Casos de ludopatia dobram em Goiânia com avanço das apostas em bets
Número de atendimentos por vício em jogos mais que dobrou em 2026, enquanto a Capital ocupa a 8ª posição nacional em processos que envolvem plataformas de apostas
O avanço das apostas esportivas on-line tem provocado reflexos na saúde pública e no Judiciário em Goiânia. Em 2026, a Capital registrou 120 atendimentos por ludopatia (vício em jogos) na rede pública, mais que o dobro dos 50 casos contabilizados durante todo o ano de 2025. Paralelamente, Goiânia ocupa a oitava posição no ranking nacional de judicialização envolvendo casas de apostas, com 111 processos ativos, motivados principalmente por bloqueios de contas e retenção de prêmios.
O crescimento dos casos acompanha a expansão das plataformas digitais de apostas, disponíveis 24 horas por dia por meio de celulares e computadores. Para especialistas, a facilidade de acesso e os mecanismos utilizados pelos aplicativos favorecem o desenvolvimento da dependência.
Dependência vai além do comportamento
A neurocientista Aida Leal afirma que a ludopatia não está relacionada à falta de caráter, mas ao funcionamento do cérebro. Segundo a especialista, as plataformas funcionam como “laboratórios de manipulação da atenção humana”. “O que acontece com as bets é que você acha que está apostando dinheiro, mas, na verdade, está buscando uma recompensa”, explica. De acordo com a neurocientista, a liberação de dopamina atinge o pico durante a expectativa do resultado, e não necessariamente na vitória. Esse processo, conhecido como reforço intermitente, faz com que o cérebro continue buscando novas apostas, já que recompensas imprevisíveis estimulam com maior intensidade os circuitos neurais.
A médica Mariana Sachett destaca que o transtorno apresenta características semelhantes às de outras dependências. “Ninguém usa cocaína esperando que isso vá pagar o aluguel, mas todo mundo que abre o aplicativo de aposta espera exatamente isso”, afirma. Conforme a médica, a expectativa de obter ganhos capazes de transformar a situação financeira altera a percepção do comportamento, levando muitos apostadores a acreditar que estão realizando um investimento. O quadro é classificado clinicamente como transtorno do jogo, condição que demanda acompanhamento especializado.
Os efeitos da dependência também aparecem na rotina dos apostadores. Um r to anônimo descreve a progressão do hábito até o comprometimento da vida financeira.
“Eu comecei apostando de vez em quando, só por diversão. Quando comecei a ganhar algumas vezes, achei que dava para fazer um dinheiro extra. Hoje eu aposto todos os dias. Na hora do almoço, no trabalho, sempre pego o celular. Quando chego em casa, entro de novo. Já atrapalhou minha vida financeira. Já deixei de guardar dinheiro e deixei de sair de casa para comemorar algo porque gastei mais do que devia. Minha família já falou para eu parar, mas ainda sinto que estou no controle e tenho esperança de recuperar o que perdi.”
Segundo especialistas, a percepção de que é possível recuperar as perdas ou controlar os resultados representa um dos principais sintomas do transtorno. A crença em estratégias capazes de superar um sistema baseado em probabilidades reforça o ciclo de apostas.
Impactos atingem economia e programas sociais
Além dos impactos sobre a saúde mental, o crescimento das apostas tem provocado efeitos econômicos. No Brasil, as plataformas de apostas retiraram R$ 143 bilhões do varejo em dois anos, valor equivalente a cerca de 2,5% do faturamento do setor. Em Goiânia, economistas alertam que recursos antes destinados ao comércio, ao lazer e aos serviços locais passaram a ser direcionados às plataformas digitais, muitas delas sediadas no exterior.
O perfil dos apostadores também preocupa especialistas. Dados apontam que 63% dos usuários de plataformas de apostas possuem renda familiar de até dois salários mínimos. Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para casas de apostas por meio do PIX. Após o levantamento, o governo federal bloqueou o acesso de 2,8 milhões de beneficiários de programas sociais às plataformas regulamentadas.
Ferramentas ajudam a interromper o vício
Como medida de enfrentamento, o Governo Federal disponibilizou uma Plataforma Centralizada de Autoexclusão, acessível pelo portal gov.br. O sistema permite solicitar o bloqueio do CPF em todas as casas de apostas regulamentadas por meio de um único pedido. Para utilizar a ferramenta, é necessário possuir conta gov.br de nível prata ou ouro. O usuário pode optar pelo bloqueio de um a 12 meses ou por prazo indeterminado, cuja reversão somente pode ser solicitada após 12 meses. Após o pedido, as operadoras têm até 72 horas para impedir novos depósitos e suspender o envio de publicidade personalizada.
Especialistas também recomendam medidas complementares, como restringir o tempo de uso dos aplicativos de apostas nas configurações de bem-estar digital dos celulares e reduzir os limites de transferências via PIX nos aplicativos bancários, com o objetivo de dificultar o acesso imediato às plataformas.
Tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS
Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno mental na CID-11, a ludopatia possui tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em Goiânia, o atendimento é realizado por demanda espontânea nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), localizados nos setores Vila Mutirão I, Negrão de Lima e Setor Central.
O acompanhamento inclui avaliação multiprofissional, grupos terapêuticos e atendimento médico, quando necessário. Além da rede pública, grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos, oferecem reuniões presenciais e on-line voltadas ao suporte emocional e à prevenção de recaídas.
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