Enem 2026 tem recorde de inscritos; psicóloga alerta sobre ansiedade e excesso de estudo
Exame terá mais de 5 milhões de candidatos, maior número desde 2020; especialista explica como a pressão pode prejudicar a concentração e o desempenho na prova
Na preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), existe uma armadilha comum: acreditar que toda hora livre precisa virar estudo. A revisão avança pela noite, o descanso começa a parecer desperdício de tempo e até uma tarde de lazer pode vir acompanhada de culpa. O problema é que, quando a cobrança passa do ponto, mais tempo diante dos livros não significa necessariamente mais aprendizagem.
Em 2026, essa pressão alcança um contingente maior. O Enem terá 5.055.818 candidatos, maior número de inscrições confirmadas desde 2020, conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O total cresceu 5,08% em relação a 2025, quando foram 4,8 milhões. Comparado a 2021, ano em que o exame registrou cerca de 3,1 milhões de participantes, o avanço chega a 62,5%.
A concorrência pode aumentar a sensação de que não há tempo a perder. É justamente aí que a ansiedade merece atenção. Algum nervosismo diante de uma prova capaz de influenciar os próximos passos acadêmicos é esperado. O sinal de alerta aparece quando a preocupação começa a roubar o sono, comprometer a concentração ou transformar qualquer erro em motivo para mais cobrança.
A psicóloga Aparecida Tavares explica que ansiedade intensa e pressão familiar podem afetar o chamado limiar de atenção, isto é, o período em que alguém consegue permanecer concentrado em uma tarefa antes de se distrair. “Existem vários estudos internacionais que reforçam a ansiedade e a pressão familiar como geradores da Attention Span (“limiar de atenção”, que designa a quantidade de tempo que uma pessoa consegue manter o foco numa única tarefa ou pensamento, antes de se distrair), elevando, portanto, a possibilidade de erros por distração e redução da eficiência na resolução de problemas, inclusive os mais complexos”, explica.
Estudar também exige saber parar
Uma rotina eficiente não se mede apenas pelo número de páginas lidas ou exercícios resolvidos. Dormir em horários regulares é parte da preparação porque noites ruins prejudicam a memória e a atenção. Virar a madrugada para recuperar conteúdo atrasado pode, portanto, cobrar a conta no dia seguinte.
As telas também merecem limite. Durante o estudo, notificações e interrupções sucessivas quebram o ritmo de concentração. À noite, reduzir a exposição ajuda a preservar o descanso.
Movimentar o corpo e manter uma alimentação equilibrada completam essa organização. A orientação é reservar espaço para atividade física e evitar que a rotina seja dominada por alimentos com excesso de açúcar e ultraprocessados.
Quando a cobrança vem de casa, conversar pode ser tão importante quanto organizar o cronograma. “Sempre perceber que a ansiedade está chegando a um nível preocupante, uma sugestão é buscar uma boa conversa com familiares a fim de minimizar as cobranças ou a própria auto cobrança, que muitas vezes é até mais pesada”, destaca Aparecida.
Pausa não é sinônimo de atraso
Quem perde o foco depois de longos períodos pode dividir o estudo em blocos menores. Uma das possibilidades é a Técnica Pomodoro, com 25 minutos de concentração e cinco de descanso. A estratégia ajuda a transformar uma tarde inteira de conteúdo em etapas mais administráveis.
Lazer também precisa permanecer na agenda. Cinema, parque, hobbies ou simplesmente algum tempo longe das apostilas não anulam a preparação. Pelo contrário: fazem parte de uma rotina que precisa ser sustentada durante meses, e não apenas por alguns dias.
Há ainda um limite que cronograma nenhum resolve. Quando a ansiedade passa a dominar o cotidiano e o estudante já não consegue administrar sozinho cobranças e conflitos, buscar apoio profissional pode ser necessário. “Por fim, caso não consiga fazer esse gerenciamento saudável do seu tempo, da ansiedade e dos conflitos internos e externos, procure intervenção especializada com um psicoterapeuta e/ou orientação escolar e parental”, afirma a psicóloga.
Na reta para o Enem, estudar continua sendo indispensável. Mas o rendimento também depende do que acontece quando o caderno se fecha: dormir, descansar e voltar no dia seguinte com atenção suficiente para que as horas de preparação realmente façam diferença.
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