Recuperação judicial avança em Goiás e pressiona setor produtivo
Centenas de empresas e produtores rurais recorreram ao mecanismo no primeiro semestre diante da alta dos juros, da restrição ao crédito e das dificuldades financeiras
O Estado de Goiás enfrenta um período de agravamento das dificuldades financeiras no setor produtivo. Nos primeiros seis meses de 2026, os pedidos de recuperação judicial cresceram de forma expressiva, refletindo um cenário econômico marcado por juros elevados, restrição ao crédito e dificuldades operacionais. Dados da Junta Comercial do Estado de Goiás (Juceg) mostram que, até o início de julho, centenas de empresas e produtores rurais já haviam ingressado com pedidos de recuperação judicial, abrangendo desde grandes grupos empresariais até pequenos produtores.
Agro e construção concentram pedidos
O agronegócio concentra parte significativa dos processos registrados no Estado. Entre os casos estão Fazenda Linda Flora Agronegócio, Agropecuária Vale do Rio e diversos produtores rurais de municípios como Jataí, Rio Verde e Luziânia. Segundo o economista Luiz Carlos Ongaratto, o setor enfrenta uma combinação de aumento das despesas financeiras, queda no preço das commodities e elevação dos custos de produção.
A construção civil e o mercado imobiliário também registram um número elevado de pedidos. Um dos casos de maior repercussão envolve o grupo TCI, que protocolou dezenas de recuperações judiciais para diferentes Sociedades de Propósito Específico (SPEs), entre elas TCI Projeto Imobiliário Premier Flamboyant e TCI-Tocantins Construtora. Outras empresas do segmento, como Rodrigues da Cunha e Proenge Saneamento, também recorreram ao mecanismo no primeiro semestre de 2026.
Os pedidos de recuperação judicial ainda alcançam empresas dos setores de transporte e logística, como Permaque Logística e RM Transportes; da indústria, representada pela Ágape Confecções; e dos serviços de saúde, caso do Hospital Nasr Faiad.
Interior registra alta nos processos
A distribuição geográfica dos processos demonstra que a situação vai além da Capital. Embora Goiânia concentre o maior número de registros devido ao volume de empresas instaladas, municípios do interior também apresentam quantidade significativa de pedidos.
Em Rio Verde e Jataí, predominam processos envolvendo produtores rurais, empresas de apoio ao agronegócio, como a 2F Armazéns Gerais, e holdings familiares. Anápolis, importante polo industrial e logístico, reúne casos em segmentos como comércio de alimentos, construção civil e transporte, incluindo a WN Sena. Em Luziânia, figuram pedidos de produtores rurais da família Rapachi e do grupo Permaque, com atuação nos setores de transporte e indústria de rações. Caldas Novas e Catalão também aparecem no levantamento, com empresas das áreas hospitalar, saneamento e construção.
Juros elevados pressionam empresas
De acordo com especialistas, a taxa Selic, atualmente em 14,25% ao ano, é um dos principais fatores que pressionam as empresas. O patamar elevado dos juros aumenta o custo do crédito, dificulta a rolagem das dívidas e restringe o acesso a novos financiamentos. Muitas empresas que contrataram empréstimos durante a pandemia, quando as taxas de juros estavam em níveis historicamente baixos, enfrentam dificuldades para manter o pagamento das parcelas diante da redução da capacidade financeira.
Ongaratto afirma que o crescimento da dívida pública federal, próxima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB), também exerce pressão sobre as taxas de juros, com reflexos sobre a atividade empresarial. “O saldo final é bastante negativo para empresas que precisam de bastante capital”, afirma o economista, ao defender uma política fiscal rigorosa para reduzir as pressões sobre a economia.
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Recuperação para preservar empresas
Para o advogado Hanna Mtanios, especialista em Direito Civil, a recuperação judicial ainda enfrenta resistência por parte de muitos empresários, embora o instrumento tenha como finalidade preservar a atividade econômica. Segundo a avaliação, o momento adequado para recorrer ao processo ocorre quando a análise financeira demonstra que a empresa não conseguirá cumprir suas obrigações ou quando a margem de lucro passa a ser insuficiente para manter as operações.
Entre os sinais que podem indicar a necessidade da recuperação judicial estão a dificuldade recorrente para pagar fornecedores e tributos, a queda acentuada do fluxo de caixa, a redução da aceitação dos produtos no mercado e a necessidade de renegociar dívidas de forma conjunta para evitar ações de execução. O objetivo do processo é viabilizar o soerguimento da empresa, preservando empregos, mantendo investimentos e evitando a decretação de falência.
O aumento dos pedidos também produz reflexos em toda a cadeia econômica. Para os fornecedores, a recuperação judicial pode significar o congelamento de créditos e a necessidade de renegociação de prazos e valores, com impactos sobre a liquidez das empresas. Para os trabalhadores, embora o mecanismo busque preservar os postos de trabalho, o período de reestruturação pode gerar incertezas quanto à estabilidade financeira.
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