IA mais que dobra presença no agronegócio brasileiro e reduz custos no campo
Uso da tecnologia nas fazendas dobrou em quatro anos para combater a alta de custos e a falta de mão de obra
A presença da inteligência artificial (IA) no agronegócio brasileiro mais que dobrou nos últimos quatro anos, impulsionada pelas margens apertadas e a necessidade de otimizar os custos de produção. Segundo um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), a parcela de fazendas e agroindústrias que utilizam a tecnologia saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2026.
Apesar da rápida adoção, o mercado ainda possui um amplo espaço para expansão, barrado, muitas vezes, pela falta de estruturação de dados. A consultoria McKinsey, em sua pesquisa Global Farmer Insights 2024, aponta que apenas 22% dos agricultores brasileiros utilizam softwares de gestão agrícola, índice inferior ao dos Estados Unidos (38%) e da Europa (32%).
Para o diretor do ecossistema de inovação Hub Cerrado, Uaitã Pires, a transição digital se tornou uma exigência do atual panorama econômico, e não apenas um diferencial. “O mercado do agro passa por um cenário mais desafiador, com crédito alto e mudanças climáticas, então ele precisa ganhar eficiência, e essa eficiência se traduz através de ferramentas e tecnologias”, explica.
Queda nos custos e acesso ao pequeno produtor
A principal alavanca para o uso da IA no campo tem sido o impacto na redução de despesas com insumos. O diretor do Hub Cerrado detalha que a agricultura de precisão, operada por drones e sensores, elimina desperdícios e aumenta a rentabilidade. A tecnologia avalia e direciona a aplicação, o que “consegue reduzir até 90% do custo, uma vez que só vai aplicar em plantas que realmente precisam”.
O custo para ter acesso a essas inovações, antes visto como proibitivo, tem se democratizado. A coordenadora do Programa Acelera Campo do Senar Goiás, Wiviany Araújo, ressalta que já existem soluções viáveis para propriedades de menor porte. “Temos tecnologia para análise de solo via sensor que alimenta o sistema com anuidade de R$ 300, permitindo que o produtor tenha essa análise acompanhado por um agrônomo”, comenta. Segundo Wiviany, embora os equipamentos físicos exijam um aporte maior, o mercado atual oferece amplo financiamento para aquisição de drones e rastreadores.
Apagão na mão de obra
Diferente do senso comum, segundo os especialistas ouvidos, a automação das fazendas não foca em demissões, mas em suprir o apagão de mão de obra. “Hoje vejo que a questão é mais de sobrevivência do agro, não de substituir mão de obra, porque está faltando mão de obra no agro”, pontua Uaitã Pires.
Wiviany Araújo reforça a visão e vê um cenário onde a qualificação das pessoas está cada vez mais necessária. “Diminui o número de pessoas, por exemplo, uma pessoa cuidando de um maquinário que antes exigiria cinco, mas é muito mais sobre a qualificação das pessoas na fazenda do que a substituição direta pela tecnologia”, ressalta
A falta de conectividade, outro gargalo das áreas rurais, já não impede a modernização. Startups desenvolveram sistemas capazes de operar no modo offline direto no pasto ou no maquinário. “Quando o produtor ou a máquina voltam para perto da sede da fazenda, o sistema se alimenta online. Essa barreira já foi bastante reduzida”, explica Wiviany.
Em Goiás, a adoção é liderada por cidades com forte presença universitária e de pesquisa, como Rio Verde, Jataí, Mineiros e Itaporanga. O principal desafio remanescente, segundo a coordenadora do Senar Goiás, é a barreira cultural e o receio do produtor mais tradicional. “Apesar da resistência inicial dos mais velhos, isso tem mudado bastante quando eles veem o aumento da produtividade, a redução de custos ou o ganho no faturamento”, pondera.
O movimento indica um caminho sem volta para o setor. De acordo com a pesquisa A Reinvenção do Agronegócio Brasileiro, da PwC Brasil, 78% dos principais executivos do segmento já planejavam investir em IA integrada a plataformas digitais neste ano, consolidando a tecnologia como a base da competitividade agrícola.
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