segunda-feira, 30 de março de 2026
Debate sobre mudanças

Acidente durante prova da CNH em Goiânia levanta alerta sobre mudanças nas regras da habilitação

Caso expõe riscos do uso de carros sem duplo comando e levanta questionamentos sobre segurança, formação de condutores e mudança nas regras de habilitação

João Césarpor João César em 30 de março de 2026
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Especialistas e representantes de autoescolas divergem sobre flexibilização da CNH - Foto: Reprodução/ABC Digital

Um acidente registrado durante a aplicação de provas práticas para a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), em Goiânia, reacendeu o debate sobre as mudanças recentes no processo de habilitação no País. Na manhã da última sexta-feira (27), uma candidata perdeu o controle de um carro particular e atingiu outros candidatos que aguardavam no pátio do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO). Quatro pessoas ficaram feridas, uma delas encaminhada ao hospital, enquanto as demais tiveram escoriações leves.

De acordo com o órgão, o acidente ocorreu durante o exame prático e envolveu um veículo sem duplo comando, mecanismo que permite ao instrutor ou examinador intervir em situações de emergência. Testemunhas relataram que o carro avançou sobre a área de espera, arrastando cadeiras e provocando tumulto. As provas chegaram a ser suspensas após o ocorrido.

Em resposta, o Detran informou que iniciou a reavaliação dos protocolos de segurança, incluindo mudanças na disposição das áreas de espera. O presidente do órgão, Delegado Waldir, destacou que o uso de veículos particulares sem duplo pedal segue normas da Secretaria Nacional de Trânsito, o que limita a atuação direta dos examinadores em casos críticos.

Na prática, quando o exame é realizado em carro próprio, os mecanismos de segurança disponíveis são reduzidos. Sem o duplo comando, não há como acionar freio ou embreagem de forma imediata, restando ao examinador apenas a orientação verbal e recursos como o freio de mão em situações emergenciais. Essa limitação já vinha sendo alvo de críticas por parte de instrutores.

Para o professor do Instituto Federal de Goiás e especialista em mobilidade urbana, Marcos Rothen, o episódio deve ser analisado com cautela, sem ignorar as falhas do modelo anterior. “É sempre importante lembrar que o modelo anterior tinha muitos problemas. Era falho na preparação, pois em geral preparava os candidatos para passarem na prova”, afirmou.

Ainda assim, ele avalia que o caso deve servir como alerta. “O acidente que aconteceu esta semana foi estranho e deve servir para que o Detran reveja o processo”, disse.

Um dos pontos destacados por Rothen é a organização do ambiente das provas. “É estranho que muitas pessoas estejam tão próximas do local”, observou. Ele também reforça o papel do examinador nesse novo cenário. “É importante que o examinador esteja atento na hora do exame. Deve ver se o carro atende às necessidades. Deve observar, por exemplo, se o freio de mão está funcionando de forma adequada, pois em caso de emergência, o examinador pode usá-lo”, explicou.

Além dos aspectos técnicos, o especialista chama atenção para o fator humano. “Também é importante que o examinador tenha um preparo para tratar com o candidato. É normal o candidato estar nervoso e uma ajuda do examinador pode ajudar a acalmá-lo”, afirmou.

O acidente ocorre em meio a um cenário de flexibilização das regras para obtenção da CNH, como a possibilidade de uso de veículos particulares e a discussão sobre o fim da obrigatoriedade de autoescolas. Em Goiânia, profissionais do setor chegaram a protestar contra as mudanças no final de 2025, alegando riscos à formação dos condutores.

Apesar das críticas, o especialista avalia que parte dessas mudanças pode ser positiva. “O uso do carro próprio é positivo, pois será o carro que o candidato irá usar no trânsito”, destacou.

Leia mais: Detran-GO destrói toneladas de peças em combate ao desmonte ilegal

Ele também ressalta o impacto social da flexibilização. “O processo anterior não era ideal e muito caro, o que afastava muitos de buscarem passar pelo processo de habilitação”, disse, ponderando que “não é por ter ocorrido um acidente num exame que vamos condenar uma mudança que é positiva”.

No cenário internacional, Marcos destaca que o Brasil seguia um modelo mais rígido. “Normalmente a obrigatoriedade de frequentar uma autoescola era algo do Brasil”, explicou. Em outros países, segundo ele, existem formatos mais flexíveis, em que as autoescolas atuam como apoio, sem as mesmas exigências.

O próprio Detran-GO reconhece que o tema é complexo e que a segurança depende de múltiplos fatores, como estrutura, organização e preparo dos envolvidos. Ao final da nota enviada pela autarquia, o presidente lembrou que, em 2023, ocorreu um acidente fatal durante prova prática em Alexânia, envolvendo veículo de autoescola equipado com duplo comando.

Setor de autoescolas reage a mudanças na habilitação

Acidente
Candidata perdeu o controle de carro particular durante exame prático no Detran-GO e atingiu outros participantes – Foto: Reprodução

O acidente registrado durante uma prova prática para obtenção da CNH, em Goiânia, intensificou as críticas de representantes das autoescolas às recentes mudanças nas regras do processo de habilitação. Para o presidente da Associação das Autoescolas de Goiás (Assaego), Francisco Oliveira Zica, as flexibilizações adotadas comprometem diretamente a segurança viária e a qualidade da formação dos novos motoristas.

 

Segundo ele, alterações nas exigências para instrutores representam um dos pontos mais preocupantes. Francisco afirma que, enquanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece critérios rigorosos, como curso presencial de 180 horas, escolaridade mínima e atualização periódica, as novas regras permitem a atuação de instrutores autônomos com formação simplificada e sem credenciamento formal. Na avaliação dele, essa mudança reduz o nível técnico do ensino e fragiliza o processo de aprendizagem.

 

Outro aspecto criticado é a liberação para que candidatos utilizem veículos próprios, emprestados ou alugados durante aulas e exames. Esses carros, diferentemente dos utilizados por autoescolas, não possuem o sistema de duplo comando, que permite ao instrutor ou examinador intervir em situações de risco. Para Francisco, a ausência desse mecanismo elimina uma camada essencial de segurança, especialmente em um momento em que o candidato ainda está em fase de adaptação ao volante.

 

Ele associa diretamente essa mudança a ocorrências recentes, como o acidente registrado na última semana, quando uma candidata perdeu o controle do veículo e atingiu outros participantes do exame.

 

Além das mudanças normativas, Oliveira critica as condições estruturais dos locais de prova. Segundo ele, a desativação da pista exclusiva na Cidade Jardim, projetada com foco em segurança, levou à realização de exames em espaços improvisados, onde candidatos ficam expostos tanto às condições climáticas quanto à circulação de veículos, o que amplia o risco de acidentes.

 

Na avaliação do representante das autoescolas, a flexibilização também impacta diretamente a formação dos condutores. Ele alerta que a possibilidade de realizar o processo com poucas aulas e sem domínio de habilidades básicas pode resultar em motoristas despreparados para o trânsito e para exigências profissionais futuras.

 

Por fim, Francisco demonstra insatisfação com a condução das mudanças, que, segundo ele, teriam motivações políticas e eleitorais. Para o presidente da Assaego, qualquer reformulação no processo de habilitação deve priorizar a qualificação técnica e a segurança, evitando que medidas de flexibilização coloquem vidas em risco.

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