Análise

Crise com os EUA pode fortalecer Lula e influenciar eleitores indecisos

Investigação dos Estados Unidos contra práticas brasileiras, como o Pix, gera tensão comercial e abre disputa política entre governo e oposição

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 4 de junho de 2026
Lula
População pode enxergar como contraditória a atitude de lideranças que defendem o patriotismo e, ao mesmo tempo, buscam apoio de outro país para pressionar o governo brasileiro. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Bruno Goulart

A ameaça dos Estados Unidos de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros já ultrapassou a área econômica e passou a ter reflexos também na política. A investigação aberta pelo governo do presidente Donald Trump questiona temas como o Pix, regras do comércio digital, combate ao desmatamento e fiscalização de produtos ligados ao trabalho forçado. Como consequência, autoridades americanas estudam aplicar uma tarifa extra de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

A medida ainda não entrou em vigor, mas já provocou reação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além disso, o episódio abriu uma disputa política sobre quem pode ganhar mais com o embate: o governo federal ou a oposição ligada ao senador Flávio Bolsonaro (PL).

Lula leva vantagem

Para o especialista em marketing político e mestre em Comunicação pela UFG, Felipe Fulquim, a tendência é que Lula leve vantagem no debate público, principalmente entre os eleitores que ainda não decidiram em quem votar nas eleições de 2026.

Segundo ele, os eleitores que já apoiam Lula ou Bolsonaro dificilmente mudarão de posição por causa desse episódio. No entanto, os indecisos costumam ser mais sensíveis a acontecimentos que envolvem a economia e a imagem do país. “Esses episódios têm potencial para influenciar principalmente quem ainda não escolheu um lado da polarização política”, avalia.

Um dos pontos que mais chamaram atenção na investigação americana foi a citação ao Pix. O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central é amplamente utilizado pelos brasileiros e se tornou uma das formas mais populares de transferir dinheiro.

Para Fulquim, atacar o Pix pode gerar reação negativa entre a população. “É uma ferramenta rápida, eficiente e gratuita. Está presente na rotina dos brasileiros e dificilmente deixará de existir”, afirma.

Contradição

Além da questão econômica, o especialista destaca que existe um componente político e ideológico na discussão. Isso porque parte da população pode enxergar como contraditória a atitude de lideranças que defendem o patriotismo e, ao mesmo tempo, buscam apoio de outro país para pressionar o governo brasileiro.

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Na avaliação dele, essa percepção pode fortalecer o discurso de Lula em defesa da soberania nacional. O presidente já começou a usar o tema para afirmar que o Brasil deve resolver seus problemas internamente, sem interferência estrangeira.

“O governo ganha argumentos para se apresentar como defensor dos interesses nacionais”, explica Fulquim.

Por outro lado, a oposição tenta responsabilizar o governo federal pelo desgaste na relação com os Estados Unidos. Aliados de Bolsonaro afirmam que o conflito é resultado da política externa adotada por Lula e pode prejudicar a economia brasileira.

O especialista, porém, acredita que os efeitos políticos dependerão dos impactos concretos da medida. Se as tarifas provocarem prejuízos para empresas, produtores e consumidores, o desgaste poderá atingir diferentes grupos políticos. Nesse cenário, eleitores descontentes podem até buscar alternativas fora da polarização entre Lula e Bolsonaro.

“Parte desse eleitorado pode migrar para nomes como Ronaldo Caiado ou Romeu Zema, caso eles consigam se apresentar como uma terceira via competitiva. Outra possibilidade é o aumento da abstenção ou dos votos nulos”, afirma.( Especial para O HOJE)

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