Imagem, moda e sertanejo em pauta no Manda Vê
Cantora Débora Vitória e o stylist Rodolpho Rodrigo discutem identidade visual, crítica na internet e a construção do DVD DNA do Goiás
No episódio do dia 29 de abril, o podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho, recebeu a cantora Débora Vitória e o designer de moda e stylist Rodolpho Rodrigo. O assunto central foi a relação entre imagem, identidade e carreira artística, com fio condutor no projeto que os dois desenvolvem juntos: o DVD DNA do Goiás.
Goiana, Débora Vitória começou a se apresentar aos 10 anos. O sertanejo não é apenas gênero musical para ela, é referência afetiva e estética. Cresceu ouvindo os clássicos do gênero e foi construindo, ao longo dos anos, uma relação com a música que mistura vivência e repertório. O DVD nasce desse lugar: traduzir em som e imagem o que sempre fez parte da sua história.
Rodolpho Rodrigo, responsável pela construção visual da artista, veio do interior do Paraná com planos de seguir para São Paulo, mas acabou em Goiânia, trabalhando no show business. A estrada foi escola: anos de bastidor, logística e pressão ao lado de nomes como Naiara Azevedo construíram o profissional que ele é hoje. Define o conceito do projeto com Débora como um western contemporâneo. A proposta parte dos elementos clássicos do gênero, como bota, fivela e couro, mas se afasta do estereótipo caricato que ainda pesa sobre a estética sertaneja.
Para ele, moda é linguagem. Não uma fantasia de festa junina, mas uma cultura viva e em expansão. “O western ganhou espaço global. Grandes marcas e artistas internacionais incorporaram essa estética, mostrando que não se trata de algo regional ou limitado, mas de uma linguagem em expansão”, afirmou. A bota, por exemplo, deixou de ser item exclusivo do campo para se tornar elemento de moda urbana, usado em diferentes contextos e leituras.
O processo de construção da imagem de Débora não partiu de imposição. Rodolpho explica que o trabalho começa pela leitura de personalidade, momento de carreira e desejo da artista. Cada escolha, da roupa ao acessório, precisa comunicar algo. Pequenos elementos, como uma pena ou um adorno específico, podem se tornar assinatura visual. O papel do stylist, segundo ele, é potencializar, não transformar alguém em algo que não é.
A cantora, acostumada a um visual mais básico com jeans, bota e camisa, conta que estranhou algumas propostas no início. O reconhecimento veio ao se enxergar nas novas produções. A moda, nesse caso, não criou outra pessoa. Revelou uma versão mais forte dela mesma.
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Rodolpho defende também que identidade não se constrói a partir do que está em alta, mas do que faz sentido para cada indivíduo. Dentro de um mesmo grupo, existem múltiplas leituras. Em um shopping, por exemplo, jovens com estilos parecidos ainda assim apresentam variações individuais. “Moda sempre vai criar movimentos coletivos, mas cada pessoa interpreta à sua maneira”, diz. O erro, para ele, não está em seguir tendência, mas em nunca sair dela. Moda precisa ser ferramenta, não imposição.

A conversa também passou pelo peso da exposição. Rodolpho, que já trabalhou com Virginia Fonseca e outros nomes de grande visibilidade, relatou a pressão que acompanha cada escolha estética quando o alcance é alto. Críticas sobre cor, referência, corte e comparação com outros artistas são rotina. A saída, segundo ele, não é indiferença, mas clareza. “Eu sei da minha competência, eu sei da qualidade do trabalho que eu entrego. Falem o que quiserem, vou continuar fazendo o meu melhor, ouvindo o meu cliente e fazendo a minha entrega final”, disse.
Parte da crítica, avaliou o stylist, vem de quem não tem identidade própria definida. “Ela tá lá falando da outra porque a internet deu essa vantagem do poder dela poder falar. Só que ela não sabe nem o estilo que a representa”, comentou. Para ele, a insegurança alheia costuma se disfarçar de opinião. Existe uma diferença entre ouvir o público e se submeter a ele. Responder tudo é se colocar em lugar de justificativa constante, e esse não é o papel de quem está criando.
No campo das referências, Rodolpho citou Luan Santana como modelo de consistência artística. “Ele entrega cada projeto, muda o cabelo, sabe contar a história, não tá nem aí pra crítica”, disse. Anitta também foi mencionada, pela construção deliberada de uma carreira internacional. “Ela falou onde queria chegar, se preparou pra aquilo e pagou o preço”, afirmou. Para o stylist, os dois exemplos ilustram o mesmo princípio: saber onde quer chegar e trabalhar para isso, sem deixar que o ruído externo desvie o foco.
A imagem hoje precisa ser pensada de forma estratégica. Não basta vestir algo bonito. É necessário contar uma história. No caso do DVD, cada escolha foi pensada para reforçar a identidade da artista: o cabelo, os acessórios, os detalhes. Moda deixou de ser tratada como algo secundário e passou a dialogar diretamente com branding, posicionamento e percepção pública. Para artistas que transitam também pelo mercado publicitário, isso tem peso direto em audiência e contrato.
O episódio está disponível nas plataformas de streaming.