segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Tensão interna

Bloqueios recuam na Bolívia após acordo sindical e estado de exceção

Após 50 dias de protestos contra o governo Rodrigo Paz, número de interdições em rodovias caiu, mas parte dos movimentos sociais ainda defende a continuidade das mobilizações

João César Almeidapor em
Bolívia
Foto: Reprodução/Instagram/@rodrigopazpereira)

O número de bloqueios em rodovias da Bolívia começou a cair após o acordo firmado entre o governo de Rodrigo Paz e a Central Operária da Bolívia (COB), na sexta-feira (19), e a decretação do estado de exceção, no sábado (20). A medida foi confirmada pelo Parlamento na madrugada deste domingo (21) e autoriza o governo a decretar toque de recolher em determinadas regiões do país e acionar as Forças Armadas para reprimir manifestações.

A Bolívia enfrenta 50 dias de bloqueios e protestos contra políticas do governo classificadas por manifestantes como “neoliberais”. Nas últimas semanas, o país chegou a registrar mais de 80 pontos de interdição em determinados dias. Na manhã deste domingo, ainda havia 31 bloqueios em rodovias de La Paz, Cochabamba, Oruro e Santa Cruz, segundo a Administradora de Estradas Bolivianas (ABC). Ao longo do dia, o número caiu para 12, conforme o painel de monitoramento em tempo real do órgão.

Acordo com central sindical reduz pressão nas ruas

Os protestos se intensificaram desde janeiro e chegaram ao auge entre maio e junho, após a promulgação de uma lei de terras criticada por camponeses. Desde então, grupos passaram a pedir a renúncia de Rodrigo Paz, que está há sete meses no poder, após quase duas décadas de governos de esquerda na Bolívia.

Um dia antes de decretar o estado de exceção, Paz firmou acordo com a COB, principal central sindical do país, que havia aderido às manifestações com reivindicações por reajustes salariais e críticas ao alto custo de vida. O presidente da entidade, Mario Argollo, afirmou que o acordo prevê um prazo de 90 dias para testar os compromissos assumidos pelo governo e pediu o fim dos bloqueios aos demais grupos para pacificar o país.

Entre os pontos acordados estão a não criminalização dos protestos, o compromisso de não perseguir lideranças sociais e sindicais e a criação de uma comissão com representantes do governo e da COB para discutir a liberação de lideranças presas durante as manifestações. O governo também se comprometeu a não privatizar empresas públicas estratégicas nem entregar recursos nacionais a interesses privados nacionais ou estrangeiros.

Em uma rede social, Rodrigo Paz comemorou o acordo com a central sindical. “Vamos fortalecer a mineração estatal e a criação de empregos, sem privatizações e com coordenação permanente com a COMIBOL (Corporação Mineira de Bolívia)”, afirmou.

Estado de exceção amplia poderes do governo

No dia seguinte ao acordo, o governo decretou estado de exceção, medida que vinha sendo preparada havia semanas e envolveu a revogação da legislação anterior sobre o tema e a aprovação de um novo texto pelo Parlamento.

Ao anunciar a decisão, Paz voltou a criminalizar os protestos e afirmou, sem apresentar provas, que os bloqueios são financiados pelo narcotráfico. O mesmo argumento tem sido usado pelos Estados Unidos para defender o governo de La Paz.

“O que a Bolívia enfrenta hoje é uma estratégia organizada de desestabilização contra a democracia e um governo constituído, e devemos chamá-la pelo seu nome: uma tentativa de golpe de Estado por parte do narcoterrorismo”, disse o presidente boliviano.

O governo também atribui ao ex-presidente Evo Morales responsabilidade pelos bloqueios. Morales nega controlar as mobilizações e afirma que os protestos reúnem professores, mineiros, camponeses, indígenas e outros grupos sociais.

Apesar da redução dos bloqueios, parte das organizações mantém a defesa da continuidade das manifestações até a renúncia de Rodrigo Paz. A Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas “Bartolina Sisa” está entre os grupos que rejeitam o encerramento dos protestos.

Na quinta-feira, um ato de camponeses na província de Ingavi, no departamento de La Paz, defendeu a manutenção dos bloqueios. A dirigente Virgínia Antiñapa denunciou mortes de manifestantes e perseguição de lideranças nas últimas semanas, além de rejeitar as acusações feitas pelo governo.

“Esta luta é uma luta pelas nossas reivindicações de anos atrás. O governo está politizando isso; dizendo que apoiamos o MAS, mas esta luta não deve ser politizada. Nossa luta é justa. Não temos nada a ver com o senhor Morales”, afirmou Virgínia, em coletiva de imprensa.

Com informaçãos da Agência Brasil.

Leia mais:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Bolívia Mundo

Veja também

trump

produção de armas

Trump diz que EUA produzem armas em ritmo recorde para reforçar presença no Oriente Médio

Presidente americano afirmou que fábricas trabalham ininterruptamente e citou sistemas Patriot, THA...
Ilhas Malvinas

INGLATERRA X ARGENTINA

Rede britânica abre loja nas Malvinas em meio à nova pressão da Argentina

Iceland será a primeira grande marca britânica de varejo a se instalar no arquipélago, onde dispu...
reino unido

Pressão sobre Londres

Escócia, Gales e Irlanda do Norte pressionam por referendos para deixar o Reino Unido

Líderes nacionalistas dos três territórios se reúnem em Cardiff para defender o direito de decid...
el niño

ALERTA CLIMÁTICO

El Niño tem 90% de chance de ser o mais forte desde 1950

Projeção do NOAA aponta alta probabilidade de intensidade extrema no fenômeno durante a primavera...
Aprovação de Trump cai para 33% e maioria dos eleitores diz estar pior financeiramente

Economia

Aprovação de Trump cai para 33% e maioria dos eleitores diz estar pior financeiramente

Trump tem menor aprovação desde início do segundo mandato, com economia no centro das críticas
11 de setembro

MEMÓRIA

25 anos do 11 de Setembro: o dia que mudou o mundo

Uma manhã de céu aberto nos Estados Unidos se transformou em uma sequência de ataques que atingiu...
“Estão apostando com nossas vidas”, diz ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic

REVOLUÇÃO DAS MÁQUINAS?

“Estão apostando com nossas vidas”, diz ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic

Jacob Coxon deixou a indústria de inteligência artificial e acusou as duas empresas de avançarem ...
rússia

Zelensky

Avião de Zelensky quase é atingido por drone durante voo, diz premiê da Noruega

Presidente ucraniano viajava da Moldávia para Oslo, onde participou do funeral do rei Harald