De Goiânia ao Tomorrowland: como HeyDoc! transformou um hobby em carreira
Elias Gabriel trocou o curso de medicina pela música eletrônica após diagnóstico de autismo e período de depressão; hoje leva o tech house de Goiânia para Amsterdam, Ibiza e Miami
Durante anos, Elias Gabriel alimentou uma promessa pouco comum para alguém que queria viver da música eletrônica: não iria ao Tomorrowland apenas para assistir. Se pisaria no festival belga, seria para tocar. A oportunidade veio ao lado do DJ português Diego Miranda, com quem passou uma semana produzindo músicas em Portugal. Convidado para uma participação especial no set do parceiro, o DJ finalmente entrou no festival no qual evitava e assumiu parte da apresentação.
A história foi relembrada na última segunda-feira (10), durante participação de HeyDoc! no podcast Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse e Isadora Carvalho. Na conversa, o DJ e produtor voltou ao ponto em que sua trajetória parecia seguir para uma direção completamente diferente: a medicina.
Aos 17 anos, Elias passou no vestibular e se mudou para Belo Horizonte. A música já ocupava espaço na rotina. Tocava violão, piano e bateria, ouvia rock e encontrou em Skrillex uma porta para entender as possibilidades da produção eletrônica. Como não conseguiu levar o piano na mudança, começou a produzir no computador. Testou dubstep, drum and bass e house. Era, naquele momento, um hobby.
As respostas positivas de outros DJs às faixas que enviava começaram a mudar essa relação. De volta a Goiânia, abriu o projeto artístico em 2019 e percebeu que manter as duas carreiras exigiria uma divisão de tempo que não funcionava. “E aí eu percebi que ou eu fazia um ou outro e a minha vocação da música foi mais forte”, contou.
A escolha também tinha peso familiar. Pai, mãe e irmã são médicos. Elias brincou que poderia ser “a ovelha negra” da casa, mas não rompeu completamente com a área escolhida primeiro. O “Doc” permaneceu na identidade artística e passou a traduzir a relação que ele estabelece entre as duas experiências. “Eu acho que a medicina e também a música tem um poder muito forte de curar e de unir pessoas.”
No programa, ele contou que recebeu o diagnóstico de autismo enquanto ainda cursava medicina e relatou ter atravessado um período de depressão na juventude. Produzir música, segundo ele, funcionava como forma de expressão e de reorganizar o que sentia. A compreensão sobre o próprio funcionamento também pesou na decisão de abandonar o curso e se dedicar integralmente à carreira artística.
Do dubstep, a sonoridade caminhou para o bass house e, depois, para o tech house, vertente que hoje lhe dá espaço para incorporar referências diferentes. Uma delas é o funk brasileiro. HeyDoc! defendeu no podcast que a mistura entre funk e música eletrônica não representa ruptura, mas encontro entre linguagens próximas. Um remix feito a partir de uma faixa de funk ganhou repercussão especialmente fora do país e reforçou essa direção.
De Goiânia para outras pistas
Antes do Tomorrowland, houve uma sequência de sinais de que o projeto começava a atravessar fronteiras. Elias cita como virada a segunda passagem pela Laroc, em São Paulo, quando tocou depois de uma de suas maiores referências dentro do house. A primeira apresentação fora do Brasil veio em Amsterdam, a partir da relação construída com uma gravadora. Depois vieram Miami, Ibiza e Canadá.
No Tomorrowland, o caminho passou pela parceria com Diego Miranda. Depois de produzirem juntos em Portugal, o DJ português o convidou para tocar as músicas que haviam feito durante seu próprio set. Em determinado momento, enquanto Miranda atendia fãs, Elias ficou à frente da apresentação. A cena transformou em realidade a promessa feita anos antes de só conhecer o festival quando estivesse do outro lado da pista.
A circulação internacional não deslocou Goiânia do centro da carreira. Foi para a capital goiana que ele voltou quando deixou Belo Horizonte, principalmente por ter aqui sua rede de apoio. No podcast, apontou a cidade como um polo importante da música eletrônica e destacou a força dos artistas e eventos produzidos em Goiás.
A pista também exige leitura
Para HeyDoc!, produzir e tocar são trabalhos diferentes. Um bom set, disse, não depende apenas de uma sequência pronta: o DJ precisa observar o público, perceber quando a energia muda e adaptar o repertório. Essa leitura vale tanto para um beach club quanto para um clube underground ou uma pista com milhares de pessoas.
Em outubro, ele pretende voltar a Amsterdam e preparar, pela primeira vez, uma festa de sua própria gravadora na cidade. A medicina deixou de ser o destino profissional, mas continua inscrita no nome e na forma como HeyDoc! pensa a música. O hobby iniciado aos 17 anos hoje atravessa Goiânia, Amsterdam, Ibiza, Miami e o palco que ele prometeu conhecer apenas quando pudesse tocar. O episódio completo está disponível no canal do YouTube do podcast Manda Vê.
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