AVC em jovens: hábitos comuns e condições silenciosas aumentam o risco
Cerca de 18% dos casos no Brasil atingem pessoas entre 18 e 45 anos; reconhecimento dos sinais e atendimento rápido podem reduzir sequelas
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) costuma ser associado ao envelhecimento, mas também pode atingir adultos jovens. Cerca de 18% dos casos registrados no Brasil ocorrem entre pessoas de 18 a 45 anos, segundo dados da Rede Brasil AVC.
Nessa faixa etária, um dos principais riscos é a demora para reconhecer os sintomas. Como muitas pessoas não imaginam que possam sofrer um AVC, sinais como dificuldade para falar, tontura, formigamento e dor de cabeça intensa podem ser confundidos com enxaqueca, labirintite ou ansiedade.
A morte do arquiteto Talles Sousa, aos 39 anos, após sofrer um AVC e um infarto em Goiás, reacendeu o alerta sobre a ocorrência da doença em pessoas jovens. Ele morreu na terça-feira (29), depois de permanecer internado desde domingo (27).
Segundo o neurocirurgião Dr. Marcos Spadoni, do Hospital Mater Dei Goiânia, a idade aumenta o risco, mas não impede que a doença apareça mais cedo. “O AVC não é doença só de idoso, pode acontecer em qualquer idade. A idade pesa, mas jovens também têm AVC, e muitos demoram a buscar ajuda porque ninguém imagina que seja isso”, explica.
Fatores de risco começam mais cedo
Hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, alterações no colesterol, estresse e sono inadequado estão entre os fatores que podem elevar o risco de AVC. Essas condições, antes mais associadas às pessoas mais velhas, têm sido identificadas cada vez mais cedo. Muitas podem evoluir silenciosamente, sem provocar sintomas perceptíveis antes de uma complicação. “Há um aumento de fatores de risco na população jovem, como obesidade, hipertensão, diabetes, sedentarismo, tabagismo, estresse e sono ruim. Também existem causas próprias do jovem, que são mais específicas”, destaca o neurocirurgião.
Em pacientes mais novos, a investigação médica também considera alterações cardíacas, problemas nos vasos sanguíneos e distúrbios de coagulação.
Entre as causas específicas estão a dissecção de artérias do pescoço, o uso de drogas estimulantes e o forame oval patente, uma abertura entre as câmaras superiores do coração que pode permanecer depois do nascimento.
A enxaqueca com aura, quando associada ao tabagismo e ao uso de anticoncepcionais hormonais, também pode aumentar o risco. A presença de um desses fatores, entretanto, não significa que a pessoa necessariamente sofrerá um AVC. A avaliação deve ser individualizada por um profissional.
Conheça os sinais de alerta
Os sintomas do AVC aparecem geralmente de forma súbita. Entre os principais sinais estão:
- desvio da boca;
- fraqueza ou formigamento em um lado do corpo;
- dificuldade para falar ou compreender;
- perda repentina da visão;
- tontura intensa acompanhada de perda de equilíbrio;
- dor de cabeça súbita e muito forte.
“Diante de qualquer um desses sinais, busque a emergência imediatamente. Não espere melhorar”, orienta Dr. Marcos. A recomendação é procurar atendimento mesmo quando os sintomas desaparecem em poucos minutos. A melhora momentânea não descarta o risco e também precisa ser investigada.
Cada minuto pode mudar o resultado
O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido ou quando há o rompimento de um vaso. Nos dois casos, o atendimento rápido é determinante para reduzir os danos. “Em um AVC isquêmico, estima-se que cerca de 2 milhões de neurônios morrem a cada minuto sem tratamento. Quanto mais cedo a artéria é reaberta, maior a chance de recuperação”, afirma o especialista.
No AVC isquêmico, causado pela obstrução de uma artéria, a trombólise pode ser indicada em uma janela de até 4,5 horas após o início dos sintomas. O procedimento utiliza medicamentos para dissolver o coágulo e restabelecer a circulação sanguínea.
Em pacientes selecionados, a trombectomia mecânica pode ser realizada por até 24 horas. Nesse tratamento, um cateter é usado para retirar o coágulo que impede a passagem do sangue. “A demora aumenta o risco de sequelas permanentes, como paralisia, perda da fala, dependência e até morte”, alerta Dr. Marcos.
A indicação de cada procedimento depende do tipo de AVC, do horário em que os sintomas começaram, dos exames de imagem e das condições clínicas do paciente.
Investigação é mais ampla nos jovens
O tratamento inicial segue os mesmos princípios independentemente da idade. A principal diferença aparece na investigação da causa. “No jovem é preciso buscar a causa com mais profundidade, investigando vasos, coração e coagulação. Outro ponto é o diagnóstico tardio, porque os sintomas costumam ser confundidos com enxaqueca, labirintite ou ansiedade”, explica.
Segundo o médico, pessoas mais jovens também podem apresentar maior capacidade de recuperação. Por isso, iniciar precocemente a reabilitação com fisioterapia, fonoaudiologia e outros acompanhamentos pode favorecer a retomada das funções afetadas. “Por outro lado, o cérebro jovem tem maior capacidade de recuperação, o que torna a reabilitação precoce ainda mais valiosa”, acrescenta.
Prevenção deve começar antes dos sintomas
A prevenção envolve conhecer e controlar fatores que podem ser modificados. Mesmo sem apresentar sintomas, adultos jovens devem acompanhar a pressão arterial, a glicemia e o colesterol. Também é recomendável manter atividade física regular, cuidar da alimentação e do peso, não fumar, evitar drogas estimulantes, moderar o consumo de álcool e priorizar a qualidade do sono.
Pessoas que apresentam fatores de risco ou histórico familiar devem manter acompanhamento médico periódico. Avaliações com neurologista e cardiologista podem ser indicadas conforme cada caso. “O AVC pode ser prevenido em muitos casos. Conhecer os próprios números, cuidar da saúde cardiovascular e manter acompanhamento são atitudes que protegem o cérebro e o coração ao longo da vida”, conclui Dr. Marcos.
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