Abin alerta para risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras
Documento reservado aponta aumento da pressão norte-americana sobre o Brasil e cita medidas econômicas, diplomáticas e políticas adotadas pelo governo Trump
A combinação de medidas comerciais, decisões diplomáticas e manifestações políticas do governo dos Estados Unidos levou a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a classificar como crítico o risco de influência ou interferência externa nas eleições brasileiras de 2026. O alerta consta de um relatório reservado encaminhado, no fim de agosto, à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo e confirmadas pela TV Brasil.
Na avaliação registrada no documento, a política externa adotada pelo segundo governo de Donald Trump para a América Latina é um dos fatores considerados no cenário. O relatório aponta como prioridade norte-americana a reafirmação da influência dos Estados Unidos na região e a redução da presença de países considerados rivais, especialmente a China, em setores estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. A Abin, porém, trabalha com uma avaliação de risco: o documento não afirma que uma interferência estrangeira já tenha ocorrido no processo eleitoral brasileiro.
A análise da inteligência brasileira ocorre em meio a uma relação marcada por conflitos entre Brasília e Washington, embora os dois governos também tenham mantido canais de negociação. O comércio é um dos principais pontos de atrito. Em julho, os Estados Unidos estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as duas medidas alcançam, juntas, 23,1% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano. Em 16,5% das exportações, as duas cobranças incidem simultaneamente, levando a uma sobretaxa acumulada de 37,5%.
A política comercial, no entanto, não é o único elemento considerado no contexto. A relação bilateral também passou por medidas direcionadas a autoridades brasileiras. Em 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, foram incluídos nas sanções previstas pela Lei Magnitsky, embora os nomes tenham sido retirados da lista em dezembro daquele ano.
Outro episódio ocorreu em maio de 2026, quando os Estados Unidos classificaram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida entrou em vigor em 5 de junho e posteriormente passou a integrar o ambiente de tensão entre os dois governos. Nos últimos dias, autoridades norte-americanas voltaram a fazer críticas ao Brasil relacionadas ao combate ao crime organizado.
Em agosto, Washington também revogou o visto da então embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi relacionada pelo governo norte-americano ao impasse envolvendo a aprovação do indicado de Trump para a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. O governo brasileiro contestou as justificativas apresentadas pelos norte-americanos.
Mesmo diante da sequência de atritos, houve movimentos de aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Os dois mantiveram conversas e determinaram a retomada das negociações sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros. Lula chegou aos Estados Unidos neste domingo (20) para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O presidente brasileiro fará o discurso de abertura do Debate Geral nesta terça-feira (22), antes de Trump. Até o momento, não há uma reunião bilateral formal confirmada entre os dois.
A preocupação registrada pela Abin se conecta diretamente ao calendário eleitoral porque algumas das divergências entre os países passaram a envolver temas relacionados à política interna brasileira. Durante negociações comerciais anteriores, o governo Trump apresentou ao Brasil uma lista de exigências que incluía questões políticas. Entre elas estava a participação de chamados “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. O governo Lula rejeitou a proposta e afirmou que temas relacionados à soberania e ao processo eleitoral não seriam negociados.
O documento da Abin também é produzido em um momento no qual o relacionamento entre os dois países passou a ter impacto direto no debate político brasileiro. A avaliação de risco não significa, por si só, que uma ação de interferência tenha sido identificada ou comprovada. O que a inteligência aponta é a existência de um cenário de pressão crescente, no qual decisões econômicas, diplomáticas e políticas tomadas pelos Estados Unidos podem alcançar temas relacionados às eleições brasileiras.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a análise da Abin coloca a possibilidade de influência estrangeira entre os fatores acompanhados pelas instituições brasileiras durante o processo eleitoral. O relatório, contudo, apresenta o cenário como uma hipótese de risco e não como uma conclusão de que os Estados Unidos estejam efetivamente interferindo na eleição de 2026.
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.