De esperma de salmão a cocô de passarinho: os tratamentos de pele bizarros que viraram moda e o que a ciência diz sobre eles
Procedimentos exóticos ganharam popularidade impulsionados pela K-Beauty e pelas redes sociais, mas nem todos têm eficácia comprovada
A indústria da beleza nunca foi avessa ao inusitado. Mas nos últimos anos, com a ascensão da estética coreana como referência global e o poder de viralização das redes sociais, tratamentos que pareceriam improváveis há uma década chegaram a clínicas de luxo e às rotinas de celebridades. Esperma de salmão injetado na pele, máscaras de cocô de rouxinol e procedimentos com sangue do próprio paciente estão entre os mais comentados. A pergunta que fica é: o que a ciência diz sobre tudo isso?
O esperma de salmão que virou tendência global
Um dos tratamentos mais requisitados em clínicas de estética na Coreia do Sul envolve a injeção de minúsculos fragmentos de DNA de esperma de salmão na derme, a camada intermediária da pele. O objetivo não é aumentar volume como em um preenchimento, mas bioestimular a pele e promover um ambiente dérmico mais saudável.
A técnica tem origem na medicina regenerativa e no tratamento de feridas, onde os fragmentos de DNA dos peixes chamaram atenção pelo potencial de estimular o reparo de tecidos. Alguns estudos indicam que os polinucleotídeos purificados do esperma de salmão podem ajudar a reduzir linhas de expressão, melhorar a hidratação, a textura e as rugas da pele. Com o prestígio da K-Beauty, o tratamento se espalhou pelo mundo e ganhou visibilidade após ser promovido por celebridades internacionais.
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Cocô de passarinho com respaldo científico
O tratamento facial das gueixas usa excrementos de rouxinóis sanitizados com luz ultravioleta, misturados a exfoliantes e branqueadores. A prática tem origem japonesa secular: a descoberta de que o cocô do rouxinol-bravo-japonês remove tinta de tecidos levou ao seu uso para clarear a pele e remover maquiagem.
A ciência talvez confirme a eficácia. Os rouxinóis produzem concentrações particularmente altas de ureia nos excrementos, substância que suaviza a pele e está presente em umectantes modernos. O cocô dessas aves também contém altas concentrações do aminoácido guanina, com efeitos hidratantes e branqueadores. A ressalva é importante: o tratamento usa excremento purificado e modificado em laboratório, e não o material coletado diretamente da natureza.
Onde a ciência não acompanha a moda
Nem todo tratamento exótico tem o mesmo respaldo. A máscara menstrual, que usa sangue da menstruação e ganhou popularidade no TikTok, é um exemplo de tendência sem convencimento científico. Apesar de um estudo ter sugerido que o plasma derivado do fluido menstrual pode ter propriedades de cura de feridas, a prática não encontra respaldo clínico e é vista pela comunidade médica como uma tendência movida pelo choque e pela busca de engajamento nas redes sociais.
O facial vampírico tem mais fundamento
Mais fundamentado cientificamente é o tratamento conhecido como facial vampírico, ou PRP. O procedimento retira sangue do próprio paciente, o coloca em uma centrífuga para concentrar fatores de crescimento, e reinjeta o plasma no rosto por meio de microagulhas. Alguns estudos concluíram que a terapia aumentou a elasticidade da pele e reduziu rugas e pigmentação. A variabilidade nos resultados, porém, é alta e depende das máquinas utilizadas e das características individuais de cada paciente.
O que vem a seguir
A próxima geração de terapias deve envolver novas formas de suplementação de colágeno e a manipulação do microbioma da pele, a população de micróbios invisíveis que habita o rosto e influencia as inflamações. Pesquisas recentes identificaram bactérias capazes de produzir substâncias que reduzem inflamações e danos ao colágeno nas células da pele, ainda em estágio laboratorial.
A questão central, porém, permanece: esses tratamentos da moda realmente oferecem benefícios maiores do que os produtos tradicionais disponíveis há décadas? Para muitos especialistas, uma rotina consistente com filtro solar pela manhã e hidratante noturno com retinol ainda supera, em custo-benefício, qualquer procedimento exótico de centenas de dólares.