Ozempic e emoções: uso de canetas levanta debate sobre “personalidade murcha”
Relatos apontam embotamento emocional associado ao uso de medicamentos para emagrecimento, mas ciência ainda não tem conclusão definitiva
Faz um tempo que a internet fala da “cara de Ozempic” e do “bumbum de Mounjaro” para se referir a um efeito mais “murchinho” e sem viço, supostamente ligado ao uso de canetas emagrecedoras. Agora, surge uma nova expressão: “personalidade de Ozempic”, usada por pessoas que relatam também um certo esvaziamento emocional.
O que esses usuários descrevem é um tipo de embotamento emocional — uma sensação de que nada provoca reações intensas. Situações marcantes, como a perda de um parente, o fim de um relacionamento, uma conquista importante ou o início de um novo romance, passam a ser vividas de forma mais plana, sem respostas físicas ou emocionais mais profundas.
Efeitos ainda estão em estudo
A ciência ainda investiga como esses medicamentos impactam desejos, impulsos e até a libido. Até o momento, os resultados são considerados ambíguos.
Enquanto algumas pessoas relatam diminuição do desejo sexual, outras afirmam que a perda de peso e a melhora metabólica aumentaram a sensação de bem-estar e de atratividade. Há também quem não perceba mudanças significativas. A conclusão geral é que ainda não há consenso.
Impacto no sistema de recompensa
Uma possível explicação está no efeito das canetas no chamado circuito de recompensa do cérebro. Esse sistema está ligado não só à alimentação, mas também a comportamentos como consumo de álcool, jogos e outras atividades prazerosas.
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Em análise publicada na imprensa, o neurocientista Álvaro Machado Dias aponta que esses medicamentos podem influenciar até mesmo a limerência — aquele estado intenso de paixão e fixação por outra pessoa.
Esse tipo de envolvimento costuma estar associado a altos níveis de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. A hipótese é que o uso das canetas possa interferir nesse processo, reduzindo a intensidade das emoções.
Consequências para relações e sexualidade
Se houver impacto na capacidade de se apaixonar, isso pode refletir diretamente na vida afetiva e sexual. A intensidade emocional costuma desempenhar papel importante na experiência do desejo e da conexão entre pessoas.
Uma reflexão inspirada na ficção
A discussão abre espaço para uma reflexão mais ampla: como seria uma sociedade com emoções menos intensas?
Essa ideia já foi explorada no livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Na obra, uma droga chamada “SOMA” mantém a população constantemente satisfeita, eliminando desconfortos e conflitos emocionais.
Nesse cenário, não há espaço para paixões intensas ou vínculos profundos. O prazer é constante, mas superficial. Trata-se de uma sociedade funcional, porém emocionalmente amortecida.Entre o controle e o vazio
A reflexão proposta por esse paralelo é direta: uma vida sem intensidade emocional, sem paixão ou desejo profundo, ainda seria plenamente satisfatória?
A resposta, por enquanto, permanece em aberto — tanto na ficção quanto na vida real.
Texto baseado em artigo da coluna “X de Sexo”, de Bruna Maia, publicado na Folha de S.Paulo