Educação sexual para crianças autistas: por que o assunto não pode esperar
Meta-análise aponta que 40% das pessoas autistas já sofreram abuso sexual; especialistas indicam que orientações sobre corpo, limites e consentimento devem começar aos 5 anos
Uma criança precisa saber dizer onde foi tocada, reconhecer quais partes do corpo são íntimas e entender quando um contato ultrapassa um limite. Para crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista (TEA), esse aprendizado pode ser ainda mais importante, porque dificuldades de comunicação e de interpretação das regras sociais podem tornar situações de abuso mais difíceis de identificar e relatar.
Uma revisão conduzida pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) mostra que jovens autistas atravessam as mesmas transformações hormonais da puberdade que pessoas neurotípicas. O desafio pode estar em compreender o que essas mudanças significam. Menstruação, crescimento de pelos, alterações na voz, privacidade e interesse pelo corpo do outro nem sempre são assimilados sem orientação direta.
O problema ganha outra dimensão diante dos números. Meta-análise de 34 estudos internacionais, publicada em 2023 na revista Trauma, Violence & Abuse, apontou que 40% das pessoas autistas avaliadas já haviam sofrido abuso ou violência sexual. A vulnerabilidade pode aumentar quando há maior necessidade de suporte ou dependência de terceiros para atividades cotidianas.
Educação sexual, nesse caso, começa muito antes de qualquer conversa sobre relações sexuais. Passa por aprender o nome das partes do corpo, compreender quais são íntimas, reconhecer situações em que o toque é permitido e entender consentimento. A Unesco recomenda que essas orientações sejam introduzidas a partir dos 5 anos, sempre de acordo com a idade.
Para pessoas neurodivergentes, a forma de ensinar também precisa ser ajustada. Desenhos, músicas, livros, brincadeiras ou outros recursos podem facilitar a compreensão conforme o nível de suporte, as dificuldades e o perfil sensorial de cada criança.
Na adolescência, a conversa acompanha as mudanças do corpo e passa a incluir sistema reprodutor, relações, contracepção, preservativo e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. Evitar o assunto não interrompe esse desenvolvimento. Pode apenas fazer com que o jovem chegue a essas experiências sem informação suficiente para reconhecer limites, proteger o próprio corpo e procurar ajuda quando algo estiver errado.
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