terça-feira, 7 de abril de 2026
caso césio 137

Lourdes e Leide: um filme sobre o que o tempo não apaga

Curta de Angelo Lima retrata o cotidiano de Lourdes das Neves, mãe de vítima do Césio-137

Luana Avelarpor Luana Avelar em 7 de abril de 2026
Lourdes
Foto: divulgação

Em todos os cômodos da casa de dona Lourdes, há um rosto. No banheiro, no quarto, na sala, em cada canto onde ela pousa o olhar, os olhos de Leide das Neves estão lá. A filha morreu em 1987, vítima do acidente com o Césio-137 em Goiânia, com apenas seis anos de idade. Dona Lourdes tem hoje 74 anos, e aprendeu, ao longo de quase quatro décadas, que a saudade não passa. Ela só muda de endereço dentro do peito.

O mundo conheceu Leide das Neves pelo sorriso estampado nas capas de jornal. Era a menina do Césio, a face humana do maior desastre radiológico em área urbana da história. Em setembro de 1987, uma cápsula de Césio abandonada num ferro-velho em Goiânia contaminou centenas de pessoas e matou quatro delas. Leide foi a última. Morreu em outubro, com o corpo tomado pela radiação. Sua mãe ficou. E ficou também com tudo que ninguém fotografa: a cama vazia, o silêncio do quarto, o dia que não termina nunca.

Foi essa mulher que o cineasta goiano Angelo Lima decidiu procurar. Não a mãe-símbolo, não a sobrevivente para câmeras de telejornal. A mulher real, que acorda todo dia com dor, que ri, que chora, que resiste sem que ninguém veja. O resultado é um curta-metragem que leva os nomes das duas como título: Lourdes e Leide. O filme será exibido nesta sexta-feira (10), às 20h, no Coletivo Aruá, na Rua 20, nº 84, em Goiânia, aberta ao público.

Uma amizade construída em anos de cinema

A relação entre Angelo Lima e a família não nasceu com esse filme. Há mais de duas décadas, o diretor realizou o curta Amarelinha, sobre Leide das Neves, que ganhou o Prêmio OCIC, concedido pela Igreja Católica ao filme mais humano do festival, durante uma mostra no Maranhão. “Esse filme emocionou muita gente”, lembra o diretor. Foi durante as andanças com esse trabalho que aconteceu um dos momentos mais marcantes de sua história com essa família. Comemorando aniversário na Rua do Lazer, em Goiânia, Angelo foi abordado por uma adolescente de 17 anos. “Ela olhou pra mim, se levantou da mesa e veio até mim e falou: eu te conheço”, conta. Era Amanda, a atriz que havia interpretado Leide no filme, reencontrada por acaso depois de 20 anos. “Nós caímos no choro”.

Depois vieram outros projetos, entre eles o curta Pesadelo Azul, que circulou por Portugal, Peru e Bolívia e acumulou prêmios pelo Brasil. A amizade com a família foi crescendo visita a visita. “Nunca os deixei sem visitar”, diz Angelo. Até que, em uma dessas tardes na casa de dona Lourdes, a ideia surgiu. “Eu falei: quero fazer um filme sobre você. Sobre a sua vida. Como está sendo sua vida atualmente, depois de tantos anos ter perdido a Leide?”

Leia mais: 38 anos depois, desastre do Césio-137 ainda deixa marcas profundas em Goiânia

Lourdes e Leide: quatro dias, uma casa e muita emoção

As filmagens duraram quatro dias, todas dentro da casa de dona Lourdes. A equipe, propositalmente pequena, era formada por Angelo Lima na direção e produção; Delano Vaz na direção de fotografia e correção de cor; Júlio Pereira na assistência de direção e montagem; Gildo Junior na elétrica, maquinária e assistência de fotografia; Fábio Assi nas imagens de drone; Emanuel Mastrella na trilha sonora; e Victor Pimenta no som direto e finalização. No elenco, um único nome: Lourdes das Neves, interpretando a si mesma.

“Não queríamos invadir a casa dela com vários aparelhos, várias coisas”, explica Angelo. “É um filme intimista”. O set virou rotina de afeto. “A gente almoçava na casa de Lourdes, tomava café na casa de Lourdes, ficava o dia todo na casa de Lourdes. Muita alegria, muito prazer”.

Para dona Lourdes, aceitar as câmeras foi um gesto político tanto quanto afetivo. “Eu tinha vontade que as pessoas soubessem como a mãe da Leide vive, porque muitos acham que o governo cuida bem de mim, que eu tenho assistência, mas não é assim. Então foi importante mostrar a realidade”, diz. Quase quatro décadas depois da tragédia, ela ainda luta por uma pensão digna. O filme é também essa denúncia.

A injeção de força que vem de um sorriso

As fotos de Leide estão em todo lugar da casa. Dona Lourdes fez questão disso. No caminho para o banheiro, para o quarto, para a sala, a filha aparece. E é nesse encontro diário que a mãe encontra forças para seguir. “É como se eu tomasse uma injeção de força. Às vezes estou pra baixo, doente, triste. Aí quando olho para a foto dela, aquele sorriso… Eu tenho que animar, eu tenho que reagir”. A frase que vem em seguida diz mais do que qualquer análise alcança: “Eu tento manter meus risos por fora e chorar por dentro. É por ela que eu sigo”.

Um filme que é luta

Angelo Lima não faz filmes sobre o Césio por acaso. É uma escolha que se renova, uma responsabilidade carregada junto com a família. “Esse filme vem para fortalecer a luta deles. Nós temos uma luta muito grande para que tenham uma pensão melhor, que consigam viver uma vida melhor”. Ver-se projetada numa tela de cinema, diante de uma plateia, será uma experiência inédita para dona Lourdes. “Ela se vê no cinemão, na tela de cinema com gente de todas as espécies vendo ela. Isso vai ser muito gratificante e muito forte”.

Sobre o que espera que o público carregue consigo ao sair da sala, dona Lourdes surpreende. “Que sintam tranquilidade, alegria e paz. Pelo menos é o que eu sinto”. Vinda de uma mulher que perdeu a filha para uma tragédia evitável, a resposta não é ingênua. É a fala de quem atravessou o fundo do poço e escolheu não ficar lá.

Para Angelo Lima, o filme agora pertence a quem assiste. “O cinema é igual às nuvens: não para. Ninguém consegue parar as nuvens. Você olha uma nuvem na sua frente e olha pra outra, a nuvem já está lá longe. De uma hora para outra ele está lá em Moscou, lá no Peru”. Em Goiânia, dona Lourdes segue sua vida entre as fotos de Leide. Todo dia.

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