terça-feira, 27 de outubro de 2026
Território Kalunga

“Fiota e o Coco Daiá” estreia neste sábado na Chapada dos Veadeiros

Curta-metragem acompanha mestra quilombola na produção artesanal de óleo de coco no Território Kalunga, em Cavalcante

Luana Avelarpor em
Fiota
Foto: Lucivaldo Pereira

O Território Kalunga, reconhecido como o maior quilombo em extensão do Brasil, reúne mais de 39 comunidades no norte de Goiás. Uma delas é o Vão de Almas, em Cavalcante, onde o conhecimento passa de geração em geração pelo gesto no quintal, pela caminhada até o mato, pelo coco quebrado e pelo pilão.

Foi nessa comunidade que nasceu e cresceu Deuzami Francisco da Conceição, a Fiota Kalunga. Agricultora, extrativista, artesã, professora de dança Sussa e integrante das Mães do Óleo Kalunga, ela carrega saberes herdados de gerações de mulheres do território. Filha de raizeira e neta de parteira, aprendeu com a mãe, Dona Benedita, a lidar com a terra e a floresta.

Parte dessa história virou documentário. “Fiota e o Coco Daiá”, curta dirigido por Alciléia Torres e Natália Vitral, estreia neste sábado (30) durante o 9º Encontro Raízes, na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros. O filme acompanha Fiota desde a coleta no mato até a extração manual do óleo de coco daiá, também chamado de indaía no Cerrado e babaçu em outras regiões. A segunda exibição acontece dia 9 de junho, na Praça da Primavera, em Cavalcante.

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Uma história feita de muitos nomes

A estreia emociona Fiota porque leva para além do Vão de Almas uma trajetória que ela nunca considera só sua. “Estou feliz demais. Feliz por mim e pela comunidade. Por ter esse nome espalhado pelo Brasil através dos meus trabalhos, dos ensinamentos da minha mãe, da minha avó e do meu pai. Porque se não fosse minha mãe, eu não estaria onde estou”, diz ela. Fiota agradece também o marido, Calisto. “Quando aparece convite para evento, feira, palestra, ele nunca faz cara ruim. Ele fala: ‘Pode ir, Fiota’. Porque ele sabe que é uma luta pelo nosso futuro, pelos nossos filhos e pelos nossos netos.”

O filme registra mais do que uma técnica artesanal. Mostra um modo de vida sustentado pelo conhecimento da floresta e pela transmissão entre gerações. ” Foi daqui que veio nossa sobrevivência, nossa força e nossa energia. Agora quem não conhece vai saber como é dificultoso ir até o mato, quebrar o coco, socar no pilão até chegar na casa de cada pessoa. Eu estou feliz, me sinto feliz e abraçada por todo mundo. Deus me deu os saberes da floresta e assim eu estou seguindo meus passos”, conta Fiota.

A câmera dentro do território

O documentário é realizado pelo Coletivo Oyá, iniciativa de cinema independente com mais de dez anos de atuação na Chapada dos Veadeiros, em parceria com a Rede Kalunga Comunicações. O processo foi conduzido majoritariamente por mulheres.

Alciléia Torres, 21 anos, nasceu e cresceu no Vão de Almas. Coordenadora de Cultura da Rede Kalunga Comunicações, assina seu segundo filme. Para ela, dirigir o curta é narrar a própria comunidade a partir de quem vive suas histórias. “Pra mim, dirigir esse filme é a realização de sonhos. Sonhos que não são somente meus, mas sonhos coletivos, que atravessam gerações. É algo que aquece muito o meu coração, principalmente porque eu sou apaixonada pela narração de histórias através do audiovisual.”

Natália Vitral, do Coletivo Oyá, conhece Fiota há 11 anos. “Eu conheço a Fiota há 11 anos e fiquei encantada com ela desde a primeira vez que a vi. Sempre soube o quanto seria importante não só registrar, mas ter a oportunidade de conviver, aprender e trocar com uma mestra como ela.” Para Natália, o filme nasceu de escuta e confiança acumuladas. “Não é um processo do dia pra noite. É uma relação construída há muitos anos, com muito respeito, consideração e valorização desse conhecimento que ela carrega e transmite com tanto orgulho. Ela fala o tempo todo que foi a mãe dela quem ensinou, e hoje ela também ensina para os filhos e para os netos.”

Aprender a olhar

Como parte do projeto, uma oficina de audiovisual foi realizada no Vão de Almas, com práticas de fotografia, som e entrevista para crianças, adolescentes e moradores. A experiência chegou também às filmagens: Lucivaldo Pereira fez registros de bastidores e Francileia da Cunha Santos, 16 anos, atuou como microfonista. “Foi algo novo pra mim e eu gostei muito de aprender mais sobre como funciona essa parte de ouvir, gravar e cuidar dos sons durante as filmagens. Fazer parte disso tudo me deixou muito feliz e orgulhosa, porque de alguma forma eu também estava ajudando a registrar e valorizar a nossa comunidade e o nosso território”, contou Francileia.

Graziela Zaira Araújo Paz, 21, mora na Vila de São Jorge, a cerca de 140 km do Vão de Almas, e chegou à comunidade pela primeira vez durante as gravações. “Estar naquele lugar foi como atravessar túneis da história. Conheci riquezas que vão muito além da cultura: pessoas, vivências e conhecimentos que transformaram a forma como eu enxergava a realidade até então.”

“Fiota e o Coco Daiá” não é um filme sobre o passado. É sobre o que resiste. Entre o mato, o pilão e a câmera, o documentário registra um conhecimento que chega à tela pelo nome, pela voz e pelas mãos de quem nunca parou de transmiti-lo.

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