Angela Davis homenageia legado de Marielle
Filósofa assina Agenda Marielle Franco 2026 no dia em que a vereadora completaria 47 anos, após homenageá-la durante passagem por Paraty
A assinatura de Angela Davis na Agenda Marielle Franco 2026, na última segunda-feira (27), no Rio de Janeiro, reuniu duas referências de gerações distintas da luta antirracista. Aos 82 anos, a filósofa e ativista estadunidense aderiu ao documento no dia em que Marielle completaria 47 anos, dez anos depois da eleição que levou a socióloga da Maré à Câmara Municipal do Rio.
Criada em 2020, a Agenda chega à quarta edição voltada às eleições deste ano. O documento reúne propostas sobre segurança pública, justiça racial, saúde, educação e participação política. A elaboração ocorreu entre abril e julho, após consultas com cerca de 150 movimentos, organizações e ativistas. Nas três eleições anteriores, segundo o Instituto Marielle Franco, 1.231 candidaturas aderiram ao texto e 92 parlamentares foram eleitos.
Entre as propostas desta edição estão medidas de enfrentamento à violência política de gênero e raça, ações contra o controle territorial de milícias e do crime organizado e ampliação de serviços públicos de saúde. Pela primeira vez, o esporte aparece como eixo específico, tratado como direito social e vinculado a políticas para periferias, favelas, comunidades quilombolas, indígenas e áreas rurais.
Da Maré à Câmara
Marielle Franco construiu sua trajetória política a partir da defesa dos direitos humanos, das mulheres negras e das favelas. Nascida e criada no Complexo da Maré, formou-se em Ciências Sociais pela PUC-Rio e fez mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense. Antes de chegar à Câmara Municipal, atuou em organizações da sociedade civil e coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Eleita vereadora em 2016 com 46.502 votos, Marielle presidiu a Comissão da Mulher da Câmara. Sua atuação reuniu pautas ligadas a gênero, raça, violência e direitos das populações periféricas. Em 14 de março de 2018, foi assassinada em um atentado ao carro em que estava. O motorista Anderson Pedro Gomes também morreu.
Homenagem em Paraty
A assinatura de Davis ocorreu dois dias depois de uma homenagem pública a Marielle. No sábado (25), em Paraty, a ativista participou da mesa “América e África: uma conversa Atlântica”, no Sesc Caborê, durante a Flip. Embora estivesse fora da programação oficial, o encontro teve os ingressos esgotados em minutos e foi transferido para uma tenda com capacidade para 700 pessoas.
Diante da plateia, Davis citou Anielle Franco. “Sei que Anielle Franco está concorrendo ao Congresso e sei que ela está empenhada em continuar o legado de sua irmã, Marielle Franco”. Em outro momento, ao falar sobre feminicídio e violência contra as mulheres, pediu que o público repetisse, em português: “Obrigada, Marielle Franco”.
A passagem por Paraty também incluiu uma reflexão sobre o avanço do autoritarismo em diferentes países. “O que quero dizer aqui é que somos muito mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. O fascismo está em ascensão nos Estados Unidos, na Europa e aqui na América Latina. Mas não entre o povo.”
No Rio, a assinatura reuniu ainda a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), a vereadora Mônica Benício (PSOL-RJ), os pais de Marielle, Marinete da Silva e Antônio Francisco da Silva Neto, além de integrantes do Instituto.
A adesão de Davis dá projeção internacional à Agenda 2026 e reforça a permanência de Marielle como referência da luta antirracista e da participação de mulheres negras na política brasileira.
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