quinta-feira, 9 de abril de 2026
Guerra e suas consequências

Guerra no Oriente Médio pressiona custos da construção civil em Goiás

Alta do petróleo eleva preço do diesel, encarece fretes e materiais e já impacta obras e consumidores no Estado

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 9 de abril de 2026
Construção
Reprodução

O avanço dos conflitos no Oriente Médio deixou de ser apenas uma questão geopolítica distante e já provoca efeitos diretos na economia brasileira. Em Goiás, o impacto é sentido de forma clara na construção civil, setor altamente dependente de combustíveis e insumos derivados do petróleo. Com a valorização internacional do barril, toda a cadeia produtiva passa a operar sob pressão crescente.

Esse movimento já aparece nos indicadores. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acumula alta de 1,77% nos primeiros meses de 2026, refletindo o encarecimento de materiais e serviços. No cenário goiano, o efeito é ainda mais intenso, já que o Estado funciona como um importante polo logístico terrestre, fortemente dependente do transporte rodoviário.

Nesse contexto, o diesel se consolida como um dos principais fatores de impacto. Com sucessivos reajustes, o combustível eleva o custo do frete e pressiona o valor final das mercadorias. Como consequência, materiais básicos da construção chegam mais caros ao consumidor, tanto na capital quanto no interior.

Empresas tentam segurar repasse ao consumidor

O presidente da Rede da Construção, Eduardo Menezes, afirma que o setor já enfrenta uma onda generalizada de reajustes. “Não houve nenhum material que não sofreu aumento nos últimos 15 dias. Os reajustes foram imediatos, entre 10% e 20%, com aviso de novos aumentos”, destaca.

Segundo ele, as empresas têm tentado amortecer o impacto para o consumidor. “Estamos segurando o repasse ao máximo, principalmente nos produtos que ainda estão em estoque, para evitar um choque maior nos preços finais”, explica.

A pressão também já afeta o abastecimento e a logística. “Há uma corrida das lojas às indústrias para antecipar compras, o que gera sobrecarga no sistema logístico”, afirma Menezes. Apesar disso, ele pondera que os atrasos ainda são pontuais e não generalizados.

Entre os itens mais impactados, estão produtos ligados à cadeia petroquímica. “Tubos e conexões já registram aumentos entre 15% e 20%, e a tendência é de novos reajustes nas próximas semanas”, acrescenta.

O comportamento do consumidor também começa a mudar. “Já percebemos redução ou cautela em algumas compras. No caso do cimento, por exemplo, o giro é mais sensível por ser um produto perecível e com menor estoque”, observa.

De forma mais pontual, o presidente da Rede Construmaster, Rodrigo Guimarães, reforça que o impacto logístico tem sido determinante. “O custo do diesel afeta toda a operação, do transporte à entrega final”, resume. Ele também destaca que o cenário tem influenciado decisões de investimento. “Muita gente está adiando o início de obras, esperando uma possível estabilização dos preços”, afirma.

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Impacto direto no bolso e nas obras

Além da logística, os insumos acompanham a alta. Produtos como PVC, tintas, solventes e mantas impermeabilizantes registram aumentos frequentes. Ao mesmo tempo, a instabilidade internacional afeta o fornecimento de aço e itens importados, reduzindo a margem de negociação no mercado.

Na prática, quem constrói já sente os efeitos. O eletricista João Batista, que realiza uma obra no interior, relata que precisou rever o orçamento. Um conjunto de materiais metálicos que custava cerca de R$ 4,5 mil passou para mais de R$ 5,5 mil em poucos meses. “Quando a gente volta para comprar, já está tudo mais caro”, afirma.

Diante desse cenário, empresas têm adotado estratégias como a antecipação de compras para garantir estoques e tentar conter novos reajustes. No entanto, a medida exige maior planejamento financeiro e capacidade de armazenamento.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta dificuldades adicionais, como a escassez de mão de obra na área logística, o que amplia os custos e torna o transporte um dos principais gargalos da construção civil em 2026.

Apesar das pressões, a expectativa ainda é de crescimento moderado, com projeção de cerca de 2% para o setor neste ano. No entanto, especialistas apontam que o desempenho dependerá diretamente da evolução do cenário internacional e do comportamento dos combustíveis.

Caso o conflito se prolongue, a tendência é de manutenção da pressão inflacionária, afetando desde grandes empreendimentos até pequenas reformas. Dessa forma, a guerra no Oriente Médio passa a ter reflexos concretos no cotidiano da população goiana, influenciando diretamente o custo de construir, reformar ou investir em imóveis.

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