confrontar o PT”, sob o risco de as discussões entre as forças políticas servirem de combustível para a base de Lula, que é pré-candidato ao Planalto e principal adversário do senador Flávio Bolsonaro (PL), que também concorre ao comando do Governo Federal.

“Não negue. Não ataque. Administre o tempo. Use a lógica deles contra eles. Faltam poucos meses de PT no poder. Barrigue. Não confronte. Não entregue combustível. Não force o debate”, instruiu Roberto por meio de publicação nas redes sociais.
Centrão é quem vai decidir
O cientista político Lehninger Mota ressalta que o Centrão, ala moderada do Congresso, é quem vai definir o desfecho da tramitação da PEC 8/2025. “Tanto a esquerda quanto a direita já entenderam que quem vai decidir as eleições e definir o caminho do fim da escala 6×1 é o centro, que são políticos moderados, que já votaram no Lula e também no Bolsonaro”.
Mota salienta a importância da tomada de decisões moderadas por parlamentares. “É necessário ter muita moderação nas decisões, porque vai ser uma eleição bastante apertada”, pontua o estudioso em política em entrevista ao O HOJE.
A atualização mais recente em torno da pauta sobre redução da jornada de trabalho é relativa à audiência pública realizada na última terça-feira (24) pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, a fim de discutir propostas acerca do tema. O debate atendeu ao pedido do deputado Paulo Azi (União-BA), relator das propostas.(Especial para O HOJE)