Quase um terço das pessoas no Centro-Oeste estão endividadas
Levantamentos do Datafolha e da AtlasIntel revelam que o alto custo dos alimentos força as famílias a usarem limites bancários para despesas essenciais
O avanço do crédito para o pagamento de despesas essenciais tem pressionado o orçamento dos brasileiros. O encarecimento do custo de vida consolidou um cenário em que o endividamento, os juros elevados e a insuficiência de renda afetam o cotidiano de quase metade das famílias no País e alteram a dinâmica de consumo.
Dados da pesquisa Datafolha mostram que, para 49% dos brasileiros, a renda é insuficiente. Desse total, 34% afirmam que o dinheiro “não é suficiente e às vezes falta”, enquanto outros 15% relatam que o valor recebido é “muito baixo e traz muitas dificuldades”. Além disso, 42% dos entrevistados conseguem viver exatamente com o que recebem, sem margem para poupança.
Essa dificuldade orçamentária também foi identificada pelo levantamento AtlasIntel/Bloomberg, realizado em setembro de 2026. Segundo a pesquisa, as dívidas acumuladas e os juros altos foram citados por 25% dos brasileiros como o fator que mais tem impactado negativamente a situação financeira das famílias. O endividamento aparece como o terceiro maior problema, atrás do aumento do preço dos alimentos (44,2%) e das contas básicas (32,1%).
Retrato regional e demográfico
A pressão das dívidas se distribui de maneira diferente pelo País e entre as faixas de renda. Segundo a AtlasIntel, o impacto é maior no Nordeste, onde 30,7% dos entrevistados apontaram o endividamento como o principal problema. O Centro-Oeste aparece em seguida, com 30,1%. No outro extremo, a Região Norte registrou o menor percentual, de 10%.
Em Goiás, esse cenário repercute sobre o consumo e as vendas nas 122 feiras registradas em Goiânia, incluindo a tradicional Feira Hippie, que reúne 6.884 feirantes cadastrados.
O aumento do comprometimento da renda ocorre em um contexto de expansão de negócios voltados ao consumo de menor custo. No Estado, o segmento de marmitas congeladas registra crescimento de 25,2%, impulsionado pela busca dos consumidores por opções mais baratas de alimentação.
Os dados nacionais também apontam que o endividamento das famílias brasileiras chegou a 82% em julho de 2026. Entre consumidores com renda de até três salários mínimos, o índice se aproxima de 85%. Nesse grupo, 38,5% estão com contas em atraso e quase 18% afirmam que não conseguirão quitar as dívidas em aberto.
A pressão também varia de acordo com gênero e idade. As dívidas são apontadas como a principal fonte de impacto negativo para 31,8% dos homens, contra 19% das mulheres. A faixa etária mais atingida está entre 35 e 44 anos, com 31,2%.
O levantamento AtlasIntel também aponta relação entre renda e peso das dívidas. O endividamento afeta 30,5% daqueles que recebem entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, enquanto o percentual cai para 18,2% entre famílias com renda superior a R$ 10 mil.
Riscos
Os juros bancários continuam pressionando o orçamento das famílias. No crédito rotativo do cartão, a taxa chega a 428,3% ao ano, equivalente a 14,81% ao mês, enquanto a taxa de inadimplência é de 63,5%.
No cartão parcelado, a taxa chega a 192,1% ao ano. Entre outras modalidades populares de crédito, o cheque especial registra juros de 137,9% ao ano, enquanto o crédito pessoal não consignado apresenta taxa de 117,1%.
Segundo a base do Serasa, o valor médio da dívida no País chegou a R$ 6.300. O valor representa o dobro do rendimento real médio mensal apontado pelo IBGE.
O comprometimento médio da renda com dívidas está em 29,3%, próximo ao pico histórico de 29,7%, registrado em fevereiro de 2026. Desse total comprometido no orçamento doméstico, 10,38% correspondem ao pagamento de juros bancários e 18,81% ao valor principal.
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