segunda-feira, 6 de abril de 2026
Eleitores do agro

Como fica a disputa de votos do agro entre Caiado e Flávio Bolsonaro

Com história ligada ao campo, ex-governador de Goiás dificulta avanço do senador do PL; especialistas veem divisão de votos e decisão mais tardia do setor

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 6 de abril de 2026
Como fica a disputa de votos do agro entre Caiado e Flávio Bolsonaro
Até então, aliados de Flávio trabalhavam com a expectativa de que o setor iria aderir ao seu nome de forma gradual. Foto: Secom/Goiás e Lula Marques/ABr

Bruno Goulart

A entrada do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), na disputa pela Presidência da República mudou o cenário entre os eleitores do agronegócio. Até então, aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) trabalhavam com a expectativa de que o setor iria aderir ao seu nome de forma gradual, ainda durante a pré-campanha.

No entanto, com a entrada de Caiado, esse movimento perdeu força. Lideranças do agro passaram a evitar declarações públicas de apoio e decidiram adotar uma postura mais cautelosa. Na prática, isso significa manter diálogo com diferentes pré-candidatos e ganhar tempo antes de fechar posição.

Essa mudança não indica um rompimento com o bolsonarismo, mas mostra que o apoio não será automático. Agora, a tendência é de divisão no primeiro turno, com o setor mais cauteloso para tomar uma decisão definitiva apenas na reta final da eleição.

Perfil de Caiado

Um dos principais fatores para esse novo cenário é o perfil de Caiado. O goiano construiu sua trajetória política em defesa do produtor rural e ganhou projeção nacional ainda nos anos 1980, em meio aos conflitos por terra e ao avanço das discussões sobre reforma agrária no País, quando fundou a União Democrática Ruralista (UDR). Essa história ainda tem peso entre produtores, principalmente os mais antigos.

Segundo o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, é preciso entender que o agronegócio não é um grupo homogêneo. “A gente precisa separar o agro de Goiás do agro nacional. Em Goiás, há um desgaste com a chamada ‘Taxa do Agro’, o que pode afetar o Caiado localmente. Mas, no restante do País, ele tem muito reconhecimento, principalmente entre produtores mais antigos”, afirma.

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Zancopé explica que existe uma divisão clara dentro do setor. “Tem um produtor que se identifica com a história do Caiado, com a defesa da propriedade e da atividade rural. Por outro lado, há um grupo mais ideológico, ligado ao bolsonarismo, que tende a apoiar o Flávio”, diz.

Essa divisão é, ao mesmo tempo, geracional e política. Enquanto parte do eleitorado valoriza a trajetória e a ligação direta com o campo, outra parcela se orienta mais por pautas conservadoras e pela identificação com o nome de Bolsonaro.

Caiado leva vantagem

O estrategista político Marcos Marinho reforça essa leitura e chama atenção para a complexidade do voto no agro. “Não é só porque a pessoa é do agro que vai votar no Flávio Bolsonaro. Esse eleitor também leva em conta temas como tradição, conservadorismo e a própria vivência no campo”, afirma.

Para Marinho, nesse ponto, Caiado leva vantagem. “O Caiado tem uma história muito mais conectada com o agro. Isso dá mais legitimidade ao discurso dele. O Flávio tem o sobrenome Bolsonaro, que pesa, mas não é o Jair Bolsonaro. Isso faz diferença”, avalia.

Mesmo assim, o cenário segue em aberto. Marinho destaca que o chamado “voto útil” pode influenciar a decisão do setor mais adiante. “Se o Caiado não crescer, uma parte desse eleitor pode migrar para o Flávio, justamente por enxergar nele mais chances dentro do campo da direita”, explica.

Nesse caso, o objetivo seria enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que deve disputar a reeleição.

Peso regional

Outro ponto importante é o peso regional. Em Estados como Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul, Caiado tem boa imagem entre produtores. Já em Goiás, pode enfrentar mais resistência por causa da cobrança conhecida como “Taxa do Agro”, que gerou críticas de parte do setor.

Além disso, a possível formação de chapas também entra no cálculo político. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura, é cogitada como vice de Flávio Bolsonaro. No entanto, Zancopé avalia que o impacto pode ser limitado. “Ela teve destaque como ministra, mas depois não manteve uma atuação nacional forte. Em um cenário polarizado, isso pode pesar”, afirma. (Especial para O HOJE)

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