sábado, 10 de outubro de 2026
ENTREVISTA

Enio Fernandes vê “tempestade perfeita” no agro e critica imediatismo político

Consultor aponta combinação de clima adverso, juros altos, endividamento e perda de renda como ameaça à produção e defende planejamento de longo prazo para o Brasil

Bruno Goulartpor em
Enio Fernandes
“O agro é cruel: menor tecnologia, menor produtividade; menor produtividade, menor resultado” Foto: Maria Julia Soares/O HOJE

Bruno Goulart

O agronegócio brasileiro entra em um período de maior preocupação diante da combinação entre mudanças climáticas, juros elevados, endividamento dos produtores e perda do poder de compra da população. A avaliação é do consultor em agronegócio Enio Fernandes, que participou do programa Momento Político, do Grupo O HOJE, em entrevista ao jornalista Wilson Silvestre.

Para Fernandes, o cenário atual reúne fatores que podem pressionar não apenas o campo, mas toda a economia. O consultor classifica o momento como uma “tempestade perfeita”, com dificuldades simultâneas no agro, na indústria, no comércio e nas famílias.

Um dos principais pontos de preocupação é o comportamento do clima. Segundo Fernandes, o El Niño que se desenha para o período pode provocar alterações importantes no regime de chuvas e elevar o risco para as lavouras de soja e milho. A possibilidade de períodos mais secos e quentes justamente durante o enchimento dos grãos pode comprometer a produtividade. “Nós podemos ter uma quebra de safra importante. E, se quebrar a safra, o preço sobe e vem a inflação”, alerta.

O consultor ressalta que, historicamente, o El Niño não representa necessariamente um cenário negativo para o Brasil. No entanto, a intensidade do fenômeno preocupa. Para Fernandes, o produtor precisa levar em conta a possibilidade de um ano de maior risco climático na hora de decidir quando e como plantar.

A decisão, porém, não é simples. O calendário da soja está diretamente ligado à segunda safra de milho. Quanto mais tarde a soja for plantada e colhida, menor pode ser a janela para o plantio do milho. Por isso, Fernandes considera que o produtor será pressionado a escolher entre uma estratégia financeiramente mais agressiva e outra agronomicamente mais segura. “Este ano, o ideal financeiramente não vai ser o ideal agronomicamente. Ele tem que fazer escolhas”, aponta.

Juros pressionam o produtor

Além do clima, o consultor chama atenção para o impacto do cenário econômico sobre o campo. O agronegócio depende de capital para a compra de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos. Com juros elevados e maior dificuldade de acesso ao crédito, a margem do produtor fica pressionada.

Fernandes afirma que o problema não está restrito ao agronegócio. Segundo o consultor, grandes empresas do varejo também enfrentam dificuldades, enquanto o sistema bancário convive com problemas relacionados à inadimplência.

 

 

Na avaliação de Fernandes, o endividamento da população reduz o consumo e acaba por atingir toda a cadeia econômica. No campo, o efeito aparece também na compra de insumos. O profissional cita a queda nas vendas de fertilizantes, calcário e defensivos agrícolas.

O problema, segundo o consultor, é que a redução dos investimentos em tecnologia pode ocorrer justamente no momento em que o produtor mais precisa proteger a lavoura contra o risco climático. “O agro é cruel: menor tecnologia, menor produtividade; menor produtividade, menor resultado”, afirmou.

Crítica ao curto prazo

A entrevista também ganhou contornos políticos. Para Fernandes, um dos principais problemas do Brasil é a falta de planejamento de longo prazo. O consultor afirma que o País passou a priorizar a manutenção do poder político e os resultados eleitorais imediatos em detrimento de projetos de Estado. “Há muito tempo no Brasil, nós não temos política de governo, política de nação. Nós temos política de poder”, observa.

Na avaliação do consultor, governos de diferentes orientações ideológicas podem cometer erros quando adotam medidas de caráter populista. Para Fernandes, o problema está na busca permanente por medidas que gerem aprovação imediata, sem considerar seus efeitos sobre a economia no futuro.

O consultor defende que o Brasil faça escolhas capazes de produzir resultados em 10 ou 20 anos. Como exemplos, cita países asiáticos que, segundo Fernandes, adotaram estratégias de desenvolvimento e investimento de longo prazo.

Sociedade x políticos

Fernandes também critica a relação entre sociedade e classe política. Para o consultor, o eleitor precisa cobrar mais dos governantes políticas voltadas para emprego, produtividade, infraestrutura e redução da carga tributária em vez de concentrar a cobrança em benefícios individuais.

Na mesma linha, o consultor afirma que o empresariado também precisa mudar de postura. Em vez de depender exclusivamente de subsídios, o setor produtivo deveria cobrar competitividade, investir em infraestrutura e qualificação. (Especial para O HOJE)

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