Odontologia cobra gestão, marca e presença digital
Com mercado mais competitivo, clínicas odontológicas buscam se diferenciar pela experiência do paciente, pela cultura da equipe e pela comunicação nas redes sociais
A figura do dentista limitado ao consultório, à cadeira clínica e ao jaleco já não explica o mercado odontológico atual. Entre o paciente que chega por indicação familiar e aquele que marca uma avaliação depois de assistir a um vídeo nas redes sociais, há um percurso atravessado por gestão, marca, atendimento, cultura interna, tráfego pago, tecnologia e presença digital. Esse foi o eixo do episódio do podcast Manda Vê, apresentado na última segunda-feira por Juan Allaesse, Isadora Carvalho e Jorranes Rocha, com os cirurgiões-dentistas Lívio Camargo e Danielly Silva Borges.
A conversa reuniu profissionais em momentos distintos da carreira. Lívio, formado pela UFG em 2001, mestre em Ciências da Saúde, especialista em Ortodontia e ex-professor de especialização por 17 anos, está à frente da Camargo Odontologia há 25 anos. Danielly, formada pela UNIP em 2018, especialista em Prótese Dentária e Implantodontia, atua há quase oito anos com reabilitação oral na OdontoLife e é proprietária da Sorria Bem Odontologia, aberta há nove meses.
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O contraste entre as trajetórias conduziu boa parte do debate. Lívio relembrou uma odontologia em que abrir o próprio consultório era quase uma consequência natural da formação. Danielly, por sua vez, representou uma geração que encontra um mercado mais exigente, com menor margem para improviso e maior pressão por estrutura, posicionamento e comunicação. Segundo ela, o profissional que decide empreender hoje precisa aparecer, investir e entrar no mercado com atenção a diferentes frentes do negócio.
A decisão de abrir o próprio espaço, no caso de Danielly, ganhou força depois da maternidade. A cirurgiã-dentista relatou que buscava mais tempo com a família, mas também desejava construir um legado profissional. A clínica, segundo ela, precisava carregar sua cultura, sua forma de atender e sua visão sobre o cuidado com o paciente. A escolha pelas áreas de prótese e implante nasceu, primeiro, da necessidade de complementar o trabalho da mãe, também dentista, e depois ganhou sentido próprio na reabilitação de pessoas que convivem há anos com vergonha de sorrir, dificuldade para mastigar ou desconforto com próteses antigas.
Lívio apresentou a face longa do empreendedorismo. Formado há 25 anos, começou trabalhando em clínicas de colegas antes de montar o próprio negócio em Campinas, bairro onde permanece desde o início da carreira. Hoje, com uma clínica de maior porte, equipe numerosa e atuação concentrada em implantes e próteses, ele descreveu o crescimento como resultado de presença constante, controle de processos, treinamento e atenção diária aos detalhes.
O episódio mostrou que, na odontologia, a experiência do paciente começa antes do procedimento. A recepção, a limpeza do ambiente, o humor da equipe, a forma de chamar o paciente pelo nome, a apresentação dos funcionários e até o banheiro da clínica foram tratados como partes da construção de confiança. Na avaliação de Lívio, qualquer sinal de descuido no espaço físico ou no atendimento pode ser associado pelo paciente à qualidade do tratamento que será recebido.
Essa leitura aproxima a clínica odontológica de outros negócios de serviço, mas com uma camada adicional de responsabilidade. Saúde, estética, medo, autoestima e decisão financeira se encontram no mesmo atendimento. Danielly destacou que a primeira impressão pode nascer ainda no contato inicial com a recepção. Antes mesmo de ser atendido pelo dentista, o paciente já começa a formar uma percepção sobre o lugar, a equipe e a segurança do tratamento.
Danielly observou que a internet permite ao profissional alcançar o paciente antes da consulta. Um conteúdo bem direcionado pode tocar uma insegurança, uma dor ou um desejo de transformação sem que a pessoa tenha pisado no consultório. Para ela, a presença digital não elimina as diferenças entre uma clínica consolidada e outra em início de trajetória, mas pode equilibrar parte do jogo ao permitir que profissionais mais novos mostrem seu diferencial.
O debate também passou pelos limites éticos da publicidade na odontologia. Os convidados reconheceram que existem regras profissionais e discussões conduzidas pelos conselhos da categoria. Ainda assim, Lívio defendeu que o mercado exerce papel importante na escolha do profissional. Na avaliação dele, divulgar o trabalho faz parte de um setor em que o paciente compara experiências, avaliações, presença digital e identificação com a marca antes de decidir onde será atendido.
A tecnologia apareceu ainda como ferramenta de aproximação entre dentista e paciente. A inteligência artificial foi citada como recurso capaz de ajudar na leitura de exames e na explicação de radiografias. Para Lívio, a ferramenta tem valor não apenas técnico, mas também comunicacional, porque pode transformar imagens complexas em informações mais compreensíveis. Ao reduzir a distância entre diagnóstico e entendimento, a tecnologia tende a tornar o planejamento mais claro e a decisão do paciente mais segura.
Ao fim, o episódio do Manda Vê usou a odontologia como ponto de partida para discutir uma mudança mais ampla no empreendedorismo. O domínio técnico segue indispensável, mas já não basta. A clínica precisa funcionar como empresa, marca, ambiente de cuidado e espaço de confiança. No sorriso que o paciente busca, há também uma estrutura que precisa ser vista, lembrada, bem administrada e sustentada por uma cultura reconhecível.