Governo Caiado usou fintech investigada e suspeita de ligação com o PCC para movimentar R$ 1,36 bilhão, diz Folha
BK Bank, alvo da Operação Carbono Oculto, operou repasses de programas sociais em Goiás entre 2021 e 2025
O governo de Ronaldo Caiado utilizou uma fintech investigada por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para movimentar R$ 1,36 bilhão em programas de transferência de renda em Goiás. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo com base em documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf ).
Segundo a reportagem, os recursos foram repassados pela Agência de Fomento de Goiás à BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank, entre outubro de 2021 e agosto de 2025. A fintech é investigada na Operação Carbono Oculto, que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro e movimentações financeiras atribuídas ao PCC.
A Agência de Fomento de Goiás, controlada pelo governo estadual, é responsável pela operacionalização de benefícios sociais que atendem cerca de 880 mil beneficiários em Goiás. Conforme o governo, os valores eram enviados à conta da BK, que realizava os repasses aos cartões utilizados pelos usuários finais dos programas.
Taxa sobre compras era dividida entre agência e fintech
De acordo com o documento obtido pela Folha, sobre as compras realizadas pelos beneficiários incidia uma taxa de utilização de até 6%, paga pelos estabelecimentos credenciados. Até 2024, metade desse valor ficava com a Agência de Fomento e a outra metade era destinada à BK Bank.
O governo estadual informou que a fintech foi contratada por meio de um processo regular de credenciamento realizado em 2020, antes das investigações envolvendo o PCC.
“A instituição atuava regularmente no mercado, com autorização do Banco Central, e mantinha contratos com diversos órgãos públicos”, afirmou a gestão estadual em nota.
Operação investiga lavagem de dinheiro
A BK Bank é apontada pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo como suspeita de atuar como um “banco paralelo” da facção criminosa. Conforme as investigações, a fintech utilizava contas-bolsão para dificultar o rastreamento de recursos movimentados por empresas ligadas ao crime organizado.
O relatório do Coaf cita indícios de lavagem de dinheiro, movimentações incompatíveis com o porte financeiro da empresa e operações consideradas atípicas envolvendo órgãos públicos e empresas investigadas.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, Correios, Serpro e o Governo do Paraná encerraram contratos com a fintech.
Caiado questiona atuação do Coaf
Após a publicação da reportagem, Caiado afirmou que não havia elementos públicos que indicassem eventual ligação da empresa com organizações criminosas.
O ex-governador também questionou a atuação do Coaf no monitoramento das operações financeiras da fintech.
“Não estaria existindo, neste momento, conivência ou omissão do Coaf na prevenção de crimes dessas organizações criminosas?”, declarou Caiado em nota divulgada após a reportagem.