Hyldon atravessa o tempo em “Festa na Aldeia”
Novo trabalho reúne composições de diferentes épocas, todas ainda inéditas, e chega ao streaming e ao vinil
Hyldon lança em 14 de agosto o álbum “Festa na Aldeia”, trabalho marcado pela escolha da sonoridade analógica. Segundo o cantor, a opção está diretamente ligada ao resultado que buscava para o disco: “O som do analógico tem mais expansão.” Uma pequena tiragem em vinil também está prevista para acompanhar o lançamento em streaming.
A capa do disco é obra do artista Marcio Bertoli, que produziu a peça à moda antiga, no formato físico, antes de digitalizá-la. A ilustração, em estilo naif, remete a um rito de celebração do povo Tupinambá após a captura de um inimigo: depois de um período de convivência da tribo com o prisioneiro, ele era devorado em ritual antropofágico durante uma grande festa, para que o guerreiro indígena adquirisse a força do adversário.
Composições de décadas diferentes
O repertório reúne composições de diferentes fases da carreira. “Fã do Sanduíche” e “Aconteceu em Geribá”, esta última de 1977, levaram anos para ficar prontas: a segunda nasceu num período em que Hyldon rompeu com a gravadora e se mudou para Búzios. “Eu sempre achava que estava faltando alguma coisa. Ano passado, finalmente veio a segunda parte”, conta.
Uma das faixas mais recentes, “Um Lindo Dia”, é parceria com o baterista Ivan Conti, o Mamão, do trio Azymuth, amigo que Hyldon conheceu nos anos 1970 por intermédio do músico Cassiano. A canção foi composta poucos meses antes da morte de Conti, em abril de 2023, depois de um almoço na casa de Hyldon. “Ele veio na minha casa com a esposa para comer uma moqueca baiana, minha especialidade. Fizemos a música depois do cafezinho. Me inspirei nos papos e nas postagens dele pra fazer a letra.”
A faixa-título, parceria com o grafiteiro e rapper Nkongo Divwa, tem letra em português e tupi, em tributo aos povos originários, e remete às raízes indígenas do próprio compositor. Já “O Pierrot, a Lua e o Mar” nasceu de uma parceria com o guitarrista Pepeu Gomes: os dois se reaproximaram numa festa e, uma semana depois, já estavam juntos em estúdio. “Em meia hora fizemos a música, ele tocando guitarra e eu contrabaixo”, diz Hyldon, que reconhece no parceiro uma referência: “Pra mim, a guitarra mais brasileira do rock and roll.”
Meio século de carreira
Nascido em 1951, Hyldon vive da música desde os 14 anos e construiu uma trajetória como cantor, compositor, produtor, baixista e guitarrista, tornando-se um dos nomes mais versáteis da soul music brasileira. Ainda jovem, integrou a banda de apoio de Os Diagonais, trio formado por Amaro, Camarão e Cassiano, este último futuro nome maior da soul music nacional. Foi por meio do grupo que conheceu Tim Maia e chegou a tocar guitarra em “Festa de Santo Rei”. “Tem muita gravação minha daquele período”, lembra.
Em 1970, foi contratado pela gravadora Philips para compor e produzir outros artistas, entre eles Erasmo Carlos, Wanderléa, Odair José e Diana. Três anos depois, começou a gravar o que se tornaria “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”. A sessão só aconteceu porque o artista escalado para o estúdio naquele dia não chegou a tempo: Hyldon aproveitou a banda residente, o Azymuth, e produziu um dos discos centrais da soul brasileira. O auge da popularidade veio nos anos 1970, com o lançamento dessa faixa, que dá título ao primeiro álbum do artista. Na sequência, vieram sucessos como “As Dores do Mundo”, “Na Sombra de uma Árvore”, “Acontecimento” e “Velho Camarada”, canções que permanecem no repertório de shows do cantor até hoje.
OUVE Festival
Enquanto “Festa na Aldeia” ainda não chega ao streaming, o público goiano tem a chance de se aproximar da obra de Hyldon por outro caminho. No dia 5 de agosto, o cantor passa por Goiânia para abrir a segunda edição do OUVE Festival, no Teatro SESI, com sessão do documentário “As Dores do Mundo — Hyldon” seguida do show “Na Rua, na Chuva, na Fazenda — 50 anos”, turnê que celebra os cinquenta anos da canção que abriu sua carreira.
“As Dores do Mundo — Hyldon” é dirigido por Emílio Domingos e Felipe David Rodrigues e revisita a trajetória do cantor, dos primeiros anos de carreira até a consolidação como um dos nomes centrais da soul music brasileira.
Entre as cenas, uma trouxe de volta uma lembrança que Hyldon já não revisitava. Nascido em Salvador, ele foi levado ainda bebê para Senhor do Bonfim, no agreste baiano, enquanto a mãe tentava a vida no Rio de Janeiro. Ali morou até os 6 anos. “Pude revisitar a casa que morei, o colégio onde fiz o Jardim de Infância e a estação de trem. Foi muito emocionante, e tudo isso está registrado no filme.”
O documentário também recupera a origem de “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”. No início dos anos 1970, Hyldon se apaixonou por uma garota de Juiz de Fora, conhecida numa ilha onde a mãe morava. No Carnaval de 1971, hospedado com amigos em Itaipava, no Espírito Santo, preferiu ficar tocando violão na varanda em vez de acompanhar o grupo ao baile. “Chovia muito”, lembra. A canção surgiu tempos depois, no Rio de Janeiro, letra e melodia juntas: “A música veio de uma vez, já veio com o tchu, tchu, ru, tchu, e tudo.”
Se “Na Rua, na Chuva, na Fazenda” nasceu de uma paixão de Carnaval, quando Hyldon tinha pouco mais de 20 anos, “Festa na Aldeia” revela um compositor que, cinco décadas depois, continua movido pela curiosidade, pelas parcerias e pelo cuidado com a sonoridade. Ao comparar o artista de hoje com o jovem que gravou o primeiro álbum, ele resume o que permaneceu intacto ao longo do tempo: “Eu continuo com os mesmos princípios, o mesmo respeito à música, que, para mim, é pura diversão.”
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