Endividamento no cartão cresce e especialistas alertam para riscos do crédito rotativo
Especialistas em educação financeira recomendam evitar o uso contínuo do limite do cartão para despesas básicas
O início de cada mês costuma trazer um desafio financeiro para milhares de brasileiros: o vencimento das faturas do cartão de crédito. Em meio ao aumento do custo de vida, juros elevados e renda apertada, muitos consumidores acabam recorrendo ao pagamento mínimo da fatura ou ao crédito rotativo para evitar a inadimplência imediata. No entanto, especialistas alertam que essa decisão pode transformar uma dívida temporária em um problema financeiro de longo prazo.
A advogada especialista em direito bancário Jackellyne Cirqueira explica que os juros do cartão de crédito seguem entre os mais altos do mercado financeiro brasileiro, o que faz com que pequenas dívidas cresçam rapidamente em poucos meses.
“Quando o consumidor entra no rotativo, os encargos aumentam de forma muito acelerada. Muitas vezes, a pessoa paga apenas o mínimo acreditando que está ganhando tempo, mas acaba criando uma dívida difícil de controlar”, afirma.
Segundo a especialista, o primeiro passo diante da dificuldade de pagamento é evitar decisões impulsivas e buscar compreender exatamente o tamanho da dívida. Ela recomenda que o consumidor solicite o demonstrativo completo da cobrança, incluindo juros, multas e demais encargos aplicados pela instituição financeira.
Uma das orientações é utilizar plataformas oficiais, como o consumidor.gov.br e os canais do Banco Central, para registrar reclamações e solicitar informações detalhadas sobre os débitos. Além de ampliar a transparência, esses mecanismos também podem facilitar negociações com condições mais vantajosas.
“Em muitos casos, o consumidor consegue descontos significativos ou condições melhores de parcelamento quando busca atendimento pelos canais oficiais. Isso permite uma negociação mais consciente e evita acordos abusivos”, explica.
Outro ponto destacado pela advogada é a importância da organização financeira para evitar o agravamento do endividamento. Ela ressalta que muitas pessoas desconhecem o próprio orçamento e acabam acumulando parcelas, empréstimos e limites de crédito sem planejamento.
A recomendação é fazer um levantamento completo das despesas mensais, identificar gastos que podem ser reduzidos e estabelecer prioridades financeiras. “Sem entender quanto ganha, quanto gasta e quanto deve, o consumidor perde o controle da situação e pode entrar em um ciclo contínuo de dívidas”, pontua.
A especialista também faz um alerta sobre os riscos da renegociação de dívidas sem análise cuidadosa do contrato. De acordo com ela, ao renegociar um débito, o consumidor pode estar assinando uma nova operação de crédito, o que dá ao banco mais possibilidades de cobrança judicial em caso de inadimplência futura.
“Quando ocorre a renegociação, o banco passa a ter um novo título da dívida e isso pode facilitar medidas judiciais para cobrança do valor acordado. Por isso, é importante avaliar se as parcelas realmente cabem no orçamento antes de formalizar qualquer acordo”, destaca.
Além dos cuidados com renegociações, especialistas em educação financeira recomendam evitar o uso contínuo do limite do cartão para despesas básicas, como alimentação e contas fixas, já que isso pode indicar comprometimento excessivo da renda.
Dados recentes do Banco Central mostram que o endividamento das famílias brasileiras permanece em patamares elevados, impulsionado principalmente pelo uso do cartão de crédito. O cenário preocupa economistas, já que o aumento das dívidas reduz o poder de consumo das famílias e dificulta a recuperação financeira de longo prazo.