CNI leva propostas a pré-candidatos em encontro no DF para destravar crescimento econômico
Documento será apresentado em Brasília e reúne medidas para ajuste fiscal, redução de juros e ampliação do crédito ao setor produtivo brasileiro
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reúne nesta segunda-feira (22), em Brasília, os principais pré-candidatos à Presidência da República para um confronto direto com o diagnóstico que mais incomoda o empresariado brasileiro: ao longo das últimas décadas, o Brasil tem apresentado um fraco dinamismo econômico, crescendo em média apenas 2,3% ao ano entre 2000 e 2024. O resultado é uma perda de posição histórica. Em 2000, a renda por habitante brasileira era duas vezes maior do que a observada, em média, nos países de renda média-alta do Banco Mundial. Em 2024, essa vantagem deu lugar a uma forte defasagem, com a renda per capita nacional 10% abaixo da média desse grupo.
Para reverter esse quadro, a CNI entregará ao grupo de presidenciáveis o documento Construindo o Brasil 2050. O material reúne uma série de propostas e recomendações para orientar políticas públicas voltadas ao fortalecimento da economia nacional nas próximas décadas. No total, são 50 propostas organizadas em cinco eixos, com foco na transformação da base econômica brasileira até meados do século.
Fiscal fora de controle, juros nas alturas
O coração do diagnóstico da CNI é fiscal. A entidade aponta que a dívida pública brasileira saltou de 71,7% do PIB em 2022 para 78,6% do PIB em 2025, e que o atual arcabouço fiscal não dá conta de conter a expansão das despesas obrigatórias. O caminho proposto passa por revisão de programas sociais, fim dos mecanismos de crescimento automático dos gastos e um plano plurianual de consolidação das contas públicas.
Entre as medidas mais polêmicas está o redesenho do Benefício de Prestação Continuada (BPC), com a separação do seu valor em relação ao piso previdenciário, além da revisão ou extinção do abono salarial e a quebra do vínculo entre benefícios previdenciários e a política de valorização do salário-mínimo.
O impacto potencial não é pequeno. Estimativas da CNI indicam que a adoção das medidas estruturais de redução de despesas pode gerar economia adicional de R$ 38,3 bilhões já em 2026, chegando a R$ 47,1 bilhões em 2027 — ajuste considerado essencial para abrir espaço no orçamento federal e viabilizar a redução sustentável dos juros reais.
O peso dos juros altos sobre a economia real já é perceptível. O Brasil fechou 2025 com a segunda maior taxa de juros real do mundo, com a Selic mantida em 15% ao ano pelo Banco Central — o que constitui um freio poderoso à expansão do PIB. Para a indústria, o impacto é ainda mais direto: a desaceleração é mais sentida pelos segmentos de transformação e de construção, que são mais sensíveis aos juros elevados.
Crédito caro demais, acesso de menos
O segundo grande eixo do documento mira o sistema financeiro. O diagnóstico é duro: em 2024, a oferta de crédito ao setor privado brasileiro correspondeu a 75,6% do PIB, enquanto a média dos países da OCDE alcançou 150,5% — ou seja, o dobro. Além disso, o spread bancário brasileiro chegou a 32,5 pontos percentuais, muito acima do observado em economias emergentes comparáveis.
“Muitas micro, pequenas e médias empresas têm recebíveis e ativos circulantes, mas essas garantias dificilmente são aceitas pelo mercado, o que limita o acesso ao crédito e a capacidade de investir, competir e crescer”, afirmou o superintendente de Economia da CNI, Marcio Guerra.
Para ampliar o acesso ao financiamento, a entidade propõe o uso de recebíveis de PIX como garantia em operações financeiras, a implementação da duplicata escritural e a extinção do IOF sobre crédito — tributo que, além de encarecer os empréstimos, gera insegurança jurídica por permitir alterações de alíquota por decreto. A CNI também defende a redução do depósito compulsório e medidas para estimular a concorrência entre os bancos, como a padronização de documentos e maior transparência nas tarifas.
Desindustrialização: o fantasma de fundo
Por trás das propostas imediatas, há uma preocupação de prazo mais longo que a CNI carrega há anos. A participação da indústria de transformação no PIB nacional, que já foi de 35,9% em 1985, chegou a apenas 13,7% em 2025. Trata-se de uma desindustrialização precoce — o país perdeu densidade industrial antes de completar seu desenvolvimento.
Especialistas alertam que a desindustrialização não exige que a indústria encolha em termos absolutos: basta que ela cresça menos do que o resto da economia. E é exatamente isso que vem acontecendo. O volume importado de bens de consumo cresceu 15,3% de janeiro a novembro de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, com as importações ocupando o espaço do pouco que cresce a demanda interna por bens industriais.
O recado aos presidenciáveis
Já confirmaram presença no evento desta segunda-feira o senador Flávio Bolsonaro (PL), o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). O encontro é realizado a cada ciclo eleitoral e se consolidou como um dos principais fóruns de diálogo entre a indústria e os postulantes ao Palácio do Planalto.
O recado da entidade ao próximo governo é claro: sem ajuste fiscal que derrube os juros e sem crédito acessível ao setor produtivo, qualquer agenda de desenvolvimento será letra morta. Como disse o diretor Adjunto de Desenvolvimento Industrial da CNI, Mario Sergio Telles: “Com esse cenário, não tem política de desenvolvimento produtivo ou de redução do Custo Brasil que faça com que o Brasil cresça.”