Brasil critica discurso de Trump e cobra respeito à soberania nas eleições
Na OEA, Brasil rejeita “paz pela força” e alerta contra interferência externa
O governo brasileiro defendeu o respeito à soberania nacional e a não interferência externa nas eleições durante uma sessão da Organização dos Estados Americanos (OEA), nesta sexta-feira (2). A manifestação ocorreu dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (4).
Durante uma consulta sobre a Nicarágua, o representante permanente do Brasil na organização, Benoni Belli, criticou a política de “paz pela força”, expressão frequentemente utilizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Embora não tenha citado o governo norte-americano diretamente, o diplomata questionou a atuação de países de fora da região em assuntos internos das nações americanas.
Na ocasião, Belli também recuperou uma frase do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pronunciada durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente naquele discurso.
Diplomata questiona conceito de “paz pela força”
Durante a sessão da OEA, Belli afirmou que a defesa da soberania e da não interferência é necessária para evitar novos episódios de instabilidade internacional. Segundo o diplomata, a ideia de “paz pela força” não representa a posição brasileira quando pressupõe a perda de autonomia de um país.
“Não acreditamos que nos convém, porém, a falsa paz que pressupõe a alienação da soberania nacional, o alinhamento automático com quem quer que seja e a resignação diante de qualquer intento de domínio colonial”, declarou.
Além disso, o representante brasileiro questionou como os países definiriam os limites para a atuação de governos externos nas Américas. Para ele, classificar determinadas atividades de países de fora da região como prejudiciais pode abrir espaço para critérios subjetivos e interpretações políticas.
A manifestação ocorreu durante a discussão sobre a situação da Nicarágua. Na ocasião, o Brasil também se opôs a trechos de uma proposta da OEA que, segundo o governo brasileiro, poderiam abrir margem para interferências nas escolhas de parcerias comerciais dos países da região.
Declaração ocorre após fala de Trump sobre eleições
A manifestação brasileira aconteceu um dia depois de Donald Trump afirmar que acompanha “bem de perto” as eleições no Brasil. Em declaração a jornalistas na Casa Branca, na quinta-feira (1º), o presidente norte-americano classificou o pleito como “muito importante”, mas não declarou apoio a nenhum candidato.
As declarações ocorrem em meio às preocupações do governo Lula com uma possível interferência externa no processo eleitoral. O presidente brasileiro já havia pedido publicamente que Trump não se envolvesse na disputa.
Em entrevista divulgada anteriormente, Lula afirmou que o presidente dos Estados Unidos poderia enfrentar consequências políticas caso tentasse interferir nas eleições brasileiras. O petista também tem utilizado a defesa da soberania nacional como um dos temas centrais de seus discursos recentes.
Soberania nacional ganha espaço no discurso de Lula
Durante a Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro, Lula criticou a ingerência externa em processos eleitorais e afirmou que a democracia voltou a estar em risco na América Latina. Na mesma ocasião, o presidente defendeu que os países da região tenham autonomia para definir seus próprios caminhos políticos.
A posição também aparece nas manifestações do governo brasileiro sobre ações dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe. Em janeiro, o Brasil condenou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças norte-americanas, conforme relatado no material de origem.
Em julho, o ministro das Relações Exteriores também mencionou a possibilidade de uma intervenção militar norte-americana no Brasil sob o argumento de combater organizações criminosas. Na ocasião, o Itamaraty apontou que ações militares dos Estados Unidos na região poderiam estabelecer precedentes para outras operações.
O governo brasileiro não apresentou, na sessão da OEA, uma acusação direta de que os Estados Unidos estariam interferindo nas eleições de outubro. A manifestação de Belli concentrou-se na defesa da soberania nacional, na rejeição ao alinhamento automático entre países e nos limites da atuação de potências externas.
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