quinta-feira, 15 de outubro de 2026
EDUCAÇÃO

De Goiânia à Columbia: menino de 9 anos ganha ouro em olimpíada de matemática

Pedro Farias conquistou ouro na Copernicus Mathematics Olympiad em Nova York com a segunda maior nota da categoria; colega de sala Bernardo Martini também subiu ao pódio com bronze

Luana Avelarpor em
olimpíada

No Dia do Estudante, a história de Pedro Farias ajuda a lembrar que aprender também pode ampliar o tamanho dos próprios sonhos. Aos 9 anos, o goiano voltou de Nova York com ouro na rodada global da Copernicus Mathematics Olympiad, a segunda maior nota de sua categoria e o melhor desempenho entre os brasileiros. A conquista veio no campus da Columbia University, justamente onde ele diz querer estudar no futuro.

O caminho até o pódio começou com uma madrugada ruim. Horas antes da prova, Pedro teve uma crise de rinite, precisou de medicação e só voltou a dormir quando faltava pouco mais de uma hora para sair do hotel. A mãe, Raquel Morais, preferiu deixá-lo descansar até o último instante. O café da manhã virou alguns biscoitos no quarto.

Pedro, acostumado a competições, demonstrou um nervosismo incomum e chegou a perguntar o que aconteceria se errasse todas as questões. Enquanto os primeiros participantes deixavam a sala dizendo que a prova estava difícil, Raquel esperava apreensiva. Quando o filho apareceu, veio sorridente. “mamãe, estava bem fácil! Respondi tudo, mas tem uma questão com problema, tá?”, contou. A organização reconheceu o problema e atribuiu a pontuação a todos.

A prova, disputada em 29 de julho, teve 90 minutos e 20 questões. Os participantes da rodada global chegaram à etapa internacional após se destacar na fase preliminar, que funcionou como uma seleção entre estudantes de alto desempenho. Goiás teve dois nomes no pódio. Além do ouro de Pedro, Bernardo Martini Mendes, de 11 anos, conquistou o bronze na mesma categoria. Colegas de sala no Colégio Marista Goiânia, os dois cursam o 5º ano e participam de um projeto de contraturno voltado a estudantes com altas habilidades.

Da curiosidade ao pódio

A facilidade com números apareceu cedo. Aos 2 anos, Pedro já fazia pequenas contas a partir de situações cotidianas. Aos 5, resolvia mentalmente as quatro operações, compreendia porcentagens e raciocinava sobre números negativos. Entre 3 e 4 anos, durante a pandemia, também se alfabetizou sozinho.

A família evita transformar essa habilidade em rotina rígida. “Ele não tem rotina de estudos, até porque ele não é um garoto estudioso, não é o perfil dele. Porém, Pedro é um garoto curioso. Gosta de saber como as coisas funcionam e tem uma facilidade enorme para assimilar e conectar informações, assim como tirar conclusões coerentes a partir disso”, resume Raquel. Durante a semana, tablet, televisão e videogame ficam de fora. Entram bola, bicicleta, desenho, livros, música e idas à praça.

Antes de Nova York, Pedro e Bernardo tiveram uma aula por semana com um professor de matemática e resolveram provas anteriores da Copernicus nas férias. Para tornar os exercícios mais atraentes, Raquel prometia pacotinhos de figurinhas da Copa quando o filho atingia uma meta de acertos.

A viagem quase não aconteceu por causa dos custos. O cenário mudou depois do ouro de Pedro na Olimpíada Canguru de Matemática e pelo fato de a etapa global acontecer na Columbia, universidade que já fazia parte dos planos do menino.

Clima de final de Copa

Na cerimônia, as medalhas foram anunciadas da menção honrosa ao ouro. Quando terminaram os nomes da prata na categoria de Pedro, a ansiedade tomou conta. Raquel compara a atmosfera a uma final de Copa do Mundo.

“Então, quando o nome dele foi anunciado, foi uma enorme festa! Ele travou por uns segundos, mas, na sequência, levantou todo empolgado, enquanto nossa delegação batia palmas e gritava o nome dele”, relembra.

O ouro ainda não encerrava a premiação. Cinco estudantes haviam alcançado a medalha, mas apenas os três melhores receberiam um prêmio adicional. Pedro terminou em segundo lugar e ganhou um Meta Quest, justamente o prêmio que havia dito preferir. Foi também o único brasileiro, entre todas as categorias, a alcançar o top 3.

O menino dimensiona a conquista pelo nível dos adversários. “Eu senti muita alegria, porque, como eu estava concorrendo com pessoas de diversos países do mundo, a sensação é de que vai ser mais difícil conseguir uma classificação. A medalha de ouro foi muito importante para mim. Eu gostei muito, porque havia delegações muito fortes lá”, comenta. 

Reconhecimento

Para Raquel, a conquista ultrapassa a medalha. Na educação infantil, o filho chegou a ser impedido de participar de atividades por saber “demais”, situação que o fez se enxergar como um problema e exigiu terapia. “Então, tudo isso acaba mostrando para ele que saber ‘demais’ não é problema e valida toda essa trajetória também.”

Pedro já soma mais de 70 medalhas em olimpíadas do conhecimento, 33 apenas em 2026. O ouro em Nova York foi a décima conquista internacional. Mesmo assim, a medalha foi guardada logo depois da cerimônia e só saiu novamente porque uma professora pediu para vê-la.

Pedro diz que ficou nervoso diante de competidores de vários países, mas escolhe outra lembrança como a mais marcante. “Eu me senti, no início, meio nervoso, porque eram crianças de vários lugares do mundo, então, ia ser bem difícil. E eu acho que o que mais me marcou foi que a prova foi na Columbia University, que é onde eu quero estudar no futuro”, conta o estudante.

A medalha conquistada em Nova York acrescentou um novo capítulo a uma trajetória que começou muito antes das olimpíadas, nas perguntas que Pedro fazia ainda pequeno. Desta vez, a curiosidade que sempre o acompanhou levou também o nome de Goiás ao pódio internacional.

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