Gripe em idoso com doença crônica pode terminar na UTI
Fenômeno inflamatório desencadeado pelo vírus Influenza eleva risco de infarto e AVC; vacina de alta dose reduz em 7,5% as hospitalizações
Em 2024, 79% das mortes causadas pelo vírus Influenza no Brasil ocorreram em pessoas com comorbidades, segundo o Ministério da Saúde. Cardiopatia crônica estava presente em 52,2% dos casos fatais, diabetes em 32,3% e pneumopatia crônica em 19,4%. As vítimas foram, sobretudo, adultos jovens e idosos com doenças preexistentes.
Para esse grupo, a gripe não é apenas uma infecção respiratória. Ela pode comprometer o coração, agravar doenças pulmonares crônicas e, nos casos mais graves, levar à internação em UTI e ao uso de ventilação mecânica. A combinação entre imunidade enfraquecida e doenças crônicas preexistentes cria as condições para que a infecção evolua com rapidez e gravidade.
Imunossenescência: o sistema imune envelhece
Com o passar dos anos, o sistema imunológico perde eficiência. O processo tem nome: imunossenescência. Ele afeta toda a população, mas é mais grave em idosos frágeis, com múltiplas doenças e uso contínuo de medicamentos como os corticoides. Nesses casos, a capacidade do organismo de combater infecções diminui de forma mais acentuada, e a progressão para quadros graves se torna mais provável.
Leia mais: Vacina da gripe causa doença? Ministério da Saúde faz alerta
Pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, a DPOC, frequentemente causada pelo tabagismo, são especialmente vulneráveis. Sem vacinação, a infecção pelo Influenza pode levar diretamente à internação em UTI e à necessidade de ventilação mecânica, com impacto direto na mortalidade desse grupo.
Gripe, infarto e AVC
A gripe também atinge o coração. Após a infecção, o organismo desencadeia o chamado fenômeno inflamatório sistêmico: libera substâncias inflamatórias, aumenta a atividade das plaquetas e eleva a coagulabilidade do sangue. O resultado é um risco maior de infarto do miocárdio e de acidente vascular cerebral.
Os dados clínicos confirmam essa relação. Cerca de 30% dos pacientes que chegam ao pronto-socorro do Instituto do Coração, o InCor, com algum problema cardíaco relatam um episódio de gripe nos dez dias anteriores ao atendimento. A infecção funciona, nesses casos, como gatilho para eventos cardiovasculares agudos.
A vacina como proteção cardiovascular
A vacina da gripe para maiores de 60 anos vai além da proteção respiratória. A versão de alta dose, com quatro vezes mais antígenos que a vacina padrão, produz uma resposta imunológica mais forte. Um estudo com mais de 300 mil idosos mostrou que ela reduz em 7,5% as hospitalizações por doenças cardiovasculares, em cerca de 20% as internações por insuficiência cardíaca e diminui o total de hospitalizações cardiorrespiratórias em comparação à vacina convencional.
Na cardiologia, vacinar tem impacto comparável ao de parar de fumar. Dieta, atividade física e controle das doenças crônicas são essenciais, mas a imunização acrescenta uma camada de proteção coletiva que as outras medidas não oferecem. Para idosos, cujo sistema imunológico já não responde como na infância, tomar a dose anual da vacina contra a gripe não é precaução opcional. É uma medida essencial de saúde.