Setor produtivo de Goiás prevê aumento de preços com o fim da escala 6×1
Representantes empresariais defendem que a redução da jornada para 40 horas semanais elevará custos operacionais
O Senado Federal aprovou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que decreta o fim da jornada de trabalho de seis dias por um de descanso. O texto, aprovado com 75 votos a favor e apenas um contra em votação de dois turnos, institui a obrigatoriedade da escala máxima de 5×2, sem alteração salarial, e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais.
Pelo projeto aprovado na última quarta-feira (14), as regras têm um cronograma apertado. Sessenta dias após a promulgação da PEC, todas as empresas brasileiras deverão adotar obrigatoriamente a escala 5×2 e não poderão exigir mais do que 42 horas semanais dos funcionários. Depois de mais 12 meses, completando um ciclo de transição de 14 meses, a carga horária deverá ser reduzida definitivamente para o teto de 40 horas.
A aprovação, celebrada nas ruas pelas centrais sindicais, deve beneficiar cerca de 26,8 milhões de trabalhadores em todo o país, segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), número que engloba tanto empregados formais quanto informais.
Reação empresarial em Goiás
Se de um lado a PEC promete descanso e ampliação do convívio familiar para o trabalhador, do outro, a medida preocupa o setor produtivo goiano. As entidades que representam o empresariado, em especial as ligadas ao comércio, serviços e indústrias, preveem um salto nos custos operacionais com impacto na inflação.
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Goiás (Fecomércio-GO), Marcelo Baiocchi, afirmou que recebeu a aprovação “com preocupação”. Segundo Baiocchi, o impacto será concentrado nas operações menores e naquelas que funcionam nos fins de semana e feriados. “Quem tem um funcionário vai ter que ter dois, 100% de aumento de quadro. Esse é um exemplo simples, mas ilustra o tanto que impacta nos pequenos negócios. E as empresas vão ter que fazer conta, porque o ônus é maior”, ressaltou.
O presidente da Fecomércio prevê um cenário de repasse desses custos para o consumidor. “A longo prazo, o impacto é preço, é consumo, é inflação. Há uma expectativa de que isso pode gerar até 30% de aumento em algumas situações onde a mão de obra é mais intensiva”, pontuou.
Baiocchi destacou ainda que a nova escala inicial entra em vigor no dia 20 de dezembro, no auge do faturamento do varejo. “Um belo presente de Natal que o empresário está ganhando contra a sua empresa. Ele vai ter que adequar o horário de atendimento, a escala e, se isso não for possível, investir em tecnologia, inteligência artificial, automação e novos equipamentos”, completou.
Indústria goiana
No campo industrial, o impacto também chega, embora de forma diferente, já que parcela das fábricas de grande porte atua com turnos diferenciados. O vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Flávio Rassi, esclareceu que, apesar de muitas atividades industriais goianas já operarem no sistema 5×2, a restrição para 40 horas semanais forçará uma revisão nas planilhas e processos.
“A mudança não envolve apenas a reorganização dos dias de trabalho, mas a redução da jornada sem diminuição salarial, o que eleva despesas”, destacou. Para Rassi, o desafio maior recai sobre os segmentos que operam de forma contínua e dependem de intensa força de trabalho física. “Não é possível afirmar que haverá queda de produção em toda a indústria goiana, entretanto, existe o risco de aumento de custos e redução da capacidade produtiva nas empresas que não consigam repor as horas de trabalho”, comentou
Embora os defensores da PEC argumentem que a extinção do 6×1 elevará a produtividade devido ao maior descanso do funcionário, a Fieg trata o cenário com cautela. “A redução da jornada, por si só, não garante aumento de produtividade nem resolve automaticamente a escassez de mão de obra. A automação pode contribuir, mas exige investimentos e não está igualmente disponível para empresas de todos os portes”, defendeu.
Para evitar demissões ou o estrangulamento das indústrias, a entidade cobra contrapartidas imediatas do poder público para equilibrar as contas do setor produtivo. “A preocupação da Fieg é que a mudança seja acompanhada de condições para que as empresas mantenham a produção e os empregos”, disse.
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