O que os números da Argentina mostram sobre o modelo econômico de Milei
Argentina de Milei vira referência para Flávio Bolsonaro; veja os dados da economia
A economia da Argentina passou a ocupar espaço no debate eleitoral brasileiro após o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresentar o governo de Javier Milei como uma referência para suas propostas econômicas. Durante o confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no domingo (18), Flávio foi questionado sobre sua proximidade com o líder argentino e sobre a possibilidade de adotar medidas semelhantes no Brasil.
No mês passado, a coordenadora econômica da campanha do senador, Daniella Marques, afirmou que o plano de governo se inspira nas mudanças implementadas por Milei. Durante um evento do Esfera Brasil, ela citou as iniciativas para atrair investimentos, reduzir a burocracia e diminuir impostos.
“Vamos usar de inspiração no que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina”, declarou Marques. Segundo ela, o presidente argentino é um exemplo na tentativa de simplificar regras e melhorar o ambiente de negócios.
A coordenadora também afirmou que um eventual governo Flávio Bolsonaro pretende mapear e revogar mais de mil normas infralegais. A proposta inclui revisar obrigações acessórias e regulamentos que, na avaliação da equipe econômica, aumentaram a tributação ou dificultaram a atividade das empresas.
Entretanto, os resultados da economia argentina apresentam diferentes aspectos. Desde que Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, o país reduziu o ritmo de aumento dos preços. Ao mesmo tempo, ainda enfrenta dificuldades relacionadas à pobreza, ao mercado de trabalho e ao crescimento econômico.
Inflação recuou, mas os preços continuam subindo
A redução da inflação está entre os principais resultados econômicos associados ao governo de Javier Milei. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), a inflação acumulada em 12 meses chegou a 211,4% em dezembro de 2023, quando o presidente assumiu o cargo.

O indicador continuou subindo nos meses seguintes e atingiu 289,4% em abril de 2024. Depois desse pico, a inflação começou a recuar. Em dezembro daquele ano, a taxa acumulada em 12 meses caiu para 117,8%. Em dezembro de 2025, chegou a 31,5%.
Em setembro de 2026, a inflação acumulada em 12 meses estava em 33,4%. Portanto, o ritmo de aumento dos preços ficou muito abaixo do registrado no início do governo Milei, embora continue elevado.
Para conter a inflação, o governo adotou medidas de austeridade fiscal, restrição monetária e valorização cambial. A estratégia busca reduzir a pressão sobre os preços e as contas públicas.
No entanto, a queda da inflação não significa que os produtos tenham ficado mais baratos. O indicador mede a variação dos preços em determinado período. Assim, quando a inflação diminui, os preços continuam subindo, mas em um ritmo menor.
Pobreza volta a subir após recuo em 2025
A trajetória da pobreza mostra outro aspecto da economia argentina. De acordo com o Indec, a proporção de pessoas abaixo da linha da pobreza passou de 4,7% no primeiro semestre de 2013 para 52,9% no primeiro semestre de 2024. Esse último resultado foi registrado nos primeiros meses do governo Milei e representou o maior patamar da série recente mencionada no levantamento.
Depois disso, o indicador recuou. A taxa caiu para 38,1% no segundo semestre de 2024. Em 2025, chegou a 31,6% no primeiro semestre e a 28,2% no segundo, o menor nível desde 2018.

A melhora, porém, perdeu força em 2026. No primeiro semestre deste ano, a pobreza voltou a subir e alcançou 32,3%. Segundo o levantamento, que abrange 31 aglomerados urbanos, cerca de 9,7 milhões de argentinos viviam nessa condição no período.
A extrema pobreza também aumentou. A proporção da população nessa situação passou de 6,3% no segundo semestre de 2025 para 7,5% no primeiro semestre de 2026, o equivalente a aproximadamente 2,2 milhões de pessoas.
Na metodologia argentina, a extrema pobreza, chamada de indigencia, inclui pessoas cuja renda não permite comprar uma cesta de alimentos suficiente para atender às necessidades diárias de energia e proteína.
Os dados mostram que a redução da inflação não foi acompanhada por uma queda contínua da pobreza. Embora o indicador social tenha melhorado ao longo de 2025, voltou a subir no ano seguinte.
PIB voltou a crescer, mas atividade perde força
A economia argentina também alternou períodos de retração e recuperação nos últimos anos. Segundo os dados do Banco Mundial citados no levantamento, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 1,86% em 2023 e 1,34% em 2024. Em 2025, porém, o indicador avançou 4,37%.
A contração de 2023 ocorreu no último ano do governo de Alberto Fernández. Já em 2024, primeiro ano completo da gestão Milei, a economia voltou a encolher. O resultado de 2025 representou uma recuperação após dois anos consecutivos de queda.
Em 2020, durante a pandemia de covid-19, o PIB argentino recuou 9,9%. Nos dois anos seguintes, a economia cresceu 10,44% e 6,02%, respectivamente, antes de voltar a registrar resultados negativos em 2023 e 2024.
Em 2026, a atividade econômica voltou a apresentar sinais de desaceleração. A economia recuou 0,6% no segundo trimestre. Caso registre nova queda no terceiro trimestre, o país poderá entrar em uma recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de retração.
A expectativa de crescimento para 2026 está em torno de 1,5%, abaixo das projeções que investidores tinham no início do ano.
Dessa forma, os números indicam que a recuperação registrada em 2025 não eliminou as dificuldades para manter o crescimento econômico. A evolução da atividade nos próximos trimestres será importante para avaliar a continuidade dessa retomada.
Desemprego aumenta e consumo enfrenta dificuldades
O mercado de trabalho também apresenta sinais de pressão. Segundo o Indec, a taxa de desemprego chegou a 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período de 2025.
Apesar da alta anual, o indicador permanece próximo de níveis registrados em diferentes momentos da última década. Nesse intervalo, o desemprego oscilou em meio a períodos de crise econômica, recessão e recuperação.
Em 2022, a taxa média anual ficou em 6,81%. Em 2023, caiu para 6,14%. Já em 2025, chegou a 7,15%.
No segundo trimestre de 2026, a taxa de atividade — que mede a parcela da população que trabalha ou procura emprego — ficou em 48,9%. A taxa de emprego foi de 45%, enquanto a subocupação alcançou 11,5%.
Além disso, quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade, sem vínculo formal de emprego, conforme os dados apresentados no texto-base.
Esse cenário afeta o consumo das famílias e o desempenho das empresas. Com menor poder de compra, parte dos consumidores reduz as despesas. Ao mesmo tempo, os produtores locais enfrentam dificuldades para competir com produtos importados.
Segundo o Centro de Economia Política Argentina (Cepa), as importações de bens de consumo cresceram 34,7% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2023. No mesmo intervalo, a produção industrial argentina caiu 12%.
Dados da União Industrial Argentina e da Confederação Argentina da Média Empresa também apontam que os custos elevados e o endividamento das famílias limitam o consumo e as atividades dos negócios locais.
O que os números representam para o debate brasileiro?
A experiência argentina entrou no debate eleitoral brasileiro por meio das propostas apresentadas pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro. A coordenadora Daniella Marques defende o uso de medidas semelhantes às de Milei para reduzir a burocracia, revisar normas e atrair investimentos.
A proposta de revogar mais de mil normas infralegais está entre as iniciativas anunciadas pela equipe. Segundo Marques, a revisão buscaria simplificar obrigações e reverter medidas que elevaram a tributação por meio de regulamentos.
Os indicadores argentinos, por sua vez, mostram resultados distintos entre as áreas analisadas. A inflação acumulada em 12 meses caiu em relação ao pico de 2024, e o PIB voltou a crescer em 2025. Entretanto, a pobreza aumentou novamente no primeiro semestre de 2026, o desemprego registrou alta anual e a atividade econômica perdeu ritmo no segundo trimestre.
Esses dados permitem identificar tanto os resultados da política econômica de Milei quanto os desafios que permanecem no país. A eventual adoção de medidas semelhantes no Brasil dependeria das propostas apresentadas pela campanha e das condições econômicas e institucionais brasileiras.
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