sexta-feira, 1 de maio de 2026
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Atendimento infantil sem pediatras na rede de Goiânia preocupa especialistas

Diante da dificuldade de manter pediatras na rede pública, unidades de saúde passaram a contar com clínicos gerais no atendimento infantil

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 1 de maio de 2026
Pediatras
Divulgação/SMS

A falta de pediatras na rede pública de Goiânia tem gerado preocupação entre especialistas, profissionais da saúde e, principalmente, entre pais que dependem do atendimento oferecido nas unidades municipais. 

Diante da redução desses profissionais, a solução adotada pela gestão tem sido a substituição por médicos clínicos gerais, especialmente em unidades de urgência e emergência. Embora a medida busque garantir cobertura e reduzir filas, ela abre um debate importante sobre os impactos diretos na qualidade da assistência e nos riscos à saúde das crianças.

Substituição levanta alerta sobre qualidade do atendimento

A Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia afirma que todas as unidades oferecem atendimento infantil e que médicos generalistas estão legalmente habilitados para atender pacientes de todas as idades. 

Além disso, a pasta destaca que há especialistas de referência para suporte clínico e que, quando necessário, os casos são encaminhados após estabilização. Segundo a gestão, o modelo também busca dar mais agilidade ao atendimento e diminuir o tempo de espera, como já observado em algumas unidades.

No entanto, entidades médicas e especialistas fazem um contraponto. Para eles, a criança possui características próprias que exigem formação específica. A pediatria envolve não apenas o tratamento de doenças, mas também o acompanhamento do crescimento, desenvolvimento e prevenção, aspectos que não fazem parte da rotina do clínico geral.

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Especialistas apontam riscos e limitações

De acordo com o pediatra Iago Vinícius Gonçales Siqueira Oliveira, coordenador da pediatra do Hospital Mater Dei Goiânia, destaca que a substituição pode trazer riscos importantes. Isso porque muitas doenças pediátricas começam com sintomas inespecíficos, exigindo um olhar treinado para identificar sinais sutis. Em recém-nascidos e crianças pequenas, por exemplo, quadros graves podem evoluir rapidamente sem manifestações evidentes.

Além disso, há preocupação com possíveis erros de diagnóstico, atrasos no início do tratamento e até falhas na dosagem de medicamentos, já que a farmacologia pediátrica exige cálculos precisos baseados no peso e na idade da criança. Outro ponto destacado é a perda de oportunidades de prevenção, como a identificação precoce de atrasos no desenvolvimento.

Embora o clínico geral possa realizar o atendimento inicial e estabilizar pacientes em situações de urgência, especialistas reforçam que há limitações na condução completa dos casos. Crianças tendem a descompensar mais rápido, e a ausência de avaliação especializada pode impactar diretamente no desfecho clínico.

Problema vai além da falta de profissionais

Apesar do cenário, especialistas destacam que o problema não está necessariamente na quantidade de pediatras disponíveis. Goiás conta com um número significativo de pediatras, mas enfrenta dificuldade para fixar esses profissionais na rede pública. Entre os principais fatores estão a falta de estrutura adequada, remuneração considerada insuficiente, ausência de plano de carreira e condições de trabalho pouco atrativas.

Esse conjunto de desafios dificulta a fixação dos especialistas nas unidades municipais e contribui para a adoção de soluções alternativas, como a utilização de clínicos gerais no atendimento infantil.

As consequências dessa mudança podem ir além do atendimento imediato. A falta de acompanhamento especializado pode resultar em diagnósticos tardios, pior controle de doenças crônicas e aumento de internações que poderiam ser evitadas. Além disso, há risco de não identificação de problemas no desenvolvimento infantil, o que pode gerar impactos duradouros na saúde das crianças.

Diante desse cenário, o debate sobre a organização da rede de saúde e a valorização dos pediatras ganha ainda mais relevância. Garantir atendimento qualificado para o público infantil não depende apenas da presença de médicos, mas da estrutura e das condições oferecidas para que especialistas atuem de forma contínua e eficaz.

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