CRISE

“O Supremo também não me mudou”, diz Cármen Lúcia em meio à crise do STF

Em palestra, ministra falou sobre sua trajetória na Corte e citou decisões tomadas com base na Constituição

Thais Munizpor em
carmén lúcia
Ministra Cármen Lúcia | Crédito: Luiz Roberto/Secom/TSE

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou durante palestra na Fundação FHC, em abril deste ano, que sua atuação na Corte permanece guiada pela Constituição e pela própria consciência. A declaração ocorreu em um período de questionamentos sobre a atuação de ministros e sobre a relação de integrantes do Judiciário com advogados e familiares.

“Podem dormir tranquilos porque eu tento fazer o melhor todo dia e não há uma linha minha que não seja com base na lei”, afirmou Cármen Lúcia durante o evento realizado em São Paulo, em 13 de abril. Na ocasião, ela também falou sobre as dificuldades enfrentadas pelo Supremo e sobre a necessidade de mudanças internas.

A ministra encerrou a exposição com uma frase sobre sua trajetória no tribunal: “Eu não mudei, não vou mudar o Supremo, mas o Supremo também não me mudou”.

Ministra citou decisão envolvendo o próprio pai

Durante a palestra, Cármen Lúcia contou um episódio pessoal para explicar como entende a independência necessária ao exercício da magistratura. Ela relatou ter votado contra uma posição favorável ao próprio pai em um processo envolvendo poupadores.

“Eu já votei contra o meu pai, que ainda estava vivo”, afirmou. Segundo a ministra, ela comunicou previamente ao pai que participaria do julgamento porque havia apenas oito ministros no colegiado e seu entendimento jurídico era contrário à decisão que ele havia obtido anteriormente.

Cármen Lúcia explicou que a situação não deveria ser interpretada a partir da relação familiar. “Isso não tem nada a ver com amor nem desamor”, disse.

Na sequência, a ministra resumiu a situação com uma frase que, segundo ela, ouviu do próprio pai: “Minha filha, juiz não tem família”.

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Declaração ocorreu durante discussão sobre o STF

A palestra aconteceu em abril, quando o Supremo já enfrentava questionamentos públicos relacionados à confiança na Corte. Naquele período, o caso envolvendo o Banco Master também estava entre os assuntos que geravam repercussão em torno do tribunal.

A investigação sobre o banco ganhou novos desdobramentos ao longo de 2026. Em janeiro, o STF informou que havia autorizado a quebra dos sigilos bancário e fiscal de 101 pessoas e entidades investigadas por suspeitas de fraudes, além do bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens de 38 investigados.

Posteriormente, documentos relacionados ao caso passaram a envolver também relações profissionais entre o Banco Master e escritórios ligados a familiares de ministros. Em setembro, por exemplo, o STF divulgou contrato firmado entre o banco e o escritório Barci de Moraes, que tem entre os sócios Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, além de dois filhos do casal. O documento previa serviços jurídicos e consultoria estratégica.

A divulgação dos documentos ampliou a crise interna no Supremo. Em setembro, ministros passaram a trocar ofícios sobre o acesso e a divulgação de informações da investigação, com divergências envolvendo André Mendonça e Alexandre de Moraes.

Levantamento mostra situação de familiares de ministros

A relação entre familiares de ministros e a advocacia também entrou no debate sobre possíveis conflitos de interesse no Judiciário. Uma reportagem publicada pelo UOL em 26 de janeiro de 2026, assinada pelo jornalista Mateus Coutinho, identificou 14 parentes de primeiro grau de ministros do STF que atuaram como advogados no Supremo ou no Superior Tribunal de Justiça (STJ). A apuração contabilizou 1.925 processos, dos quais ao menos 382 ainda estavam em tramitação.

Cármen Lúcia ficou fora desse grupo. O levantamento não identificou parentes próximos da ministra atuando como advogados no STF. Ela não é casada e não tem filhos.

A discussão também envolve as regras de impedimento e suspeição de magistrados. Em 2023, o STF julgou inconstitucional uma regra do Código de Processo Civil que previa o impedimento de um juiz quando uma das partes fosse cliente de escritório de advocacia do cônjuge ou parente do magistrado, mesmo que outro advogado representasse a parte no processo. Cármen Lúcia ficou entre os ministros que votaram pela manutenção da regra.

Em 2026, a própria Cármen Lúcia passou a relatar uma proposta de código de conduta para o STF, em discussão dentro da Corte. A iniciativa ocorre em meio ao debate sobre transparência, conflitos de interesse e critérios para a atuação dos ministros.

Na palestra da Fundação FHC, Cármen Lúcia também defendeu um Judiciário independente e imparcial. “Não há possibilidade de democracia sem um Poder Judiciário independente, imparcial e confiável para a sociedade”, declarou.

Ao falar especificamente sobre sua própria atuação, a ministra afirmou que não pretende falar em nome de todo o Supremo. “Eu falo apenas por mim como servidora pública, porque o presidente do Supremo é que fala pelo Supremo”, disse.

Cármen Lúcia completou 20 anos como ministra do STF em junho de 2026. Ela foi nomeada para a Corte em 2006 e já ocupou a Presidência do Supremo e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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