quarta-feira, 5 de agosto de 2026
TDAH E TECNOLOGIA

TDAH e telas: psicólogo explica como ajudar crianças na volta às aulas

Especialista alerta que jogos e vídeos curtos intensificam dificuldades do transtorno e orienta como reorganizar rotina e reduzir estímulos antes do retorno escolar

Luana Avelarpor Luana Avelar em 5 de agosto de 2026 às 18:00
TDAH

Na volta às aulas, retomar horários, tarefas e hábitos de estudo pode ser mais difícil para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) que passaram as férias diante de celulares, videogames e vídeos curtos. A mudança não depende apenas de desligar os aparelhos. Exige reorganizar a rotina e reduzir estímulos que fazem atividades como ler ou estudar parecerem menos atraentes.

O psicólogo infantojuvenil e escritor Tiago Gonçalves explica que crianças com TDAH costumam ser mais sensíveis às recompensas imediatas oferecidas pelas telas. Jogos, redes sociais e vídeos curtos apresentam novidades em sequência, combinação que pode intensificar dificuldades já presentes no transtorno.

“Crianças com TDAH tendem a ser mais sensíveis a estímulos rápidos e altamente recompensadores das telas, principalmente os relacionados a jogos, vídeos curtos e redes sociais. Como consequência, elas podem apresentar ainda mais dificuldades para manter o foco em atividades que exigem esforço mental, como estudar, ler ou realizar tarefas domésticas. Da mesma forma, elas tendem a apresentar maior impulsividade, dificuldade para interromper o uso das telas, maior irritabilidade quando o acesso é limitado e desregulação emocional”, comenta.

O tempo de exposição serve como referência, mas não explica sozinho o impacto. De acordo com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) citadas pelo psicólogo, menores de 2 anos não devem ser expostos a telas. Entre 2 e 5 anos, o limite é de uma hora por dia. Dos 6 aos 10, a orientação é de até duas horas; entre 11 e 17 anos, de no máximo três horas diárias.

Conteúdo, horário e supervisão também pesam. O alerta aparece quando o aparelho ocupa o lugar do sono, da atividade física, da convivência familiar, das brincadeiras ou das obrigações escolares. Crises de raiva ao desligar o aparelho, agitação, dificuldade para iniciar tarefas e perda de interesse por atividades antes prazerosas merecem atenção.

O sono é uma das áreas mais atingidas. Conteúdos estimulantes mantêm o cérebro em alerta e dificultam o descanso. Para quem já convive com desatenção, impulsividade e hiperatividade, dormir pouco pode agravar os sintomas e afetar memória, aprendizagem e controle emocional.

“O conteúdo altamente estimulante proporcionado pelas telas mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o início do sono. Sendo assim, a privação, ou a má qualidade do sono, potencializa sintomas principais do TDAH, como desatenção, impulsividade e hiperatividade, além de impactar a memória, a aprendizagem e o controle emocional”, comenta o psicólogo.

A recomendação é evitar telas nas duas horas anteriores ao horário de dormir e substituí-las por leitura ou contação de histórias. Na volta às aulas, a mudança tende a funcionar melhor quando começa alguns dias antes, com redução gradual do tempo de uso e retomada dos horários regulares.

Regras claras e previsíveis reduzem conflitos. A orientação é explicar quando os aparelhos poderão ser usados e quais tarefas precisam ser cumpridas. Reconhecer quando a criança respeita os combinados costuma funcionar melhor do que concentrar a resposta apenas em punições.

A substituição também importa. Brincadeiras ao ar livre, esportes, jogos de tabuleiro, quebra-cabeças, culinária, leitura compartilhada e atividades artísticas exercitam planejamento, paciência, atenção, persistência e controle dos impulsos.

Gonçalves leva parte dessa discussão para a literatura infantil. Em “TDAH Futebol Clube”, publicado pelo selo Ciranda na Escola e ilustrado por Clara Gavilan, Rafinha é criativa, curiosa e apaixonada por futebol, mas enfrenta dificuldades para manter a atenção e organizar tarefas. A história evita reduzir a personagem ao diagnóstico e destaca o papel da rede de apoio.

“Toda criança merece um livro que a ajude a compreender o que sente. Este é um exemplo de como a literatura para as infâncias pode cumprir esse papel de forma lúdica, responsável e livre de julgamentos”, finaliza Tiago.

Quando a família organiza o uso das telas, podem surgir melhora do sono, redução da irritabilidade, menos conflitos e maior participação nas atividades escolares e sociais. A medida, porém, não substitui o acompanhamento interdisciplinar do TDAH. Funciona como apoio às intervenções psicológicas, educacionais e, quando indicado, ao tratamento medicamentoso.

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