sábado, 17 de outubro de 2026
inovação cientifíca

Pesquisa antecipa ondas da covid e amplia alerta para avanço do hantavírus

Estudo pioneiro da UFG com quase 9 mil genomas do SARS-CoV-2 em Goiás revelou que o monitoramento genético contínuo consegue prever novas ondas de contágio antes do aumento de casos e mortes

Anna Salgadopor em
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Um estudo pioneiro liderado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) revelou que o monitoramento genético contínuo do vírus SARS-CoV-2 é capaz de prever novas ondas de contágio antes mesmo do aumento real no número de casos e mortes. Ao analisar quase 9 mil genomas coletados em Goiás entre 2020 e 2024, pesquisadores comprovaram que a diversidade genética do vírus funciona como um termômetro para a evolução da pandemia, permitindo que autoridades de saúde se antecipem a crises sanitárias.

O modelo de inteligência epidemiológica, que transformou Goiás em referência nacional, surge agora como uma ferramenta essencial não apenas para a covid-19, mas também para o monitoramento de outras ameaças emergentes, como o recente surto de hantavírus que gerou alerta internacional e registrou casos fatais no Brasil.

A pesquisa foi coordenada pelo professor José Alexandre Diniz-Filho, do Centro de Excelência em Tecnologia e Inovação em Saúde (Ceti-Saúde) da UFG. A equipe utilizou uma abordagem de análise evolutiva contínua, em vez de apenas rastrear variantes já conhecidas e catalogadas pela Organização Mundial da Saúde. Ao todo, foram examinadas 8.937 sequências virais, permitindo identificar três grandes fases de transformação genética acelerada em Goiás.

A primeira grande mudança ocorreu no início de 2021, com a chegada da variante Gama, que provocou um aumento dramático na mortalidade no Estado. O segundo pico, no final de 2021, marcou a entrada da Ômicron, que apresentou o maior salto genético observado na pesquisa, tornando-se a linhagem mais divergente até então. Um terceiro pico de evolução foi detectado no fim de 2023, demonstrando que, mesmo em períodos de aparente estabilidade, o vírus continuava a sofrer mutações significativas.

O diferencial da metodologia goiana foi o uso de métricas como a Distância Filogenética Mediana (MedPD) e a Regressão de Autovetores Filogenéticos (PVR). Essas ferramentas permitiram observar que o aumento da diversidade viral precede os picos epidemiológicos. Na prática, o rastreamento da evolução em tempo real oferece uma “janela de antecipação” ao poder público, possibilitando que decisões políticas sejam tomadas com base em evidências científicas robustas antes que o sistema de saúde seja sobrecarregado.

O estudo da UFG transformou a observação clínica em evidência científica mensurável sobre o impacto das vacinas. Embora a variante Ômicron tenha demonstrado elevada capacidade de escape imunológico e transmissão devido à sua distância genética em relação às versões anteriores do vírus, o número de hospitalizações e óbitos foi significativamente menor quando comparado à onda causada pela variante Gama.

Essa redução na gravidade foi atribuída diretamente à campanha de vacinação, que já havia alcançado grande parte da população goiana quando a Ômicron emergiu. A proteção acumulada reduziu o potencial destrutivo do vírus, rompendo a relação direta entre o surgimento de novas variantes e a alta mortalidade. O estudo reforça que a vacinação, associada ao monitoramento genômico, é a estratégia mais eficaz para reduzir danos e salvar vidas.

Os dados também revelaram que o vírus não se espalhou de forma uniforme por Goiás, acompanhando a geografia humana e os fluxos de deslocamento. Goiânia e a Região Metropolitana funcionaram como principais portas de entrada para novas variantes, que posteriormente se redistribuíam para o interior. 

Em contrapartida, áreas com menor densidade populacional, como o norte e o nordeste goiano, registraram menor diversidade genética, indicando circulação mais restrita. Segundo os pesquisadores, ignorar essa estrutura demográfica no desenho de políticas de vigilância representa desperdiçar informações vitais para conter a propagação viral.

tratamento pandemia
Foto: Legado Lima

Vacinação e vigilância genômica fortalecem resposta a novas ameaças

Enquanto o Brasil consolida seu modelo de vigilância para a covid-19, uma nova preocupação sanitária ganhou destaque global: o hantavírus. Recentemente, o navio de cruzeiro MV Hondius protagonizou um surto severo durante uma viagem da Argentina para as Ilhas Canárias, resultando em três mortes confirmadas a bordo.

O desembarque dos passageiros em Tenerife, na Espanha, exigiu uma operação considerada “sem precedentes”, coordenada pela OMS e acompanhada de perto por seu diretor-geral, Tedros Adhanom Ghebreyesus. O risco de contágio para a população geral foi classificado como baixo, mas a gravidade da cepa identificada exigiu protocolos rígidos de isolamento, com passageiros transferidos em ônibus isolados e aviões fretados para quarentena em seus países de origem.

A principal hipótese é de que o surto tenha começado após passageiros visitarem um aterro sanitário na Argentina para observação de aves, local onde podem ter tido contato com roedores infectados. Embora a transmissão entre pessoas seja rara, ela já foi registrada em casos associados ao hantavírus do tipo Andes, justificando o alerta máximo das autoridades internacionais.

O Brasil também enfrenta o avanço da doença. No domingo (10), a Secretaria de Saúde de Minas Gerais confirmou a morte de um homem de 46 anos por hantavírus em Carmo do Paranaíba, no Alto Paranaíba. O paciente teria tido contato com roedores silvestres em uma lavoura de milho. Os sintomas incluíram dor de cabeça, febre, dores musculares e nas articulações, evoluindo rapidamente para o óbito poucos dias após o início do quadro clínico.

Além do caso fatal em Minas Gerais, o Paraná confirmou dois casos da doença em 2026 e investiga outros 11. No Brasil, a hantavirose costuma se manifestar como a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), uma zoonose viral aguda grave que compromete pulmões e coração.

Diferentemente da covid-19, não existe tratamento específico ou antiviral para o hantavírus, sendo as medidas voltadas principalmente ao suporte médico intensivo. A transmissão ocorre, sobretudo, pela inalação de partículas presentes na urina, fezes e saliva de roedores silvestres infectados.

Entre as principais recomendações de prevenção estão manter alimentos em recipientes fechados e protegidos contra roedores; evitar acúmulo de entulhos e roçar terrenos próximos às residências; ventilar ambientes fechados antes da entrada; e umedecer o chão com água e sabão antes da limpeza de áreas com suspeita de presença de roedores, evitando varrer a seco para não levantar poeira contaminada.

O sucesso do monitoramento realizado em Goiás demonstra que a genômica deixou de ser apenas um recurso auxiliar e passou a ocupar papel central na inteligência epidemiológica. O modelo desenvolvido pela UFG não apenas documenta a trajetória da covid-19, mas estabelece uma estrutura capaz de ser adaptada para monitorar rapidamente a evolução de diferentes patógenos, incluindo vírus emergentes como o hantavírus.

Os pesquisadores destacam que o investimento em sequenciamento genético e monitoramento em tempo real permite que o País não apenas reaja às crises sanitárias, mas consiga antecipá-las.

LEIA MAIS: Minas Gerais confirma primeira morte por hantavírus no Brasil

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
hantavírus

Veja também

Bombeiros encontram corpo de homem em lago da Saneago, em Goiânia

Mistério

Bombeiros encontram corpo de homem em lago da Saneago, em Goiânia

Vítima, de aproximadamente 30 anos, foi localizada submersa a cerca de três metros de profundidade...
Cirurgião depõe sobre morte de empresária após cirurgia plástica em Goiânia

INVESTIGAÇÃO

Cirurgião depõe sobre morte de empresária após cirurgia plástica em Goiânia

Lessandro Martins ficou cerca de três horas no 4º DP. Polícia aguarda laudo da exumação para es...
Bebê de 23 dias é morto com mais de 20 facadas; pais são presos na Paraíba

Crime Bárbaro

Bebê de 23 dias é morto com mais de 20 facadas; pais são presos na Paraíba

Casal de 19 anos apresentou versões conflitantes sobre o crime; Polícia Civil investiga a particip...
Homem fica gravemente ferido após cair de telhado no Setor Finsocial, em Goiânia

Acidente

Homem fica gravemente ferido após cair de telhado no Setor Finsocial, em Goiânia

Vítima foi encontrada inconsciente e com sangramento intenso na cabeça, no Setor Finsocial, e enca...
Goiás registra alta de dengue e chikungunya e reforça combate ao mosquito

Atenção na saúde

Goiás registra alta de dengue e chikungunya e reforça combate ao mosquito

Estado confirma mais de 108 mil casos de dengue e 11 mil de chikungunya em 2026; ações incluem nov...
PCDF prende dois suspeitos de tráfico de drogas na Estrutural em Brasília

Tráfico de drogas

PCDF prende dois suspeitos de tráfico de drogas na Estrutural em Brasília

Um dos detidos é um homem de 36 anos que estava foragido e usava documentos falsos para esconder a ...
Polícia Civil identifica suspeito de 14 furtos a residências no Park Way (DF)

série de furtos no DF

Polícia Civil identifica suspeito de 14 furtos a residências no Park Way (DF)

Investigação durou cerca de um ano e aponta prejuízo superior a R$ 1 milhão; segundo a polícia,...
Consórcio ou financiamento em 2026: qual a melhor opção para a compra do primeiro imóvel?

publieditorial

Consórcio ou financiamento em 2026: qual a melhor opção para a compra do primeiro imóvel?

Descubra as principais diferenças entre consórcio e avalie taxas, prazos e urgência, garantindo a...