38 anos depois, desastre do Césio-137 ainda deixa marcas profundas em Goiânia
Acidente radioativo de 1987 continua a provocar mortes, contaminação, impactos sociais e psicológicos duradouros
Trinta e oito anos após o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, Goiânia ainda convive com as marcas profundas de uma tragédia que não devastou a cidade de forma visível, mas deixou feridas na alma de sua população. O que começou como um ato de negligência em um prédio abandonado transformou-se em um capítulo sombrio da história brasileira, cujos desdobramentos persistem no presente por meio de novas leis de assistência, debates sobre a representação midiática e a contínua luta contra o estigma social.
A tragédia teve início em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de recicláveis, Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves, entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), na Avenida Paranaíba, no Centro de Goiânia. O local, parcialmente demolido e sem qualquer segurança ou sinalização, abrigava um aparelho de radioterapia abandonado pelos donos da clínica.
Com a intenção de vender o chumbo como sucata, os catadores removeram uma peça de cerca de 120 quilos e a levaram para a casa de Roberto. Lá, com ferramentas simples, romperam a blindagem do equipamento e expuseram uma cápsula que continha 19,2 gramas de cloreto de Césio-137, um pó branco semelhante ao sal, porém altamente radioativo.
O circuito da contaminação do Césio e o pó “mágico”
O intenso brilho azulado emitido no escuro acabou por selar o destino de dezenas de famílias. Sem saber do perigo, moradores se encantaram com o material, que acreditavam tratar-se de algo valioso ou sobrenatural. Na verdade, o fenômeno era resultado da interação da radiação com a umidade do ar, conhecido como Efeito Cherenkov.
Poucos dias depois, o equipamento foi vendido a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho no Setor Aeroporto. Fascinado pela luminosidade, Devair distribuiu fragmentos do pó a familiares e amigos. Entre as vítimas, destacou-se o caso de Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, sobrinha de Devair, que ingeriu partículas do material enquanto comia, após brincar com o pó levado para casa por seu pai, Ivo Ferreira.
Relatos da época descrevem pessoas que esfregavam o material na pele como se fosse purpurina de Carnaval. A contaminação se espalhou rapidamente por redes de parentesco, amizade e trabalho. Em poucos dias, surgiram sintomas como náuseas, vômitos, tonturas e diarreia. Sem reconhecer a exposição à radiação, médicos inicialmente diagnosticaram os casos como intoxicação alimentar ou reações alérgicas.
A suspeita sobre a cápsula surgiu com Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair. Em um ato de coragem que provavelmente evitou uma tragédia ainda maior, a mulher colocou o cilindro em uma sacola plástica e o levou de ônibus à Vigilância Sanitária em 28 de setembro. No dia seguinte, o físico Walter Mendes Ferreira identificou os altos níveis de radiação, o que deu início ao isolamento das áreas e causou um pânico coletivo.
Operação de guerra: triagem e descontaminação
A resposta das autoridades transformou o Estádio Olímpico de Goiânia em um grande centro de triagem. Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas. Dessas, 249 apresentaram níveis significativos de contaminação e 129 passaram a necessitar de acompanhamento médico permanente.
O processo de descontaminação foi drástico: sete casas foram demolidas e dezenas de imóveis interditados. Roupas, móveis, veículos, utensílios domésticos e até animais de estimação foram descartados como lixo nuclear. Ao todo, o acidente gerou cerca de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos.
As mortes imediatas confirmadas foram quatro: Leide das Neves, Maria Gabriela Ferreira e os funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos (20 anos) e Admilson Alves de Souza (18 anos). O sepultamento de Leide e Maria Gabriela foi marcado por protestos no Cemitério Parque. A população, tomada pelo medo e pela desinformação, tentou impedir o enterro com pedras e tijolos, por temer a contaminação do solo. As duas foram enterradas em caixões de chumbo, com centenas de quilos, para conter a radiação.

O depósito de Abadia e o monitoramento de 180 anos
Hoje, os rejeitos estão armazenados no Depósito Definitivo de Abadia de Goiás, localizado a 23 quilômetros de Goiânia. O local, que hoje integra o Parque Estadual Telma Ortegal, abriga o lixo em contêineres concretados sob dois montes simétricos. Segundo especialistas, o material precisará de 180 a 300 anos para deixar de representar um risco.
O monitoramento ambiental é realizado trimestralmente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o que envolve análises de solo, água superficial, subterrânea e vegetação para garantir que não haja vazamentos para o lençol freático. A área foi transformada em unidade de conservação para evitar a expansão urbana sobre os depósitos.
Avanços legais e a luta por dignidade
Em março de 2026, o Governo de Goiás anunciou medidas importantes para a reparação histórica das vítimas. O então governador Ronaldo Caiado enviou à Assembleia Legislativa (Alego) um projeto de lei para reajustar em quase 70% as pensões pagas aos 603 beneficiários diretos. Com o aumento, os valores para os mais afetados podem chegar a R$ 3.242.
Além disso, a Alego aprovou mudanças na junta médica que atende os sobreviventes que incluem a especialidade de psiquiatria e a flexibilizando a emissão de laudos. Essa medida busca corrigir lacunas no atendimento de saúde mental, já que muitos sobreviventes ainda sofrem com ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático décadas após o evento.
Entretanto, as associações de vítimas, como a presidida por Odesson Alves Ferreira, ainda apontam problemas. Muitos trabalhadores que atuaram na descontaminação ou pessoas de grupos considerados de “menor risco” na época relatam dificuldades para obter assistência médica integral, medicamentos gratuitos e dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, tramita na Alego um projeto de lei do deputado Karlos Cabral que propõe a criação de um monumento permanente e a instituição do dia 13 de setembro como data oficial de lembrança. O objetivo é transformar a tragédia em um instrumento de educação e prevenção, ao garantir que as futuras gerações não esqueçam as lições sobre responsabilidade técnica e saúde pública.
Cultura e estigma
O interesse pelo Césio-137 foi renovado recentemente com o lançamento da minissérie “Emergência Radioativa” pela Netflix, em março de 2026. Embora a produção tenha dado visibilidade global ao caso, a série enfrentou duras críticas em Goiás. O Conselho Municipal de Cultura de Goiânia publicou uma nota de repúdio pelo fato de a série ter sido gravada majoritariamente em São Paulo, o que foi visto como um desrespeito à memória local e uma perda de oportunidade econômica para a Capital.
Sobreviventes também criticaram a dramatização da obra. Odesson Ferreira afirmou que a série banaliza o acidente e fere a memória de sua família ao sugerir crimes como roubo, quando o material estava, na verdade, abandonado por negligência médica.
O estigma social, outra cicatriz invisível, também voltou aos holofotes após um comentário da marca O Boticário nas redes sociais. Ao comentar a foto de um suco azul, a conta oficial da empresa escreveu: “Isso em Goiás é um crime, kkk”. A fala gerou imediata indignação da Associação das Vítimas, que classificou o comentário como discriminatório e ofensivo, ao lembrar que “vidas humanas não são motivo de chacota”. A empresa apagou a postagem e pediu desculpas públicas.