Acidente durante prova da CNH em Goiânia levanta alerta sobre mudanças nas regras da habilitação
Caso expõe riscos do uso de carros sem duplo comando e levanta questionamentos sobre segurança, formação de condutores e mudança nas regras de habilitação
Um acidente registrado durante a aplicação de provas práticas para a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), em Goiânia, reacendeu o debate sobre as mudanças recentes no processo de habilitação no País. Na manhã da última sexta-feira (27), uma candidata perdeu o controle de um carro particular e atingiu outros candidatos que aguardavam no pátio do Departamento Estadual de Trânsito de Goiás (Detran-GO). Quatro pessoas ficaram feridas, uma delas encaminhada ao hospital, enquanto as demais tiveram escoriações leves.
De acordo com o órgão, o acidente ocorreu durante o exame prático e envolveu um veículo sem duplo comando, mecanismo que permite ao instrutor ou examinador intervir em situações de emergência. Testemunhas relataram que o carro avançou sobre a área de espera, arrastando cadeiras e provocando tumulto. As provas chegaram a ser suspensas após o ocorrido.
Em resposta, o Detran informou que iniciou a reavaliação dos protocolos de segurança, incluindo mudanças na disposição das áreas de espera. O presidente do órgão, Delegado Waldir, destacou que o uso de veículos particulares sem duplo pedal segue normas da Secretaria Nacional de Trânsito, o que limita a atuação direta dos examinadores em casos críticos.
Na prática, quando o exame é realizado em carro próprio, os mecanismos de segurança disponíveis são reduzidos. Sem o duplo comando, não há como acionar freio ou embreagem de forma imediata, restando ao examinador apenas a orientação verbal e recursos como o freio de mão em situações emergenciais. Essa limitação já vinha sendo alvo de críticas por parte de instrutores.
Para o professor do Instituto Federal de Goiás e especialista em mobilidade urbana, Marcos Rothen, o episódio deve ser analisado com cautela, sem ignorar as falhas do modelo anterior. “É sempre importante lembrar que o modelo anterior tinha muitos problemas. Era falho na preparação, pois em geral preparava os candidatos para passarem na prova”, afirmou.
Ainda assim, ele avalia que o caso deve servir como alerta. “O acidente que aconteceu esta semana foi estranho e deve servir para que o Detran reveja o processo”, disse.
Um dos pontos destacados por Rothen é a organização do ambiente das provas. “É estranho que muitas pessoas estejam tão próximas do local”, observou. Ele também reforça o papel do examinador nesse novo cenário. “É importante que o examinador esteja atento na hora do exame. Deve ver se o carro atende às necessidades. Deve observar, por exemplo, se o freio de mão está funcionando de forma adequada, pois em caso de emergência, o examinador pode usá-lo”, explicou.
Além dos aspectos técnicos, o especialista chama atenção para o fator humano. “Também é importante que o examinador tenha um preparo para tratar com o candidato. É normal o candidato estar nervoso e uma ajuda do examinador pode ajudar a acalmá-lo”, afirmou.
O acidente ocorre em meio a um cenário de flexibilização das regras para obtenção da CNH, como a possibilidade de uso de veículos particulares e a discussão sobre o fim da obrigatoriedade de autoescolas. Em Goiânia, profissionais do setor chegaram a protestar contra as mudanças no final de 2025, alegando riscos à formação dos condutores.
Apesar das críticas, o especialista avalia que parte dessas mudanças pode ser positiva. “O uso do carro próprio é positivo, pois será o carro que o candidato irá usar no trânsito”, destacou.
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Ele também ressalta o impacto social da flexibilização. “O processo anterior não era ideal e muito caro, o que afastava muitos de buscarem passar pelo processo de habilitação”, disse, ponderando que “não é por ter ocorrido um acidente num exame que vamos condenar uma mudança que é positiva”.
No cenário internacional, Marcos destaca que o Brasil seguia um modelo mais rígido. “Normalmente a obrigatoriedade de frequentar uma autoescola era algo do Brasil”, explicou. Em outros países, segundo ele, existem formatos mais flexíveis, em que as autoescolas atuam como apoio, sem as mesmas exigências.
O próprio Detran-GO reconhece que o tema é complexo e que a segurança depende de múltiplos fatores, como estrutura, organização e preparo dos envolvidos. Ao final da nota enviada pela autarquia, o presidente lembrou que, em 2023, ocorreu um acidente fatal durante prova prática em Alexânia, envolvendo veículo de autoescola equipado com duplo comando.
Setor de autoescolas reage a mudanças na habilitação

O acidente registrado durante uma prova prática para obtenção da CNH, em Goiânia, intensificou as críticas de representantes das autoescolas às recentes mudanças nas regras do processo de habilitação. Para o presidente da Associação das Autoescolas de Goiás (Assaego), Francisco Oliveira Zica, as flexibilizações adotadas comprometem diretamente a segurança viária e a qualidade da formação dos novos motoristas.
Segundo ele, alterações nas exigências para instrutores representam um dos pontos mais preocupantes. Francisco afirma que, enquanto o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estabelece critérios rigorosos, como curso presencial de 180 horas, escolaridade mínima e atualização periódica, as novas regras permitem a atuação de instrutores autônomos com formação simplificada e sem credenciamento formal. Na avaliação dele, essa mudança reduz o nível técnico do ensino e fragiliza o processo de aprendizagem.
Outro aspecto criticado é a liberação para que candidatos utilizem veículos próprios, emprestados ou alugados durante aulas e exames. Esses carros, diferentemente dos utilizados por autoescolas, não possuem o sistema de duplo comando, que permite ao instrutor ou examinador intervir em situações de risco. Para Francisco, a ausência desse mecanismo elimina uma camada essencial de segurança, especialmente em um momento em que o candidato ainda está em fase de adaptação ao volante.
Ele associa diretamente essa mudança a ocorrências recentes, como o acidente registrado na última semana, quando uma candidata perdeu o controle do veículo e atingiu outros participantes do exame.
Além das mudanças normativas, Oliveira critica as condições estruturais dos locais de prova. Segundo ele, a desativação da pista exclusiva na Cidade Jardim, projetada com foco em segurança, levou à realização de exames em espaços improvisados, onde candidatos ficam expostos tanto às condições climáticas quanto à circulação de veículos, o que amplia o risco de acidentes.
Na avaliação do representante das autoescolas, a flexibilização também impacta diretamente a formação dos condutores. Ele alerta que a possibilidade de realizar o processo com poucas aulas e sem domínio de habilidades básicas pode resultar em motoristas despreparados para o trânsito e para exigências profissionais futuras.
Por fim, Francisco demonstra insatisfação com a condução das mudanças, que, segundo ele, teriam motivações políticas e eleitorais. Para o presidente da Assaego, qualquer reformulação no processo de habilitação deve priorizar a qualificação técnica e a segurança, evitando que medidas de flexibilização coloquem vidas em risco.