quinta-feira, 29 de outubro de 2026
saúde

Emagrecer com “canetas” sem acompanhamento nutricional pode custar mais do que peso, alerta especialista

Medicamentos à base de GLP-1 reduzem o apetite, mas nutricionistas dizem que efeito não substitui acompanhamento alimentar durante o tratamento

Luana Avelarpor em
canetas

Medicamentos à base de GLP-1, populares como “canetas emagrecedoras”, ganharam espaço nos últimos anos no tratamento da obesidade no Brasil. Mas o uso sem acompanhamento nutricional pode trazer riscos que vão além da balança.  Segundo especialistas, deficiência de vitaminas e minerais e perda de massa muscular estão entre os principais efeitos colaterais relatados por quem não recebe orientação alimentar durante o tratamento.

É o que explica a nutricionista Pammela Munique Vilela Borges (CRN-1 23035), especialista em nutrição estética, esportiva e emagrecimento e que atua no acompanhamento de pacientes em uso de análogos de GLP-1. “A medicação é uma ferramenta importante no tratamento da obesidade, mas não substitui a alimentação adequada”, afirma.

Segundo a nutricionista, os medicamentos que atuam na via do GLP-1 reduzem significativamente o apetite e podem alterar tanto a quantidade quanto a preferência por determinados alimentos.

O problema, segundo ela, é quando o paciente passa a comer menos sem se preocupar com o que está comendo. “Podemos ter perda de peso na balança, mas não necessariamente uma melhora proporcional da composição corporal e da qualidade nutricional”, diz.

De acordo com Borges, a queda acentuada do apetite pode levar à redução drástica não apenas de calorias, mas também de proteínas, vitaminas, minerais, fibras e líquidos consumidos no dia a dia.

Efeitos colaterais comuns do tratamento, como náusea, vômito, constipação, diarreia e sensação de estômago cheio, também podem levar pacientes a restringir ainda mais a alimentação. “Não é simplesmente prescrever suplementos para todo mundo. Primeiro, é preciso entender o que aquele paciente está conseguindo comer e quais são suas necessidades”, afirma a nutricionista.

Perda de peso rápida pode incluir perda de músculo

Outro ponto de atenção, segundo a especialista, é a composição do peso perdido. Quando o emagrecimento é rápido e a restrição calórica é significativa, o corpo pode perder massa magra, e não apenas gordura. “Não quero olhar apenas para quantos quilos o paciente perdeu, quero saber como ele está perdendo esse peso”, diz Borges.

Para evitar a perda muscular, a estratégia recomendada inclui ingestão adequada de proteínas ao longo do dia e a prática de exercícios de força. Segundo a nutricionista, a combinação de baixo consumo de proteína, sedentarismo e ausência de treino de resistência aumenta o risco de perda de massa magra durante o tratamento.

Erros

Entre os erros alimentares mais frequentes observados em pacientes que usam medicação para obesidade está a ideia de que, sem fome, não é preciso se alimentar, ou de que a qualidade da comida deixa de importar quando o remédio já produz resultado na balança.

Na prática, isso costuma resultar em refeições pequenas, pobres em proteína, longos períodos sem comer e baixa ingestão de frutas, verduras, fibras e água. Em outros casos, ocorre o oposto: como a pessoa consegue comer pouco, passa a priorizar pequenas porções de alimentos de baixo valor nutricional.

“Quando o volume alimentar diminui, cada escolha passa a ter ainda mais importância”, afirma Borges, que recomenda priorizar proteínas, vegetais, frutas, leguminosas, cereais integrais e boas fontes de gordura, respeitando a tolerância de cada paciente.

Acompanhamento multidisciplinar

Para a nutricionista, o tratamento com medicamentos GLP-1 deve ser necessariamente multidisciplinar. Enquanto o médico avalia indicação, dose, resposta clínica e efeitos adversos, cabe ao nutricionista acompanhar a ingestão alimentar, a adequação de proteínas e micronutrientes e a composição corporal do paciente, além de ajudar a construir um padrão alimentar sustentável a longo prazo.

“O paciente precisa aprender a viver sem depender exclusivamente do efeito da medicação sobre a fome”, destaca Borges.

A interrupção do uso de medicamentos GLP-1 pode ser seguida por recuperação de peso em parte dos pacientes, aponta a especialista. Por isso, o trabalho com comportamento alimentar, qualidade da dieta, atividade física, sono e rotina deve começar desde o início do tratamento, e não apenas quando a medicação é suspensa.

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