Câmara de Goiânia acata decisão do TCM e concurso público é suspenso
Suspensão cautelar vale por 90 dias e envolve investigação sobre vínculos entre aprovados e a banca organizadora, além de denúncias sobre segurança das provas práticas e objetivas
A Câmara Municipal de Goiânia confirmou, nesta terça-feira (19), o cumprimento da decisão cautelar do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO), que determinou a suspensão imediata do concurso público do Legislativo municipal por 90 dias. A paralisação atinge todos os cargos e todas as fases do certame organizado pelo Instituto Verbena, vinculado à Universidade Federal de Goiás (UFG).
A medida foi assinada monocraticamente pelo conselheiro-relator Humberto Aidar, dentro do Processo nº 02533/26. Em ofício encaminhado ao TCM-GO, o presidente da Câmara, vereador Romário Policarpo, informou oficialmente que o Legislativo cumpriu integralmente a determinação prevista na Medida Cautelar nº 6/2026.
O concurso oferece 62 vagas imediatas e 315 para cadastro de reserva, com salários que chegam a R$ 10 mil para cargos de nível superior. As provas foram realizadas em março deste ano e mobilizaram milhares de candidatos em Goiânia.

Suspeita de favorecimento motivou investigação
O principal foco da apuração envolve o candidato aprovado em primeiro lugar para o cargo de administrador. Segundo denúncia apresentada ao TCM-GO, ele mantinha vínculo ativo com o Instituto Verbena durante o período de preparação e realização do concurso.
Documentos analisados pela Secretaria de Controle Externo de Atos de Pessoal do tribunal apontam que o candidato participou de eventos institucionais representando a banca organizadora meses antes das provas. Há ainda registros de pagamentos ligados a projetos da instituição, mesmo após cessão dele para a Defensoria Pública da União (DPU).
Na decisão, o conselheiro Humberto Aidar destacou que a possível quebra da isonomia entre candidatos já seria suficiente para comprometer a lisura do concurso, mesmo sem comprovação direta de acesso ao conteúdo das provas.
Instituto Verbena nega irregularidades
Em manifestação enviada ao TCM-GO, o Instituto Verbena afirmou que o candidato comunicou possível conflito de interesse ainda em dezembro de 2025 e pediu afastamento de atividades relacionadas ao concurso da Câmara de Goiânia.
A banca informou que realizou bloqueio dos acessos do servidor aos sistemas internos do certame e sustentou que ele não participou da elaboração, revisão, logística, segurança ou armazenamento das provas.
Apesar disso, o próprio instituto confirmou que o candidato permaneceu vinculado à instituição como bolsista em um projeto denominado “Gestão Visionária”, voltado à inteligência artificial aplicada a concursos públicos.
O tribunal também investiga outra candidata aprovada para o cargo de revisor de texto. Segundo os auditores, ela atuava como bolsista do Instituto Verbena durante o período do concurso, situação considerada potencialmente incompatível com as regras do edital.
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Falhas na segurança das provas entram na mira
Além dos possíveis conflitos de interesse, o TCM-GO também abriu apuração sobre falhas nos protocolos de segurança adotados durante a aplicação das provas.
Entre os problemas relatados estão ausência de detectores de metais, inexistência de identificação biométrica, liberdade para escolha de assentos e falhas no controle de acesso aos banheiros.
Denúncias recebidas pelo tribunal também apontam que fiscais teriam informado a candidatos que aparelhos celulares tocando durante a prova não resultariam automaticamente em eliminação.
Outra frente de investigação envolve o cargo de técnico em iluminação. Um candidato denunciou possível favorecimento em prova prática após um concorrente obter nota máxima. Segundo os autos, ele possuiria vínculos profissionais e acadêmicos com avaliadores responsáveis pela etapa.

O tribunal determinou que os responsáveis apresentem esclarecimentos detalhados sobre os critérios adotados na avaliação prática e sobre as relações entre examinadores e candidatos.
Concurso segue paralisado até nova decisão
Com a suspensão cautelar, todas as etapas do concurso ficam interrompidas pelos próximos 90 dias ou até nova deliberação do TCM-GO.
Durante esse período, o tribunal deverá analisar documentos, ouvir os envolvidos e aprofundar as investigações sobre possíveis violações aos princípios da isonomia, impessoalidade e moralidade administrativa. Ao final da apuração, o TCM-GO poderá decidir pela manutenção do concurso, anulação de etapas específicas, impedimento de nomeações ou responsabilização administrativa dos envolvidos, caso as irregularidades sejam confirmadas.