sexta-feira, 26 de junho de 2026
desigualdade

UTIs em Goiás superam recomendação da OMS, mas acesso pelo SUS é quase oito vezes menor

Estado possui estrutura de terapia intensiva acima dos parâmetros internacionais, porém a concentração de vagas na rede privada amplia desigualdade e pressiona hospitais públicos

Anna Salgadopor Anna Salgado em 5 de junho de 2026
Leito hospital
Legenda : Painel da SES-GO mostra ocupação de 91% dos leitos de UTI Adulto nos hospitais estaduais, com apenas 16 vagas disponíveis no momento da consulta | Foto: ABr

Goiás possui quantidade de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) acima do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam dificuldades para acessar esse tipo de atendimento. Levantamento recente mostra que usuários da rede pública têm quase oito vezes menos acesso a leitos de terapia intensiva do que beneficiários de planos de saúde, cenário que expõe a desigualdade na distribuição da estrutura entre os setores público e privado no estado.

A OMS recomenda entre 10 e 30 leitos de UTI para cada 100 mil habitantes. Em 2025, o Brasil alcançou a marca de 22,3 leitos por 100 mil habitantes, índice considerado adequado pelo organismo internacional e superior à média global de 8,7 leitos por 100 mil habitantes. Goiás acompanha essa tendência de ampliação da oferta de leitos, mas os números mostram que a disponibilidade não se traduz em acesso igualitário para toda a população.

A diferença fica evidente quando se observa a divisão dos leitos entre as redes pública e privada. Atualmente, a rede privada goiana conta com 922 leitos de UTI para atender menos de um milhão de beneficiários de planos de saúde. Em contrapartida, o SUS dispõe de 798 vagas para uma população superior a seis milhões de pessoas. Embora o número absoluto de leitos seja semelhante, a quantidade de pessoas atendidas por cada sistema revela uma discrepância significativa no acesso à terapia intensiva.

Na prática, a estrutura disponível para os usuários da saúde suplementar é proporcionalmente muito maior do que aquela destinada à população que depende exclusivamente da rede pública. O cenário contribui para filas de espera, dificuldades de regulação e sobrecarga dos serviços públicos, especialmente em períodos de maior demanda por internações.

Especialistas apontam que o principal desafio não está necessariamente na quantidade total de leitos existentes no Estado, mas na forma como eles estão distribuídos e gerenciados. A concentração de vagas na rede suplementar faz com que parte da capacidade instalada fique direcionada a um grupo menor da população, enquanto a maior parcela dos goianos depende de uma estrutura mais limitada.

Para Raul Canal, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), a solução para o problema não depende exclusivamente da abertura de novos leitos. Segundo ele, o fortalecimento dos mecanismos de regulação e a organização da rede assistencial são medidas fundamentais para garantir que os recursos existentes sejam utilizados de forma mais eficiente.

“O problema não está na ausência generalizada de atendimento, mas nas limitações do sistema para garantir o acesso efetivo aos leitos que já existem”, afirma Canal. Ele ressalta que a Constituição Federal assegura não apenas a existência da estrutura física, mas também o acesso efetivo aos serviços de saúde quando eles são necessários.

Leito hospital
Foto: Secom Goiás

Ocupação supera 90% na rede estadual e evidencia pressão sobre o sistema público 

O cenário observado em Goiás acompanha um desafio identificado nacionalmente pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). De acordo com a entidade, o Brasil ampliou em 67% o número de leitos de UTI para adultos na última década, passando de 28 mil para mais de 47 mil unidades. Apesar do crescimento da estrutura hospitalar, a expansão não foi acompanhada por uma distribuição homogênea dos recursos entre regiões e perfis de usuários.

Para o presidente da AMIB, Cristiano Franke, o aprimoramento da gestão dos recursos existentes pode ampliar a capacidade de atendimento do SUS sem exigir, em um primeiro momento, grandes investimentos em infraestrutura. Segundo ele, a organização do fluxo assistencial e o monitoramento permanente da ocupação dos leitos podem contribuir para reduzir gargalos e otimizar o uso da estrutura disponível.

Dados do painel da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) reforçam o cenário de pressão sobre a rede pública. No momento da consulta, os hospitais estaduais somavam 4.251 leitos entre UTIs e enfermarias, dos quais 3.566 estavam ocupados. Apenas 384 vagas encontravam-se disponíveis, enquanto 128 estavam bloqueadas e 173 reservadas. Entre os leitos de UTI Adulto, a taxa de ocupação chegava a 91%, com 486 das 533 vagas ocupadas e apenas 16 disponíveis. O mesmo percentual era registrado na UTI Neonatal, que contava com 67 leitos, dos quais 61 estavam ocupados e apenas três disponíveis. Já a UTI Pediátrica apresentava taxa de ocupação de 80%, com 98 dos 123 leitos ocupados. 

A demora para conseguir uma vaga em terapia intensiva pode ter consequências diretas para os pacientes. Em diversas condições clínicas, o atendimento especializado precisa ocorrer em tempo hábil para aumentar as chances de recuperação e reduzir o risco de sequelas. Quanto maior o período de espera por um leito adequado, maiores podem ser os impactos sobre a evolução do quadro de saúde.

Além dos efeitos sobre os pacientes, a dificuldade de acesso às UTIs provoca reflexos em toda a rede assistencial. Pessoas que aguardam transferência acabam permanecendo por mais tempo em unidades de pronto atendimento, enfermarias e salas de observação, ocupando espaços que deveriam ser destinados a casos de menor complexidade. Esse processo contribui para a superlotação dos serviços de urgência e emergência e dificulta o fluxo de novos atendimentos.

Outro reflexo observado é o aumento da judicialização da saúde. Diante da demora para obtenção de vagas ou da indisponibilidade imediata de leitos, familiares recorrem ao Poder Judiciário para garantir internações. Embora a medida busque assegurar o direito individual ao tratamento, ela também gera impactos sobre o planejamento financeiro e operacional dos gestores públicos.

Especialistas apontam ainda que fragilidades na atenção primária influenciam diretamente a demanda por leitos de alta complexidade. Quando doenças crônicas e outros problemas de saúde não são diagnosticados ou acompanhados adequadamente nas unidades básicas, aumentam as chances de agravamento dos quadros clínicos e, consequentemente, a necessidade de internação em UTI.

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