SUS incorpora cirurgia que trata catarata e glaucoma ao mesmo tempo; entenda quem pode se beneficiar
Técnica permite retirar o cristalino e atuar na drenagem ocular em um único procedimento; oferta deve estar disponível na rede pública em até 180 dias
Para parte dos pacientes que convivem com catarata e glaucoma, duas frentes de tratamento poderão caber na mesma cirurgia. O Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou técnicas que permitem retirar o cristalino comprometido pela catarata e, durante o mesmo procedimento, atuar sobre a drenagem do olho para controlar o glaucoma. A oferta deverá estar disponível na rede pública em até 180 dias.
A mudança é destinada a um grupo específico: pessoas com catarata e glaucoma primário de ângulo aberto em estágio inicial ou moderado, com a doença controlada por colírios. A incorporação foi oficializada pelo Ministério da Saúde em portaria publicada no Diário Oficial da União em 17 de setembro, após avaliação favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Na prática, o paciente será submetido à cirurgia convencional de catarata e, na mesma intervenção, poderá receber um procedimento para melhorar o escoamento do líquido dentro do olho. A combinação procura evitar que duas condições frequentes da visão precisem ser abordadas em momentos diferentes.
A catarata aparece quando o cristalino, lente natural do olho, perde transparência. Com a progressão, a visão pode ficar embaçada e atividades cotidianas passam a exigir mais esforço. Na cirurgia, essa estrutura é fragmentada e retirada por uma pequena abertura, sendo substituída por uma lente artificial.
O glaucoma segue outro caminho. A doença provoca danos progressivos ao nervo óptico, responsável por transmitir ao cérebro as informações captadas pela retina, e pode avançar sem sintomas perceptíveis nas fases iniciais. Um dos fatores envolvidos é a dificuldade de drenagem do líquido ocular, que pode elevar a pressão dentro do olho e, sem controle, provocar perda irreversível da visão.
É justamente nesse sistema de drenagem que atuam as técnicas recém-incorporadas. Uma delas é a goniotomia excisional, na qual parte do tecido que dificulta a saída do líquido é retirada por meio de uma pequena incisão. A outra é a trabeculotomia transluminal, que utiliza um microcateter ou fio cirúrgico para percorrer e ampliar o canal natural por onde ocorre o escoamento.
Não existe, porém, uma técnica indicada indistintamente para todos. A escolha depende de fatores como anatomia ocular, características do glaucoma e nível de pressão que se pretende alcançar. A avaliação do oftalmologista continuará determinante para definir quem poderá se beneficiar da cirurgia combinada.
O glaucoma primário de ângulo aberto, contemplado pela nova medida, é o tipo mais frequente da doença no Brasil. Dados considerados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) apontam que ele corresponde a cerca de 60% dos diagnósticos no país. A condição pode atingir até 3% dos brasileiros com mais de 40 anos.
Hoje, o controle costuma começar com colírios que reduzem a pressão intraocular. Quando a resposta não é suficiente, há outras possibilidades, como procedimentos a laser e cirurgias. Entre as alternativas já disponíveis no SUS está o implante de drenagem conhecido como iStent.
A cirurgia conjunta não elimina essas opções. Ela amplia o tratamento para pacientes que, além do glaucoma em estágio inicial ou moderado, já têm indicação para operar a catarata. A expectativa do Ministério da Saúde é que a abordagem permita recuperação mais rápida e menor risco de complicações em comparação com intervenções mais invasivas.
Outra possibilidade é diminuir a dependência de colírios depois da cirurgia. Isso não significa, contudo, que todos os pacientes deixarão de usar medicamentos. O glaucoma é uma doença crônica e o acompanhamento oftalmológico permanece necessário mesmo após o procedimento.
O impacto sobre os gastos públicos também entrou na decisão. Na avaliação econômica apresentada à Conitec, a goniotomia excisional mostrou vantagem em relação ao iStent, com estimativa de redução de aproximadamente R$ 22,4 milhões nos custos no primeiro ano de adoção.
Mais do que substituir tratamentos já existentes, a incorporação acrescenta uma alternativa para situações em que catarata e glaucoma aparecem no mesmo paciente. Ao reunir as duas intervenções, o SUS passa a oferecer a possibilidade de aproveitar uma cirurgia já necessária para também melhorar o controle de uma doença capaz de comprometer a visão de forma permanente.
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