domingo, 20 de setembro de 2026
SAÚDE DA MULHER

Engravidar perto dos 50: riscos reais, mitos e o que o acompanhamento médico precisa considerar

Ginecologista explica que gestação tardia não é sentença, mas exige avaliação individual; partos de mulheres com 40 anos ou mais cresceram 83% no Brasil entre 2003 e 2022

Luana Avelarpor em
Engravidar

A idade costuma aparecer entre as primeiras questões levantadas quando uma mulher engravida depois dos 40 anos. Aos 45, 46 ou 48, a gestação vem acompanhada de uma série de riscos conhecidos pela medicina. Eles existem e precisam ser considerados, mas não determinam, sozinhos, como a gravidez vai evoluir.

Entre tratar a idade como fator de atenção e transformá-la em sentença há uma diferença que envolve histórico de saúde, condições clínicas e acompanhamento médico, muitas vezes iniciado antes mesmo da concepção.

A gravidez da jornalista Maju Coutinho, anunciada aos 48 anos, chama atenção para uma mudança já registrada pelas estatísticas brasileiras. Dados do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os partos entre mulheres com 40 anos ou mais passaram de 57.983, em 2003, para 106.263 em 2022. O aumento foi de 83%, o maior entre todas as faixas etárias no período, enquanto os demais grupos registraram queda.

Os 48 anos também coincidem com a idade média em que as brasileiras chegam à menopausa. Estudo publicado na revista Climacteric, com 1.500 mulheres de 45 a 65 anos, apontou ainda que as irregularidades menstruais começam, em média, aos 46 anos. Internacionalmente, a International Menopause Society e a The Menopause Society adotam 51 anos como referência para a menopausa.

Na prática, maternidade e transição menopausal passam a ocupar, com maior frequência, a mesma etapa da vida. “A mulher que engravida aos 45, 46, 48 anos não está fora da menopausa. Ela está dentro da transição menopausal, gestando. Isso não é uma exceção biográfica, é uma nova categoria clínica, e o Brasil ainda não escreveu o capítulo dela”, afirma a ginecologista e pesquisadora Fabiane Berta.

O adiamento da maternidade está relacionado a diferentes fatores, entre eles formação acadêmica, carreira, planejamento financeiro, escolha de parceiro e avanços nas técnicas de preservação da fertilidade. Maju já havia relatado, em entrevistas anteriores, que congelou óvulos aos 37 anos.

A mudança no momento de ter filhos, no entanto, não elimina os riscos associados à idade materna mais avançada. O American College of Obstetricians and Gynecologists aponta que, na comparação com mulheres de 35 a 39 anos, o risco de pré-eclâmpsia é 32% maior entre aquelas de 40 a 44 anos e mais do que dobra a partir dos 45.

Diabetes gestacional, parto prematuro, cesariana e outras complicações também aparecem com maior frequência nessa faixa etária. Há ainda redução progressiva da reserva ovariana, aumento da ocorrência de aneuploidias, alterações no número de cromossomos, e maior necessidade de técnicas de reprodução assistida.

Para Fabiane, esses dados devem orientar a avaliação médica, mas não substituir uma análise individual da paciente. “Risco não é sentença, é informação para decidir melhor. A mulher de 47 anos que quer engravidar precisa de avaliação cardiovascular, metabólica, tireoidiana e de reserva ovariana antes da concepção, e não de um encaminhamento genérico. O que combato é a consulta que resolve isso com uma frase: é da idade”, afirma.

O acompanhamento também não termina com o nascimento do bebê. Algumas complicações ocorridas durante a gestação podem indicar riscos que permanecem relevantes ao longo das décadas seguintes. Documento científico da American Heart Association, publicado na revista Circulation, relaciona hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e prematuridade a maior risco de doenças cardiovasculares no futuro.

Quando a gravidez ocorre perto dos 50 anos, essas informações surgem poucos anos antes da pós-menopausa, período em que o risco cardiovascular feminino tende a aumentar. “A gestação tardia é o exame de estresse mais informativo que uma mulher fará antes da menopausa. Se ela desenvolveu pré-eclâmpsia aos 46, essa informação precisa estar na primeira linha do prontuário dela aos 55. A menopausa não é o começo do risco cardiovascular feminino, é a hora em que ele aparece por escrito”, afirma a médica.

A maternidade mais tardia também produz efeitos que ultrapassam o consultório. Pesquisa da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas mostra que 48% das trabalhadoras estão fora de seus postos 12 meses após o início da licença-maternidade. O percentual se mantém nos dois anos seguintes.

Para uma mulher que tem um filho aos 46 anos, por exemplo, o retorno ao trabalho pode coincidir com amamentação, privação de sono e alterações hormonais próprias da transição menopausal. “Existe uma conta que ninguém faz. A mesma mulher que se afasta do trabalho para gestar aos 46 vai atravessar a transição menopausal enquanto amamenta, com privação de sono somada à flutuação hormonal, e continuará sendo avaliada como se nada disso estivesse acontecendo. Não é fragilidade dela. É desenho institucional”, afirma Fabiane.

O avanço da maternidade para idades mais próximas da menopausa amplia, portanto, as demandas de acompanhamento. Aos 40, 45 ou 48 anos, a idade deve funcionar como ponto de partida para a avaliação médica, e não como explicação automática para a gestação.

O histórico da paciente, suas condições metabólicas e cardiovasculares e os acontecimentos registrados durante a gravidez ajudam a definir riscos imediatos e também cuidados que poderão ser necessários anos depois do nascimento do filho.

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