Paga aluguel por Pix? Veja por que o comprovante pode não ser suficiente
Transferência bancária pode ajudar a comprovar o pagamento, mas recibo discriminado permite identificar o valor e o período quitado; entenda como evitar problemas
Lucas, de 31 anos, alugou um apartamento de dois quartos em Salvador, em 2022, por R$ 1.800 mensais. O acordo com o proprietário era simples: todos os meses, no dia 5, ele fazia o pagamento por Pix e enviava o comprovante pelo WhatsApp. Durante três anos, nunca pediu um recibo.
A situação mudou quando o proprietário entrou com uma ação de despejo alegando que quatro meses de aluguel não haviam sido pagos. Lucas tinha os comprovantes das transferências, mas surgiu uma dúvida: o registro do Pix é suficiente para demonstrar que aquele dinheiro correspondia ao aluguel dos meses questionados?
O comprovante de Pix serve como prova?
Sim. O comprovante de Pix pode ser utilizado como elemento de prova de que uma transferência foi realizada. O problema aparece quando é necessário demonstrar qual obrigação foi quitada.
O comprovante registra informações da operação financeira, como valor, data e destinatário, mas nem sempre identifica de forma detalhada o período do aluguel ou os encargos que estavam sendo pagos.
Por isso, em uma eventual disputa, outros documentos podem ser importantes para relacionar a transferência ao contrato de locação, como conversas entre locador e inquilino, contrato, recibos e mensagens que confirmem o recebimento.
Lei garante direito ao recibo
A Lei do Inquilinato determina que o proprietário forneça ao locatário recibo discriminado das importâncias pagas, vedando a quitação genérica.
O artigo 22, inciso VI, da Lei nº 8.245/1991 estabelece essa obrigação ao locador. O documento permite identificar com maior precisão o que está sendo quitado e reduz o risco de uma futura discussão sobre pagamentos.
O Código Civil também estabelece que o devedor tem direito à quitação regular. O artigo 320 prevê que a quitação deve indicar, entre outras informações, o valor e a espécie da dívida, além da data e do local do pagamento.
Pix e recibo cumprem funções diferentes
Comprovante de Pix
Mostra que determinada quantia foi transferida de uma conta para outra e registra os dados da operação. Dependendo do caso, porém, pode não deixar claro a que mês de aluguel ou encargo o valor corresponde.
Recibo de aluguel
Discrimina o pagamento e permite identificar o período e os valores quitados, funcionando como uma documentação específica da relação entre locador e locatário.
A melhor proteção
O ideal é manter os dois documentos: realizar o pagamento por um meio que deixe registro, como o Pix, e solicitar o recibo discriminado referente ao aluguel.
E se o proprietário não fornecer o recibo?
O inquilino pode solicitar formalmente o documento e guardar o registro da solicitação. Também é recomendável manter contrato de locação, comprovantes bancários, conversas e demais documentos relacionados aos pagamentos.
Em situações de conflito sobre o recebimento do aluguel, existem mecanismos jurídicos específicos, como a consignação em pagamento, que pode ser utilizada nas hipóteses previstas em lei.
O importante é não simplesmente deixar de pagar o aluguel por conta própria. Em caso de cobrança, ameaça de despejo ou recusa do proprietário em receber os valores, o inquilino deve procurar orientação jurídica para avaliar a medida adequada.
O que guardar todos os meses
Para evitar problemas futuros, o inquilino deve manter:
- comprovante de cada pagamento;
- recibo discriminado do aluguel;
- contrato de locação;
- conversas que confirmem pagamentos ou recebimentos;
- documentos referentes a condomínio, IPTU e outros encargos, quando houver.
No caso de Lucas, os comprovantes de Pix podem ser relevantes para demonstrar que as transferências foram realizadas. A análise, porém, dependerá das demais informações disponíveis e de sua relação com os pagamentos de aluguel que o proprietário afirma não ter recebido.
Em resumo: o Pix deixa um importante registro da transferência, mas o recibo discriminado ajuda a deixar claro o que foi pago e a qual período o pagamento se refere. Por isso, guardar os dois documentos é a forma mais segura de documentar a quitação do aluguel.
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