Amyr Klink fala sobre “100 Dias”, filme que adapta sua histórica travessia do Atlântico Sul
Em entrevista ao O Hoje, navegador revela bastidores da travessia de 1984 e fala sobre Carlos Saldanha, o ator goiano Filipe Bragança e as relações familiares que ganham espaço na tela
Antes de enfrentar o Atlântico Sul sozinho, Amyr Klink precisou aprender a lidar com o que poderia dar errado. Em vez de procurar inspiração apenas nas grandes travessias, estudou fracassos, naufrágios e erros de preparação. Quarenta e dois anos depois da viagem de 1984, essa experiência ganha uma adaptação cinematográfica em 100 Dias, filme de Carlos Saldanha que estreia em 29 de outubro. Em entrevista exclusiva ao jornal O Hoje, o navegador relembra os desafios da expedição e as relações familiares que também ganham espaço na tela.
Aos 28 anos, Klink partiu de Lüderitz, na Namíbia, em um pequeno barco a remo e alcançou o litoral baiano após cerca de cem dias de navegação. Tornou-se a primeira pessoa a cruzar sozinha o Atlântico Sul a remo. A experiência deu origem ao livro Cem Dias Entre Céu e Mar, agora adaptado para o cinema com Filipe Bragança no papel principal. Ao recordar a viagem, o navegador chama atenção para um aspecto que costuma receber menos destaque do que as tempestades e os perigos do oceano: a preparação.
Na época, Klink trabalhava em um banco e planejou a expedição como um projeto empresarial, estudando os erros de outros navegadores. “Fui aprendendo também que às vezes o impossível não é porque é difícil, é porque simplesmente ninguém foi lá e fez”, afirma.
Ao projetar o IAT, pediu ao engenheiro Furia um barco que não capotasse. O especialista, porém, propôs uma embarcação capaz de voltar à posição normal após virar. “Eu primeiro achei uma loucura, uma decisão completamente alucinada, mas aos poucos ele me convenceu de que de fato eu tinha que conviver com o problema”, recorda. A solução foi decisiva para concluir a travessia.
Muito além de uma viagem solitária
Embora tenha cruzado o Atlântico sozinho, Klink afirma que não se sentiu isolado. Ao alcançar a metade da rota, percebeu a importância das pessoas que contribuíram para a expedição. “Eu nunca estive tão próximo dos amigos que eu tenho dos dois lados do Atlântico como hoje”, escreveu em seu diário, conforme relembra na entrevista.
Essa participação de familiares e amigos também ganha espaço em 100 Dias. O roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares aborda os preparativos e as relações do navegador com a família. Philippine Leroy-Beaulieu interpreta sua mãe, Asa; Felipe Camargo vive o pai, Jamil; e João Vitor Silva, o irmão Tymur.
Klink conta que manteve os planos em segredo do pai, enquanto a mãe o ajudou nos preparativos e Tymur ofereceu apoio em terra. Ao assistir à adaptação, surpreendeu-se com a maneira como essas relações foram retratadas. “Mas no final foi engraçado perceber como eles conseguiram colocar esse conflito familiar dentro da narrativa do filme, né?”, comenta. A semelhança entre os atores e seus familiares, especialmente João Vitor Silva no papel do irmão, também o impressionou.
Da experiência real às telas
A adaptação marcou o retorno de Carlos Saldanha ao Brasil para dirigir uma história que conhecia desde a juventude, quando leu o livro de Klink. Responsável por animações como A Era do Gelo e Rio, o cineasta assina seu primeiro longa com atores filmado inteiramente no país. Para transformar o relato em cinema, contou com liberdade concedida pelo próprio navegador.
Klink explica que preferiu não acompanhar de perto a produção. Já havia observado adaptações nas quais a preocupação dos autores com cada detalhe dificultava o trabalho da equipe. Por isso, comunicou a Saldanha que não pretendia interferir. “O livro é meu, o filme é seu, faça do jeito que você achar melhor”, disse ao diretor, conforme recorda.
A liberdade, entretanto, não impediu que o cineasta se dedicasse a uma reconstrução cuidadosa dos acontecimentos. Klink afirma ter ficado impressionado com a pesquisa, os cenários e a caracterização do elenco. “E no final eles foram de um rigor e de uma fidelidade que são emocionantes de verdade”, avalia.
A atuação de Filipe Bragança foi outra surpresa. O navegador admite que não conhecia o ator goiano e decidiu assistir a Meu Sangue Ferve por Você, filme em que Bragança interpreta Sidney Magal. A experiência o convenceu de que a escolha funcionaria. Ao ver cenas de 100 Dias, reconheceu características que considerava difíceis de reproduzir.
“Ele interpreta de uma maneira incrível: pequenos trejeitos, os movimentos, o modo de segurar o lápis, o jeito de celebrar”, elogia Klink. O filme teve sua première mundial no Festival do Rio e acompanha tanto a travessia quanto episódios anteriores à partida, incluindo a construção do barco.
O que ficou dos 100 dias no mar
Entre os momentos de 1984, a chegada à Bahia guarda uma lembrança diferente daquela que o público poderia imaginar. Klink conta que as últimas 30 ou 40 horas foram particularmente tensas. Sua preocupação era encontrar um ponto seguro para lançar a âncora com as próprias mãos, sem depender de uma chegada improvisada.
O alívio veio somente quando alcançou a Praia da Espera, em 18 de setembro. “Tenho saudade do que aconteceu depois que a âncora unhou”, afirma. Foi nesse instante que conseguiu reconhecer plenamente o êxito da expedição.
Ao olhar para o jovem que partiu da África, Klink identifica aprendizados que continuaram presentes nas viagens posteriores. Entre eles, destaca a eficiência, a simplicidade dos projetos e o cuidado para evitar desperdícios. Esses princípios passaram a orientar também seu trabalho com embarcações, atividade à qual permanece ligado.
A história, entretanto, ultrapassou os círculos da navegação. Klink conta que encontra estudantes que chegaram ao livro por indicação das escolas ou dos próprios pais. São leitores nascidos muito depois da expedição, mas interessados em compreender as decisões que tornaram a viagem possível. Para ele, a chegada do relato aos cinemas pode ampliar esse contato entre gerações.
Mais do que ver sua história reproduzida na tela, o navegador espera que a experiência desperte nos espectadores a disposição de enfrentar desafios e considerar possibilidades que parecem distantes.
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