Moacir Santos completaria 100 anos; conheça o maestro pernambucano
Compositor de “Nanã” e do álbum “Coisas” construiu linguagem própria entre ritmos afro-brasileiros, jazz e escrita orquestral; reconhecimento no Brasil chegou tarde
Moacir Santos completaria 100 anos no último domingo (26). Compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista, o pernambucano construiu uma obra em que ritmos afro-brasileiros, jazz e escrita orquestral deixaram de ocupar territórios separados. Criou formas próprias de organizar essas referências, entre cálculo, memória e percepção.
Essa linguagem aparece de maneira concentrada em “Coisas”, de 1965. O disco reúne dez composições numeradas e se tornou a principal síntese de sua pesquisa musical. Sopros, linhas de baixo, bateria, piano e violão assumem funções precisas, muitas vezes em diálogo entre si. A estrutura rigorosa não elimina o balanço.
Parte dessa construção vinha da infância. Nascido no Sertão pernambucano, na região de Serra Talhada, aprendeu música nas bandas do interior e, adolescente, percorreu o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Em João Pessoa, foi regente da banda da Rádio Tabajara antes de seguir para o Rio.
Na Rádio Nacional, para onde entrou como saxofonista em 1948, aprofundou os estudos de teoria musical e, três anos depois, atuava como arranjador da orquestra. Foi aluno de César Guerra-Peixe e se tornou professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira e Roberto Menescal.
O estudo formal não afastou Moacir das referências que carregava desde o sertão. Ele sistematizou células rítmicas afro-brasileiras e desenvolveu os chamados “Ritmos MS”, uma organização própria de padrões de polirritmia. Era uma maneira de transformar em escrita aquilo que também vinha da escuta, da oralidade e das bandas de música.
“Nanã”, sua composição mais conhecida, ajuda a mostrar essa ligação. A melodia nasceu da lembrança de uma reza ouvida em procissão e foi usada na abertura do filme “Ganga Zumba”. Depois ganhou letra de Mário Telles e gravações de Nara Leão, Sergio Mendes e Tim Maia, além de músicos do jazz, como Kenny Burrell e Gil Evans.
Em 1967, Moacir deixou o Brasil e se mudou para os Estados Unidos. Trabalhou com trilhas de cinema, integrou equipes ligadas a Henry Mancini e Lalo Schifrin e, na década de 1970, lançou três álbuns pela Blue Note. “Maestro”, de 1972, foi indicado ao Grammy. Nesse período, desenvolveu o “mojo”, ritmo criado a partir do contato entre sua formação brasileira e o ambiente musical norte-americano.
Seu reconhecimento no Brasil, porém, avançou de maneira irregular. Um dos marcos dessa redescoberta foi “Ouro Negro”, projeto lançado em 2001 por Mario Adnet e Zé Nogueira para revisitar sua obra. O álbum reuniu o próprio Moacir e nomes como Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, João Bosco e Ed Motta, aproximando suas composições de uma nova geração de ouvintes. Moacir morreu em Los Angeles, em 2006, aos 80 anos.
O centenário recoloca em evidência o que torna Moacir Santos difícil de enquadrar. Ao unir bandas, tradição afro-brasileira e estudo formal, o maestro construiu uma escrita própria, reconhecível desde os primeiros compassos e ainda presente entre músicos de diferentes gerações.
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